Numa das mais perigosas e violentas favelas de Recife, MC Sheldon, Bôco e GG inovam com uma inusitada mistura de funk carioca e brega, e pitadas de calipso, raggatoni e suingueira
 
Sheldon da Silva Ferreira, Paulo Roberto Gonçalves Cavalcanti, Geyson Bezerra da Silva. Esses nomes são virtualmente desconhecidos no Brasil inteiro, mas no Recife eles são três astros absolutos e respondem pelas alcunhas de MC Sheldon, Bôco e GG. O som que eles criaram é tão original que até hoje não conseguiu ser rotulado. A matriz inicial é uma improvável mistura entre o funk carioca e o brega das periferias do Recife, mas vai além: na receita podem ser identificados calipso, raggatoni e suingueira, que é a forma como é conhecido o pagode tocado na Bahia.

MC Sheldon - Fotos Timoteo Timpin Pinto

A história começa na favela do Cóqui, umas das mais perigosas e violentas da capital pernambucana. Sheldon criou-se em meio aos MCs que produziam coletâneas de bregas, até o dia em que surgiu com uma música chamada “Nóiz Gosta de Novinha”. A aceitação nas carrocinhas de pirateiros foi imediata e em pouco tempo o hit estourou no outro lado da cidade, no bairro do Água Fria, uma região com diversas casas de shows e eventos e de efervescente produção musical, principalmente brega, samba e calipso.

Foi lá que – já com Bôco da Mustardinha e GG na formação – MC Sheldon fez seu primeiro  show, no palco do Gigante do Samba, no primeiro semestre de 2008. A moda pegou rápido demais e antes do final do ano eles estavam gravando seu primeiro DVD, na mesma casa de shows em que estrearam. Mesmo tendo sido gravado em condições precárias, fez um enorme sucesso, deflagrando o surgimento de uma geração inteira de MCs, como Leozinho, MCs Metal & Cego e mais uma dezena deles.

O ritmo saiu da periferia quando “Posição da Rã”, de Metal & Cego, começou a ser tocada nos camelôs do centro do Recife. Apesar de enorme quantidade de MCs surgidos na esteira da criação de Sheldon, foram ele e seus amigos que gravaram o primeiro DVD de luxo, com o show no Clube Português, que ocorreu na noite de 15 de janeiro de 2010. Daí para o estrelato local foi uma questão de semanas. Sheldon, Bôco e GG romperam as barreiras do preconceito de classe e agora tocam até nas festas da rica zona sul.

MC Sheldon, GG e Bôco

Mas nem tudo são flores para os rapazes. Eles colecionam diversas intimações do Ministério Público por conta da temática das “novinhas” em seus singles (eles vivem de singles, nunca lançaram um disco). Uma em específico causou indignação em certos pais respeitáveis e quase resultou em prisão por pedofilia, por conta do refrão que dizia: “Se eu mato eu vou preso/ se eu roubo eu vou preso/ se é por pegar novinha/ eu vou preso satisfeito”. As autoridades não gostaram nem um pouco da provocação.

Mas como o carisma dessa turma de MCs é muito grande junto à população, as intimações não deram em nada e eles seguiram em frente, apenas trocando o termo “novinhas” por “bonequinhas” em suas novas criações. O povo entendeu a ironia e a festa continua.

A sequência óbvia agora é a exportação da nova e inrotulável batida de Sheldon. Uma temporada de shows em São Paulo está prevista pra maio. Os meninos estão de mala pronta para invadir o resto do país. A julgar pela disposição e criatividade do trio – e do imenso movimento que eles encabeçam, é só uma questão de tempo.

Desde a época de Chico Science o Recife não exportava um movimento, e este é o mais inusitado de todos, mas a história comprova que a música brasileira sempre foi a mais surpreendente do mundo.

MC Sheldon, Timoteo Timpin Pinto, GG e Bôco

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