Belchior faria 80 anos no próximo dia 26 de outubro. Seu disco mais cultuado, Alucinação, também faz aniversário este ano: foi lançado há 50 anos, em 1976. Sua poesia e ousadia métrica espalharam-se por todo os recantos do País, assim como sua particular dicção e assombrosas premonições. Por causa de Alucinação, muitas vezes chamaram Belchior de o “Bob Dylan do sertão”, e é possível de fato estabelecer alguns paralelos entre o fabuloso disco do brasileiro e as folk songs de Dylan.

Mas como é que a música de Dylan veio a causar impacto em Belchior e o levou a imaginar um caminho possível entre o sertão das coisas do porão do Nordeste e as visões de Johanna de Duluth? Bom, nem tudo é tão simples de responder, mas vou contar ao menos a história de como Belchior chegou ao seu primeiro disco de Bob Dylan.

Tudo começa com uma garota de família de origem britânica chamada Angela, estudante do Colégio St. Paul’s, tradicional reduto de famílias inglesas em São Paulo, que tinha sido enviada em 1966 a um colégio de freiras na Inglaterra por conta do ambiente hostil da ditadura militar. Ela só voltaria ao Brasil em 1973. Naquele ano, ao voltar, Angela retomou sua rotina de estudante e resolveu ir a um Congresso de Ioga em Bertioga, no litoral de São Paulo, onde conheceu um jovem artista cearense chamado Antonio Carlos Belchior. Apaixonaram-se.

Angela era sete anos mais nova que ele, tinha 1m69, nascera em 28 de abril, era do signo de Touro. Ele tinha 1m71, era de Escorpião, nascera em 26 de outubro. Ela tinha um Karmann Ghia vermelho e era independente e tinha gostos globalizados. Quando começaram a namorar, o artista morava num pequeno apartamento na Rua 13 de Maio, no Bixiga, tradicional bairro de cantinas e bares de São Paulo. Um dia, Angela o surpreendeu com um presente: um vinil de Nashville Skyline, disco de Bob Dylan de 1969. Até então, Belchior só tinha ouvido Dylan esparsamente. Não tinha lhe chamado tanto a atenção. Ouvia mais frequentemente Beatles. O cantor ficou siderado com aquele som. 

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Nashville Skyline abre com um dueto vigoroso de Bob Dylan com Johnny Cash em Girl from the North Country. Dylan urdia uma poderosa manufatura poética extraída dos fatos do cotidiano, de personagens da vida real tolhidos por situações inesperadas. O disco continha um dos hinos de Dylan, Lay Lady Lay, que o bardo de Duluth compusera para a trilha do filme Perdidos na Noite (Midnight Cowboy), com Jon Voight e Dustin Hoffman, mas que não ficara pronta a tempo para o filme. Belchior vai citar Lay Lady Lay alguns anos mais tarde, no disco Vício Elegante.

É possível afirmar que foi Nashville Skyline a maior influência externa para a gestação de Alucinação, claramente influenciado pelo folk e por um certo sabor de rebeldia existencial. Foi a partir da audição desse álbum de Dylan que Belchior vislumbrou o conceito que buscava, embora a citação mais conhecida do disco (Like a Rolling Stone) seja do álbum Highway 61 Revisited, de 1965, mencionada em Velha Roupa Colorida. Belchior também burila uma certa modernização da country music tradicional, da mesma forma que Dylan fez, especialmente em faixas como Não Leve Flores.

As visões conceituais de Belchior nunca foram monolíticas em suas obras. Para usar uma analogia obsoleta, sua parabólica estava sempre mirando uma infinidade de referências e diálogos intertextuais. Por exemplo: na canção-título de Alucinação, Belchior canta: “Longe o profeta do terror que a Laranja Mecânica anuncia”. É um estilhaço do cinema de Stanley Kubrick. Nessa época, o cantor estava impactado pela distopia presente no filme Laranja Mecânica, de Kubrick, baseado no livro de Anthony Burgess. Há uma espécie de credo de Belchior transpassado na canção, que revela sua faceta anti psicotrópicos (“A minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”), sua convicção de que o mundo do homem comum, do povo, não era permeado pela experiência alucinógena da geração hippie, mas pela luta contínua pela sobrevivência, o embate do cotidiano.

Angela Henman era filha de dois combatentes britânicos. Seus pais, Richard (mais conhecido como Dick) e Margarita (ou Peggie), lutaram na Segunda Guerra Mundial. Filhos de ingleses, viviam na América do Sul, mas apresentaram-se ao governo britânico para lutar contra a ameaça totalitária. Jovens cidadãos ingleses do mundo todo foram chamados a combater. Margarita tinha 21 anos e foi destacada para serviço em Bletchley Park (uma mansão vitoriana perto de Milton Keynes, Buckinghamshire, na Inglaterra, a mais ou menos 80 km ao norte de Londres). O apelido do lugar era Station X, uma instalação militar. Ali funcionou a Government Code and Cypher School (GC&CS), que decifrou o sistema de comunicação dos nazistas. Foi em Bletchley Park que o matemático inglês Alan Turing, chefe da equipe, desenvolveu a sua atividade de criptoanalista. Margarita trabalhou na  decifração da Lorenz e da Enigma, comunicação cifrada dos alemães. Dizem que o trabalho dos britânicos ali ajudou a reduzir a guerra de quatro para dois anos. De volta ao Brasil, viveram uma vida pacata em São Paulo. 

Angela e Belchior casaram-se e tiveram dois filhos. De seu apartamento no Bixiga, eles foram caminhando uma noite até o Teatro Bandeirantes, na Brigadeiro, para ver a famosa estreia de Elis Regina, em dezembro de 1975, no show Falso Brilhante, no qual ela cantou pela primeira vez as canções Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, que Belchior gravaria depois em seu Alucinação. Isso tudo já aconteceu há meio século, mas o som que essas encruzilhadas produziram segue impressionando a todos nós.

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