Documentário “Bomba no miolo da história” tem pré-estreia nesta sexta (15) e apresenta Geovane Correia, o Bomba, um miolo, este personagem fundamental para o bumba meu boi
Em grupos de bumba meu boi, geralmente o único nome lembrado, em meio a todos que fazem a festa acontecer, é o do amo/cantador. Quase ninguém sabe o nome de algum dos inúmeros músicos e/ou dançarinos/as, entre outros. Estamos falando de uma manifestação da cultura popular cujos grupos mobilizam centenas de brincantes cada. Não dá para comparar com uma banda de rock, por exemplo, que o fã clube consegue memorizar o nome de quatro ou cinco artistas e seus respectivos instrumentos musicais.
Figura mais injustiçada, por assim dizer, que qualquer dos exemplos citados acima, é o miolo: o homem por debaixo da carcaça enfeitada e bordada do bumba meu boi.
O dicionário traz diversos significados para miolo, desde a parte central do pão, de livros ou determinadas frutas, a parte mais central ou profunda de algo, sinônimo de âmago, cerne ou tutano, mas também de juízo e massa encefálica. Além de “parte mais importante de uma coisa”.
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QUERO APOIARNo bumba meu boi é o homem que, anônimo, garante o bailado, a evolução, a performance, em qualquer dos sotaques conhecidos no Maranhão: zabumba, matraca, pandeirão, orquestra, costa de mão e caixa. O miolo é, ao mesmo tempo, a cabeça, o coração e a alma da coisa.
“Sem miolo o Boi não dança/ E o que vem a ser Miolo?/ Miolo é o homem que dança/ debaixo do Boi”, lemos a definição, escrita como uma quadra, nas costas da camisa de Geovane Correia, o Bomba, há mais de 40 anos na função, tendo passado por diversos grupos de bumba meu boi, de todos os sotaques.
É ele o protagonista de “Bomba no miolo da história” [documentário, Brasil, 2026, 25 minutos]. Com produção, roteiro e direção de Igor Nascimento e Lauande Aires, o filme conta a história de Bomba num misto de homenagem e reconhecimento de seu saber como mestre de cultura popular, com a reverência de seus pares.
O média-metragem mergulha no universo das festas populares, sobretudo o anual encontro de Miolos, que ocupa as ruas da Praia Grande, bairro do Centro histórico da capital maranhense, a árvore genealógica (Geovane é filho e neto de brincantes), o transporte entre os arraiais, a religiosidade na linha tênue entre sacro e profano das manifestações típicas do período junino no Maranhão, mas também sua vivência na comunidade do bairro/quilombo urbano da Liberdade, além do cotidiano comum, entre paisagens como a feira e os botecos do bairro, as sedes dos Bois de Leonardo (ou da Liberdade) e da Floresta e sua vida doméstica, num casamento inter-religioso, realizado “na boca do tambor” — ele frequenta terreiros de religiões de matriz africana, a esposa é evangélica.
Geovane, o Bomba, foi a inspiração para Lauande Aires escrever “O miolo da história”, espetáculo teatral solo que teve o merecido reconhecimento integrando o Palco Giratório do Sesc e recebendo o Prêmio Funarte Myriam Muniz. Em 2000 o Miolo subiu de joelhos os 47 degraus da Capela de São Pedro, com o boi nas costas, pagando uma promessa. A peça estreou 10 anos depois. E agora o documentário sobre o personagem, que ajuda a jogar luz sobre essa figura tão importante quanto escondida, para além da natureza própria da função.
Serviço: A pré-estreia de “Bomba no miolo da história” acontece nesta sexta-feira (15), às 19h, no Cinema Sesc Deodoro, com entrada franca.





