Buhr, ex-Karina Buhr, lança seu quinto álbum solo, "Feixe de Fogo" – foto Priscilla Buhr/divulgação
Buhr, ex-Karina Buhr, lança seu quinto álbum solo, "Feixe de Fogo" – foto Priscilla Buhr/divulgação

Feixe de Fogo apresenta a identidade não-binária de Karina Buhr, que a partir deste ano deixou de lado o prenome e passa a adotar simplesmente Buhr como nome artístico. Em atividade desde 1992, nos anos formativos do movimento manguebit, a então Karina Buhr participou de um sem-número de projetos musicais pernambucanos, dos maracatus Piaba de Ouro e Estrela Brilhante a coletivos do pré ao pós-mangue, como DJ Dolores e Orchestra Santa Massa, Eddie, Bonsucesso Samba Clube, Véio Magaba e Suas Pastoras Endiabradas e o feminino Comadre Fulozinha (com o qual gravou três álbuns entre 1999 e 2009). Após quase duas décadas, assumiu-se artista solo com o álbum Eu Menti pra Você (2010), cuja faixa-título martelava culpas femininas repetindo que “eu sou uma pessoa má/ eu menti pra você”. A face compositora dominou o álbum final da Comadre Fulozinha, Vou Voltar Andando (2009), e vem se desenvolvimento continuamente na carreira solo até o novo álbum, 100% autoral.

Quinto álbum solo da baiana de Salvador que cresceu pernambucana em Recife, Feixe de Fogo aborda com parcimônia e sem estardalhaço os temas de gênero, não-binariedade e fluidez. “70 Cigarros” adota perspectiva masculina (“por que você não tá em casa quando eu chego?/ acordei com frio, cabides sem seus vestidos/ nem um bilhete, mulher/ os ímãs da geladeira estão sabendo, mas nada me dizem/ sou das coisas do teu nome o último a saber”) e a primeira pessoa feminina prevalece na potente “Anzol” (“eu sou feita de força e disfarce”), mas na maior parte do tempo Buhr zela pela neutralidade, construindo um “eu” que não se define como feminino ou masculino.

Vão mais ao âmago da questão (mas ainda com grande sutileza) momentos de identidade emancipatória e feminista, já presentes em trabalhos anteriores da então Karina, em especial os imediatamente anteriores Selvática (2015) e Desmanche (2019). É o caso de quatro das melhores canções de Feixe de Fogo, “Chão Frio” (“nas ruas da cidade que a menina anda/ ela pode, ela pode, mas não deixam”), “Ânsia” (“não te esperei/ nem tudo te espera/ é sobre mim/ agora é sobre mim”), “Oxê” (“eu gostaria de um machado pro seu dedo não me apontar”) e “Anzol” (“não me diga o que fazer com meu espaço/ ele se cria pela minha mão/ espalho meus destroços nos meus dias”, “não tenho meus cadernos armados com letras/ nem seta pra apontar direção nenhuma/ não apague nem esconda minhas fomes/ não apodreça e nem seque minhas fontes/ não te deixo rir do desamparo/ não me mato”).

Nada precisa ser muito explícito, mas trechos como esses exibem uma personalidade que reivindica o direito de andar livre pelas ruas, que pensa primeiro em si, que rejeita o julgamento condenatório dos outros, que proclama o não-suicídio para repelir o homicídio, o feminicídio.

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Buhr no videoclipe da faixa-título de Feixe de Fogo

A postura mais altiva e assertiva do que nunca vem bem apoiada em elementos musicais e poéticos. Sonoramente, Feixe de Fogo circula principalmente entre o rock e o reggae, não raro os dois ao mesmo tempo. Pilotadas em rodízio por Arto Lindsay, Edgard Scandurra, Fernando Catatau, Régis Damasceno e Rami Freitas, guitarras rascantes brotam das camas de sintetizadores, por vezes pontuando e comentando a própria narrativa. É o que acontece na faixa-título introdutória, em “Chão Frio” (de resto um reggae leve), em “Ânsia” e assim por diante.

Em “Seilasse“, canção descritiva de uma ruptura amorosa, duas vozes se alternam, uma dada pela guitarra, tormentosa, outra pelo violoncelo, à procura de pacificação. Quase sempre melancólica, a voz de Buhr se impõe no discurso dúbio de “Seilasse”, entre o cruel e o agridoce, entre a guitarra e o violoncelo: “O amor feito um morto no meio da sala/ velamos o que fomos um dia/ (…) sei lá se o amor feito um corpo/ esfriando no meio da sala/ velamos o que fomos/ um morto/ (…) o amor não vence/ e ele nem perde/ o amor só liga e desliga”.

O elenco de convidados especiais soa efetivamente especial, com a participação vocal de artistas originárias dos interiores nordestinos, pouco difundidas nacionalmente: a cantora e atriz trans cearense (de Sobral) Moon Kenzo, de voz-trovão estilo Cássia Eller em “70 Cigarros“; a juazeirense Josyara e a olindense Negadeza, neta de Selma do Coco e filha de Aurinha do Coco, juntas no xote “Oxê“.

A raiz e a modernidade baianas se manifestam de várias maneiras e desaguam na faixa final, a sarcástica “Desmotivacional” (“revejo o que eu poderia ter querido, mas não quis/ podia ter feito, mas não fiz/ nem agora, que é tarde demais, sei se quero”, conduzindo à conclusão de que “nunca é tarde pra desistir/ de você”), com Russo Passapusso (da BaianaSystem), que já gravara com a então Karina a suave “Olhar Pidão” (2022), parceria de Russo com os baianos históricos Antonio Carlos & Jocafi. Além de entoar um rap baiano em “Desmotivacional”, Russo é co-autor da canção, a única que Buhr assina em parceria em Feixe de Fogo.

Outro momento alto de baianidade é “Motor de Agonia“, entre o ijexá, o reggae e o samba-reggae, mais um exemplar da poética corcoveaste de Buhr: “Meu coração é um motor de agonia/ destila e ronca saudade/ te respiro, tu me respira”. Nessa e em outras três faixas (“Voaria”, “Seilasse” e “Desmotivacional”), o maestro soteropolitano Ubiratan Marques, da Orquestra Afrosinfônica (e colaborador próximo da BaianaSystem), cuida de arranjos de metais, sopros e cordas, além de tocar piano elétrico, órgão, teclados, sintetizador.

Muito peculiar, a poesia geralmente telegráfica de Buhr dá sinais abundantes de amadurecimento em Feixe de Fogo. “Vale Brinde” se desenvolve entre intrincadas rimas internas e externas, tipo “completei o bingo/ eu que escolho o molho, o tempo e o tempero/ eu espero teu aceite/ você mira no meio/ com o bico do meu peito/ descubro o espelho”.

Outros achados se esparramam por “Anzol” (“me agarro no anzol/ pra alcançar a superfície”), “Chão Frio” (“diante de agora” em vez do inverso), “Ânsia” (“sem salto nenhum/ só mergulho no asfalto/ cabeça de entulho”) e outras. A dicotomia/tensão entre seco e molhado, já presente em canções anteriores, norteia “Chão Frio” (“chão frio/ um frio diferente da água do rio/ um duro diferente da pedra do rio/ como um rio preso”, “sol, lágrimas secas/ corrente sanguínea/ olhos de aguaceiro, rio frouxo”) e se aprofunda em “Ânsia”, onde o seco e o molhado se revolvem ao ponto do vômito: “O pensamento esturricado/ mofando tanto/ de tanto vazio por dentro/ ânsia”.

Na linha de cantigas mais antigas como “Ciranda do Incentivo” (2010), “A Pessoa Morre” (2011), “Cerca de Prédio”, “Alcunha de Ladrão” (2015), “Sangue Frio”, “Temperos Destruidores”, “A Casa Caiu” (2019) etc. – ou do filme Aquarius (2016), do pernambucano Kleber Mendonça Filho –, o reggae “Voaria” demarca a face mais indignada de Buhr, ao mesmo tempo que acalenta a ânsia por liberdade: “De mim todo apagaria vontades/ e com o que sobrasse/ voaria por cima da cidade vazia/ destruída pelo dinheiro/ esvaída de seus sentidos”.

À exceção do xote pop “Oxê”, o quinto álbum não privilegia os instrumentos percussivos, outra das origens musicais de Buhr, nos tempos de maracatu e da Comadre Fulozinha. Synthpop, rock e reggae predominam, e o trabalho mais elaborado da artista aproxima-se menos de Nação Zumbi que de Cidadão Instigado. Contrariando probabilidades, ao afastar-se de raízes musicais e de gênero Buhr aproxima-se de si em Feixe de Fogo.

A capa de “Feixe de Fogo”

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