O ex-diretor-presidente da Ancine, Alex Braga, com o então secretário especial de Cultura de Bolsonaro, Mario Frias, inimigo declarado da cultura brasileira

Após quase uma década, Alex Braga Muniz deixa de ir, pela primeira vez, à Agência Nacional de Cinema (Ancine) como diretor da instituição. Após 5 anos como diretor-presidente da Ancine, o mandato do último nomeado por Jair Bolsonaro expirou ontem, segunda-feira, 19 de outubro de 2026. Assume como diretora-presidente substituta a gestora Patricia Barcelos, nomeada por Luiz Inácio Lula da Silva em setembro de 2025 e que, como adiantou o FAROFAFÁ, deve se tornar a nova presidente da agência.

Os mandatos de diretor-presidente para as agências reguladoras do Estado brasileiro têm 5 anos de duração, mas a longevidade de Alex Braga é explicada por outros motivos. Ele foi nomeado diretor da Ancine lá em outubro de 2017 por Michel Temer, governo de transição antidemocrática, sob indicação do MDB do Rio de Janeiro – notoriamente, pelo então grupo capitaneado no MDB pela deputada Soraya Santos e do ex-ministro de Temer, Sérgio Sá Leitão. Soraya Santos migraria depois para o PL e se tornaria líder do grupo dos Bolsonaro no Congresso.

Alex Braga fez valer a confiança de seus padrinhos políticos. Tanto que, em dezembro de 2020, o MPF moveu uma ação contra ele e outros dirigentes da Ancine, sob a acusação de interromper a tramitação de centenas de projetos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA, que fomenta o cinema brasileiro), omitir informações e não fixar prazos para regularização. O processo foi acolhido pela Justiça Federal. Aquele se tornou um dos períodos de maior penúria do cinema brasileiro, recuperado em parte nos últimos quatro anos. Braga foi também acusado de censura, de aparelhamento e de indiferença para as questões de democratização da produção audiovisual brasileira. Nos últimos dias, na iminência de perder o feudo, Braga começou a exonerar alguns dos seus auxiliares. Entre eles, alguns que vieram da área de influência de Soraya Santos e do bolsonarismo.

Com sua saída, pela primeira vez, o colegiado da Ancine passa a ser totalmente integrado por nomes indicados pela gestão Lula. Essa diretoria, no entanto, tem se mostrado pouco afeita às questões mais prementes do debate público nacional. Até agora, não significou grande avanço para o setor. Na última semana, por exemplo, houve um ataque de ódio à democracia e xenofobia ao site da Ancine, promovido por apoiadores da candidatura de extrema-direita de Flávio Bolsonaro. A Ancine, em vez de cobrar publicamente uma investigação policial, não se manifestou a respeito.

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