Sebastián Piracés-Ugarte
Sebastián Piracés-Ugarte se auto-fotografa em casa, no estúdio, no escritório

“Suno é a Ozempic da indústria musical: está todo mundo usando e ninguém quer falar sobre”, diz o músico mexicano naturalizado brasileiro Sebastián Piracés-Ugarte, da banda Francisco, el Hombre, citando uma fala recente do estadunidense Mikey Shulman, fundador e presidente da plataforma de inteligência artificial conhecida como Suno, dedicada a “compor” músicas automaticamente. A comparação com as famigeradas “canetas de emagrecer” dimensiona o tamanho do bicho-papão chamado IA no território da música popular, entre dados assustadores como a chegada de 13 milhões de canções com inteligência artificial à plataforma Deezer apenas em 2025 (o equivalente a 60 mil músicas por dia) ou o fato de que 97% dos ouvintes não conseguem diferenciar faixas criadas por IA de músicas compostas por humanos (uma cifra que deve incluir você, eu e a torcida da seleção nacional).

Aos 35 anos, Sebastián Piracés-Ugarte é um dos músicos independentes brasileiros com maior disposição de enfrentar publicamente os monstros do admirável mundo novo da música por IA. Ele aborda o assunto em suas redes sociais com proposições provocativas, que deixam um buraco no estômago no que se refere ao futuro de curto, médio e longo prazo. “Em tempos de IA e a subsequente padronização (e pasteurização) da música, tenho visto cada vez mais beleza no torto, estranho, feio – naquilo que é ainda irreproduzível pelo algoritmo. Vejo mais beleza na voz desafinada, na gravação caseira imperfeita, na produção inexperiente”, afirmou no dia 8 de abril. “Em tempos de IA e a padronização de música ultraperfeita, o desafio é fazer o show mais estranho, feio, esquisito e irreproduzível por IA”, complementou em 10 de abril, exprimindo um assombro que não nega o fascínio, mas está longe do oba-oba acrítico frente ao avanço tecnológico.

Desde que a Francisco, el Hombre anunciou a parada de suas atividades, em 2025, Sebastián se divide em duas frentes. Prepara uma turnê de retorno a seu projeto solo, o ato punk rock Sebastianismos (o nome de sua arroba nas redes sociais), sob o qual lançou os álbuns Sebastianismos (2020) e Tóxico (2021). De outra parte, ele, formado historiador com ênfase em antropologia pela Unicamp (onde a Francisco, el Hombre se agrupou), mergulha nos estudos sobre assunto escorregadio e palpitante, que deve culminar neste ano no ingresso num mestrado nas áreas de comunicação e tecnologia. “Para quem não conhece meu lado acadêmico, tenho pesquisado como IA e plataformas digitais afetam o músico independente (trabalhador autônomo)”, explicou em 9 de abril, quando amplificou a incômoda comparação entre Suno e Ozempic.

Soa incomum sua inclinação a encarar a atuação na música pop menos como estrelato, celebridade e ostentação, mais como trabalho braçal, autônomo e precarizado. “Nos últimos anos tenho me sentido muito insatisfeito com o mundo no geral, mas com várias questões do mundo de que participo, a indústria cultural. Tem muitas coisas que me geram incômodos, mas eu não sabia definir”, conta o artista, em entrevista concedida no Armazém do Campo, do Movimento Sem Terra, na região central de São Paulo.

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“Quando a Francisco parou com o movimento geográfico, com as turnês, comecei a sentir muitas insatisfações com o mundo, com o sistema, com a gente. O que é a indústria cultural? O que é arte independente? Por que a gente está o tempo inteiro na tela do celular? A gente é independente mesmo? Independente do quê? Por que a gente trabalha do jeito que a trabalha? Por que está cronicamente cansado? Por que a gente não se relaciona? Por que não muda o mundo? Enfim, várias insatisfações foram surgindo, e eu quis estudar. Aproveitando que parei, poderia dizer que talvez entrei em crise? É, poderia. Não, com certeza entrei em crise.”

A primeira iniciativa que tomou em direção ao mergulho acadêmico foi reler O Capital, de Karl Marx. “Curiosamente, a partir dessa releitura de Marx, a poeira começou a assentar. Comecei a entender um pouquinho mais os sentimentos, esse cansaço de estar online, essa obrigação de fazer tantas funções. Um artista independente, nos dias de hoje, em sua maioria, é tudo menos artista. É um grande gestor de si mesmo, empreendedor, empresário, que joga conforme as regras do próprio sistema”, avalia.

“Brasilatinamericano” (2025)

Sebastián Piracés (nome artístico que adotou pela primeira vez no ano passado, ao lançar o divertido EP Brasilatinamericano) divide suas impressões sobre o boom IA que comove o mundo de 2026: “Tem pessoas que apresentam a IA como se fosse uma ruptura, nossa, o mundo mudou completamente. Não. Eu vejo muito mais como um projeto continuado, onde o poder se mantém no lugar e se concentra. E nós estamos muito reféns do poder. A IA tem o discurso da democratização do acesso, mas a gente sabe que é a manutenção do poder, e de uma forma muito íntima, porque ela consome nossos dados, desde tempo de tela até que botão a gente aperta, onde a gente anda, o que a gente gasta. É uma concentração de sabedoria sobre todos os seres humanos conectados que é extremamente assustadora e nos faz imaginar cenários muito assustadores, que têm se transformado em realidades”.

Ele define o veio que pretende explorar na futura pós-graduação: “Minha hipótese é que a inteligência artificial não revoluciona o mercado e sim continua um caminho de precarização do trabalho e sobrecarrego de funções. IA chega e fala: ‘Olha, agora você não tem que contratar estúdio e músico, você pode só usar minha plataforma’. Ao mesmo tempo, a gente vê que as plataformas digitais exigem cada vez mais o nosso tempo, mais a nossa presença e mais múltiplas funções. O trabalhador autônomo na música tem se visto cada vez mais sobrecarregado, e não necessariamente essas ferramentas resolvem a exaustão e o cansaço”. Sebastián Piracés está falando sobre a profissão de músico, em termos que caberiam com folga aos ofícios (empreendimentos?) de jornalista, escritor, videomaker, cineasta, artista gráfico, motorista de Uber, entregador de iFood etc. O Grande Irmão, finalmente, está mostrando suas garras, sob disfarces capazes de enganar somente os menos atentos.

“Soltasbruxa” (2016), estreia da Francisco, el Hombre

Co-autor de rocks eloquentes da Francisco, el Hombre, como “Tá com Dólar, Tá com Deus”, “Calor da Rua”, “Soltasbruxa”, “Triste, Louca ou Má”, “Bolso Nada” (2016), “Pegando Fogo”, “Imagina o Amanhã” (2019), “Nada Conterá a Primavera” (2021) e “Ensimesmado” (2024), Sebastián Piracés deschava (verbo que usa para destrinchar Marx) a encrenca em que estamos encalacrados: “A tecnologia deve vir para nos auxiliar, o problema é quem é dono dessa tecnologia e se vai nos auxiliar. O que a gente vê de fato é que a tecnologia, da forma como está sendo feita pelas grandes empresas e corporações, veio para nos colocar numa condição de a serviço deles”.

Ele não usa o termo “escravização”, mas poderia. “Isso é muito interessante, porque boa parte das tecnologias são desenvolvidas com dinheiro público, em universidades públicas. As tecnologias por trás do iPhone, o toque da tela, o wi-fi, tudo isso vem de estudos com dinheiro público, feitos para trazer a forma mais positiva da palavra progresso”, denuncia (sem precisar usar termos explícitos) a privatização capitalista de mais de uma forma de riqueza.

Vídeo divulgado por Sebastián Piracés em suas redes sociais

O admirável mundo (novo?)

Feitas as ressalvas, Sebastián decupa suas relações com IA, Suno etc.: “Não vou mentir, Suno é uma plataforma como nada que eu tinha visto. É revolucionário, é maluco, quase mágico. Realmente é uma ferramenta que revoluciona a vida do compositor, do criador, do arranjador. Uma pessoa não precisa ter musicalidade nem saber nada sobre música para conseguir começar a produzir música. Um músico com musicalidade capacitado vai poder usar a ferramenta a seu favor”. Ele estabelece comparação (quase) iluminista: “Se o Photoshop veio para mudar o mundo da manipulação da imagem, o Suno é o próximo passo. Se a guitarra elétrica veio para mudar a relação com o violão, se o martelo passa a substituir o punho, o dente e a faca, o Suno é mais um passo dado. Vejo com muitos bons olhos o avanço tecnológico, mas que anda de mão em mão com possibilidades apocalípticas de fim de mundo”.

E o que seria o fim do mundo para a música, de seu ponto de vista? “Nas plataformas de IA, no Suno por exemplo, muda completamente a nossa forma de escuta e de criação. Qualquer um pode criar. Em segundos. Em segundos você faz uma música melhor do que a maior parte das músicas que você já ouviu na vida. É assustador. Muda como a gente ouve a música, porque cria novas referências de música e produção, tira as etapas mais artesanais que existem por trás da música, que são trabalhos”. As inquietações crescem, incontornáveis: “Mas as imperfeições trazem estéticas também, a humanidade traz acertos em seus erros. E o que a Suno faz é a pasteurização dos gostos musicais. Então, sim, o Suno cria músicas incríveis e perfeitas, mas tudo é perfeito conforme os padrões da produção mais bem produzida do mundo”. 

Mas o “perfeito” é necessariamente bom de ouvir? “Para um ouvido que se acostuma com essa forma de produção musical, ele é bom de ouvir. Mas eu já estou ficando enjoado, porque essa padronização da perfeição nos adoece, mas a gente não percebe isso. Toda padronização é doentia, a padronização dos corpos, a padronização do gênero, da beleza. O padrão é fascista. Quando o Suno produz músicas perfeitas, a forma como a gente consome e se relaciona com música é alterada”. As indagações-inquietações se empilham: “Onde está a outra música, a música artesanal? Vai ser descartada? O que é a humanidade? Onde estão os resquícios de humanidade? Isso é de se assustar”.

A equação que Sebastián Piracés procura encontrar reproduz embates imemoriais, tipo Davi x Golias, homem versus máquina, capitalismo contra socialismo: “Eu boto muita fé no ao vivo, no que os encontros ao vivo podem fazer. Boto fé na guitarra desafinada, na voz desafinada. A banda de punk norte-americana chama NOFX tem uma letra de música que fala da beleza da guitarra quando desafinada. E tem o canto torto, como diz Belchior. Minha maior referência atualmente é minha companheira, cujo nome artístico é Malfeitona, cujas artes malfeitas são irreprodutíveis pela IA”. Tatuadora, Helen Fernandes, a Malfeitona, tem causado espécie no meio com o chamado “ignorant style”, incitador involuntário de boicotes, abaixo-assinados e protestos de tatuadores.

De seu lado, Sebastián procura intervir no meio em que circula não apenas fazendo música, mas se envolvendo em mobilizações e discussões sobre política, direito autoral, soberania digital etc. “Meu incômodo pessoal profissional se misturou a essa pauta que é muito urgente, principalmente nesses próximos quatro anos. Defender a soberania nacional digital é uma coisa que ou a gente vai fazer mais agora ou corre risco de se lascar.”

Francisco, el Hombre, Chile, México, Estados Unidos, Brasil

O pendor ativista de Sebastián Piracés-Ugarte não é fortuito. Chileno, seu pai era militante de movimento social e foi perseguido, preso e torturado pela ditadura que matou Salvador Allende. “Ele esteve quase um ano preso em campo de concentração até ser deportado no México. Não foi permitido o retorno até 13, 14 anos depois”, conta o filho, nascido mexicano assim como o irmão Mateo Piracés-Ugarte, seu companheiro de Francisco, el Hombre. Quando Sebastián tinha cinco anos, a família se mudou para Nova Jersey, nos Estados Unidos, onde o pai prosperou até ser transferido para o Brasil pela empresa em que trabalhava, o que coincidiu com a primeira posse de Luiz Inácio Lula da Silva na presidência da República.

“A gente chegou aqui no ano do Lula 1, primeiro governo de Lula, e as revoluções, e um partido de esquerda na América Latina, Brasil ganha a Copa, tudo estava acontecendo lindamente”, recorda. No último dia 22 de abril, Sebastián evocou em sua rede social a consumação do golpe contra Dilma Rousseff, dez anos atrás: “Lembro do exato momento, subindo no palco para tocar com a Francisco no interior, quando começou a contagem. Quando desci do palco já era notícia. A gente já sentia que o Brasil estava estranho desde 2013, mas foi nesse dia que entendi o buraco que estava se mostrando, e que culminou com o inominável”.

O período estadunidense não foi suficiente para cativar Sebastián Piracés, um apaixonado pelo punk rock, mas também pelas sonoridades latino-americanas e brasileiras. Ele opina acidamente sobre os Estados Unidos: “Olha o país, é um país vampiro, que vive sugando sangue do resto do mundo. É uma população completamente ignorante, empoderada, sedada, drogada e armada”. Ele revisa o percurso que vai dar em Trump e em inomináveis afinas: “Todos os meus coleguinhas de sala eram diagnosticados, com diversos TDHs, a sobrediagnosticação que resultava em muita medicação. Todo mundo era sedado, todo mundo era drogado. O consumo de droga nos Estados Unidos é muito desenfreado, legalizadas ou não. A sociedade é armada, é muito fácil comprar uma arma no supermercado. A educação é extremamente precária, porém empoderada. Então, você é o centro do mundo. Você tem certeza que sabe de tudo. Junta esses ingredientes e não tem como não dar bom”.

A salada musical que ele pratica, portanto, parte da monda emo dos primeiros anos 2000, mas tende à América ao sul dos EUA, incluindo a tradição brasileira: “Nossa, eu amo tudo. Tudo, tudo. Sou muito eclético, adoro tudo, do rock ao samba, do rap ao sertanejo. Tem coisas que publicamente não vou defender porque tem outros valores junto, não quero ficar apoiando movimentos ligados, por exemplo, ao agro. Mas eu aprecio”.

O primeiro álbum de Sebastianismos, em 2020

A pandemia de covid-19 limitou as possibilidades do pop-art-rock-punk inspirado do primeiro álbum de Sebastianismos, então recém-lançado. “Ao mesmo tempo, a Francisco estava profundamente endividada. Muito, muito, numa quantidade que nunca imaginei. A gente tinha muitos gastos, tentava ajudar também a equipe durante a pandemia. A Vanda estava completamente desestruturada, a gente estava numa relação desgostosa, fazendo dez anos de banda nesse clima ruim”. Diante disso, ele optou por privilegiar El Hombre, num primeiro momento: “Reestruturamos a banda, conseguimos quitar a dívida, organizamos tudo, fizemos uma turnê de anos, lançamos um disco novo”. Seria uma espécie de canto de cisne, que culminou no inédito Casa Francisco (2021) e no comemorativo ao vivo 10 Años (2023).

Hoje, as reflexões sobre precarização do trabalho, cansaço crônico, big techs e IAs escravizadoras etc. conduzem à música, como não poderia deixar de ser. Diante da interrupção da Francisco, el Hombre, Sebastián questiona seu lugar num cenário governado por turnês, festivais, marcas e culto desgovernado a (sub)celebridades: “Fiquei pensando, eu todo esse tempo querendo impressionar as pessoas com minha música, caçando espaços que nem me convidam pra entrar, fazendo um esforço para participar desse status quo, para me moldar como querem que eu seja, para falar como querem que eu seja, para compor, para usar tudo em favor de uma indústria cultural que nem me quer tanto assim”.

Ele caracteriza o período pós-Francisco: “É mais guerrilha, menos estruturado, menos glorioso, mas eu nunca fiz muito dinheiro na Francisco”. No caminho espinhoso, Sebastián teve oportunidade para perceber o quanto ainda há de antiquado, quase pré-histórico, nas entranhas de um mundo hipermoderno povoado por Suno, Ozempic, IA e megaestrelas: “Essa promessa honestamente já não me ilude mais. Quando fiz 25 anos, me falaram que eu já estava ficando velho para a indústria musical. Quando me casei, produtores musicais me recomendaram não assumir o relacionamento. Para que tentar ficar me enfiando numa indústria que quer que eu seja quem eu não sou?”.

Parece que estamos falando do “reinado” romântico de Roberto Carlos na jovem guarda, mas não é o caso. “Eu sou bem normalzinho. Não vende, não tem nada espetacular. Você tem que ser desejado. Sou novo, mas já sou velho pela indústria. Por que vou ficar trabalhando por uma indústria que me acha velho, me acha desinteressante, acha que eu não sou nem afinado o suficiente?”, Sebastián Piracés-Ugarte formula mais uma interrogação, mais muitas interrogações. Davi continua enfrentando Golias, os moinhos seguem atormentando Dom Quixote, o homem e a máquina se encontram no auge de um processo distópico de fusão, confronto e luta por sobrevivência. Ainda precisamos falar sobre Suno, IA, Ozempic – e sobre música.

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