Pesquisa detalhada sobre a compra de livros mostra mulheres pretas e pardas como a maior parte de consumidores do país, entre outros dados interessantíssimos


No Brasil, o livro é um objeto de luxo. No Brasil, os pobres não têm dinheiro para comprar livros. No Brasil, literatura é coisa de branco.

Vamos aos números.

A excelente pesquisa Panorama do Consumo de Livros (baixe aqui), realizada pelo instituto Nielsen para a Câmara Brasileira do Livro, divulgada no final de março, exige que a gente reveja cada uma dessas afirmações. Muitas delas estavam na berlinda há alguns anos, sugeridas por outras pesquisas ou pela experiência de mercado. Mas os números, agora, não deixam margem para dúvida, muito menos para a repetição de velhos bordões.

Esta é a terceira edição do levantamento, coordenado pela economista Mariana Bueno, talvez a pessoa que conhece mais detalhadamente o perfil do leitor e do comprador de livros no país. Há anos ela produz, por meio de diferentes pesquisas quantitativas, dados consistentes sobre editoras, livrarias, compradores de livros e leitores.

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As manchetes nascidas da nova edição do Panorama do Consumo de Livros foram marcantes: “Pretos e pardos lideram consumo de livros no Brasil em 2025”, noticiou, por exemplo, a revista Raça, numa linha que não foi diferente em jornais tradicionais como O Estado de S. Paulo ou especializados, como Publishnews. Os números sugerem que mudanças no perfil educacional brasileiro a partir dos anos 2003, com a criação do ProUni, reorganização do Fies, expansão do ensino universitário superior e adoção da políticas de cotas, tiveram profundo impacto no acesso à livro e a leitura – e que, para parte da população, ler é uma ferramenta imprescindível na construção de um espaço político e pessoal próprio.

Além disso, o bom desempenho da economia nos últimos três anos parece ter ajudado a fazer crescer o contingente de compradores de livro. Em 2025, 18% dos entrevistados (todos maiores de 18 anos) eram compradores de livros, contra 16% na pesquisa de 2024. Esse crescimento de dois pontos percentuais significa que o número de consumidores cresceu em 3 milhões de pessoas.

Mas vamos aos detalhes do levantamento. E comecemos pela questão racial, a mais comentada desta edição.

Quando comparamos o perfil dos compradores de livros com o da população em geral, percebemos algo interessante: a proporção de pretos entre os leitores é cerca de 20% maior do que a de pretos na população brasileira em geral. Entre os brancos, apesar de terem a renda significativamente maior, o percentual de leitores sobe apenas 1,5 ponto percentual, ou seja, é apenas 3,4% maior do que na população em geral. Há menos pardos entre os compradores de livros (37%) do quem entre a população em geral (45%). Os indígenas são 0,6% da população e 1% dos compradores de livros (é preciso ver quão arredondado é este número, mas é possível dizer, de cara, que os indígenas hoje já são parte significativa do mercado de livros como grupo étnico-racial) e, para completar, os amarelos são muito mais compradores de livros do que os demais grupos, proporcionalmente, saltando de 0,4% da população para 3% dos consumidores de livros.

Utilizamos, por conta das regras gramaticais, o masculino, mas se o português fosse guiado por alguma lógica matemática, deveria ter usado, no parágrafo acima, “as pretas”, “as brancas”, “as indígenas” e assim por diante. Porque, também mostram os números, são as mulheres as grandes compradoras de livros no Brasil hoje.

Os dados mostram, também, que a classe C fornece quase a mesma proporção de compradores de livros do que representa na população em geral: o país tem 47% de consumidores nesta faixa de renda, e 43% dos compradores de livros estão nelas.

O canal preferido para a compra de livros é online para 49%, embora grande parte dos consumidores ainda prefira comprar livros presencialmente – 44%. Para esses, os principais motivos alegados para comprar presencialmente são o gosto de ver/abrir o livro na loja antes de efetuar a compra (52,3%) e o gosto de já sair da loja com o livro em mãos, sem aguardar a entrega (44,3%).

Nesse sentido, os brasileiros sentem muita falta de livrarias perto de casa: 88% dos municípios brasileiros têm até 50 mil habitantes, e é neles que os compradores de livros sentem mais falta da existência de um local para comprar livros.

A livraria é tida como um “ótimo lugar para relaxar e explorar sem pressa” por 53%, para “se conectar com cultura e conhecimento” (46%), um bom lugar “para passear e conhecer coisas novas” (39%) e “um refúgio do barulho e da correria do dia a dia” (35%). Essas respostas mostram a livraria como um espaço de libertação do trabalho cotidiano, embora a percepção sobre isso mude conforme as classes sociais.

A compra de livros impressos, no entanto, é cada vez mais virtual. Amazon (59,1%), Shopee (15,3%) e Mercado Livre (13,2%), somadas, representam 87,6% das compras mais recentes – o que sugere uma vida difícil para a manutenção das livrarias físicas.

A pesquisa mostra que o livro é um objeto cada vez mais popular, que a proporção de compradores pretos é maior do que na população em geral, que as mulheres são muito mais leitoras que os homens. Que pensar no livro e encontrá-lo, especialmente numa livraria, é um prazer, mas que as ofertas e o acesso online talvez estejam dificultando a realização de encontros mais surpreendentes.

De algum modo, eu diria que o comprador de livros hoje, no país, é alguém que não apenas gosta de ler, mas que sente que precisa ler, porque, mesmo com os avanços dos últimos tempos, a luta identitária e de classe pela conquista definitiva de mais igualdade e equidade não foi atingida. É preciso ler para entender os avanços e as barreiras ainda a superar. Ler é elaborar a própria vida.

Muito provavelmente, as mudanças no mercado editorial têm refletido e também formado este novo leitor. É muito mais fácil encontrar obras que discutam questões de classe, raça e gênero hoje do que no passado. Aqui, há um ciclo virtuoso: quanto mais esses livros adentram ao mercado, mais os leitores se sentem representados e mais consideram a leitura um instrumento de construção da própria identidade.

A pesquisa também traz dados sobre o consumo de obras digitais e sobre os não consumidores de livros. É um painel fundamental para quem pensa o livro e a leitura, mas também a cultura em geral no país. Entender esse funcionamento e encontrar saídas para que mais gente leia e mais livrarias sejam abertas: estes são apenas dois desafios colocados pelos números da pesquisa. Ao todo, o levantamento da Nielsen ouvir 16 mil pessoas, entre 13 e 19 de outubro de 2025. A margem de erro é de 0,8 ponto percentual e o nível de confiança, de 95%.

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