“O poeta vai com o homem por onde ele for.” O poeta amazonense Thiago de Mello disse essa frase em 1977, em Lisboa, quando já urdia seu plano de retorno ao Brasil após um exílio de mais de uma década pelo Chile, Alemanha, Portugal e outros países. Na 34ª Bienal de São Paulo, em curso nesse momento, a cadência do poeta e o homem excluído são duas faces de uma mesma iluminação de conceitos. “Faz escuro mas eu canto”, o tema da exposição que se abriu no sábado (4), no coração do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, é o nome de um livro e um verso escritos por Thiago de Mello há 60 anos. O poema do qual o verso foi extraído é “Madrugada Camponesa”, que termina assim: “Faz escuro mas eu canto / porque a manhã vai chegar”.Nascido em 1926 em Porantim do Bom Socorro, município de Barreirinha (AM), Thiago de Mello escreveu “Madrugada camponesa” entre os anos de 1962, no Estado do Amazonas, e 1963, em Santiago, no Chile, onde viveu e onde desfrutou de uma frutífera amizade com Pablo Neruda. O verso que impulsiona a Bienal é a pulsação final do poema, e reflete a ânsia pela transformação que, no contexto em que se vivia na época, era estimulada pelo debate político livre e de amplidão utópica.Porém, quando o poema foi finalmente publicado em livro em 1965, o que se via no horizonte era muito sombrio. O Brasil fora arrancado de sua normalidade democrática por um golpe civil-militar e mergulharia em uma ditadura de mais de 20 anos, e “Madrugada Camponesa” subitamente pareceu ter sido feito sob medida para aquele tempo. Ao longo da História contemporânea, diversos artistas se nutriram do ambiente premonitório do poema para gestar outras obras de esperança. Em 1966, a cantora Nara Leão reinseriu o verso em circulação no álbum “Manhã de liberdade” (Philips). O disco fechava com a canção “Faz escuro mas eu canto”, composta por Thiago e o sambista Monsueto Menezes.
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