
O que aconteceria se uma criação artística precisasse passar por um departamento burocrático antes de exitir? Isso é realidade e também a premissa de O funcionário que pede para não ser identificado, espetáculo escrito e dirigido por Michel Melamed, em cartaz no Teatro Anchieta, no Sesc Consolação. O autor imagina um universo absurdo, mas bem familiar da classe teatral: um Setor de Registro e Produção de Obras Artísticas, onde ideias e projetos são avaliados, aprovados ou rejeitados antes de chegar ao mundo. A trama acompanha uma funcionária incapaz de criar a sua própria obra, mas que encontra prazer em rejeitar as criações dos outros, até que ela decide construir uma outra coisa a partir de tudo o que já foi repelido pelo sistema.
Essa sinopse precisa estar bem fresca na cabeça de quem vai ao teatro. O texto de Melamed não é de fácil assimilação, porque complexifica a cena e não abre brechas para a simplificação. No palco, quatro atrizes vestem roupas de formas geométricas ou disfórmicas, quase infantis, que representam O funcionário que pede para não ser identificado. Na verdade, são quatro funcionárias em cena: Inez Viana, Simone Mazzer, Thalma de Freitas e Yasmin Gomlevsky, que descontroem a figura solitária do burocrata em um jogo cênico fragmentado e ritmado – é uma “comédia poética musical”.

Ao estruturar a narrativa dessa forma, a peça dialoga com a classe artística, e até debocha dela, o que provoca diferentes tipos de risos na plateia. Há a gargalhada provocada pela piada pela piada, pelo trocadilho rápido, mas há também o riso da jocosidade incômoda, que atinge em cheio a própria classe artística que muitas vezes sucumbe às regras do jogo. Que joguem a primeira pedra aqueles que nunca tiveram de se submeter à lógica do mercado, às amarras dos editais de fomente e às concessões algorítmicas das redes sociais. É isso ou o silêncio.
A intenção evidente de O funcionário que pede para não ser identificado (também publicado em livro, pela Cobogó) é transmitir ao público a tese de que “a arte pode ser o espaço onde outras formas de existência são imaginadas, experimentadas e compartilhadas” contra a pasteurização do cotidiano, das fórmulas prontas. Mas ao recusar a simplificação formal, a encenação cria uma espécie de barreira que impede que o espetáculo flua justamente nessa direção mais libertária, por assim dizer, mantendo o espectador por vezes distante da catarse. Ela está ali, mas pode ser que para muitos fique adormecida.
Não se trata de uma montagem para ir com a certeza de que vai gostar. Vale pela experiência se o espectador se permitir entender que a arte é justamente esse campo de fricção, permeado por relações de poder, veleidades, vaidades e, essencialmente, uma vontade intrínseca de tocar a vida das pessoas. É na persistência desse embate, que não é de hoje entre o peso das estruturas e o impulso inventivo, que o teatro reafirma sua razão de ser.
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