Júlia Emília em sessão de autógrafos de "Quitéria e Inês". Foto: divulgação
Júlia Emília em sessão de autógrafos de "Quitéria e Inês". Foto: divulgação
Quitéria e Inês. Capa. Reprodução
Quitéria e Inês. Capa. Reprodução

A dramaturgia de Júlia Emília é marcada por uma entrega rara. A própria artista carrega em si o talento de transformar a própria dor em força e dar voz a personagens tão interessantes quanto, infelizmente, desconhecidas. Assim é em “Quitéria e Inês” (Quintal Edições, 2019), seu mais recente livro-peça – que encerra a trilogia iniciada com “Meninilha” (2012) e “Ilhadas” (2014) – vencedor da categoria Apolônia Pinto, de Teatro, de edital de Prêmio Literário da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão, ano passado.

Num texto introdutório ao volume, Júlia Emília se apresenta como atuadora, educadora, escritora e gestora e tudo isto não basta para dar conta de sua multiplicidade. Em “Quitéria e Inês” faz cruzarem-se as histórias de duas personagens, separadas pelo tempo e geografia, e unidas pelo sofrimento e pela injustiça.

A trajetória das personagens se cruza com a própria trajetória da autora. “O mundo é cheio de amor não dito. Como se nos envergonhássemos de falar o quanto amamos algo ou alguém. Preciso dizer o maior amor que é o filho, nos afetos que fazem a cultura. O filho ameaçado me livrou do espancamento dentro de casa, com doçura, sem revide, sem vingança. Aí nasceu a dramaturgia na lembrança enterrada, para que as quitérias, inêses e júlias continuem escapando vivas”, revela.

Em 1784 Quitéria Francisca Sebastiana, rica senhora de engenho da ribeira do Rio Mearim, foi encarcerada pelo marido e pelo cunhado para se apropriarem de seus bens; Inês Etienne Romeu foi a última presa política libertada pela ditadura militar brasileira (1964-1985) e a única sobrevivente da Casa da Morte, com a Lei da Anistia, promulgada em 28 de agosto de 1979, o que lhe permitiu denunciar as agruras do regime, sentidas na própria carne.

“A trilogia exercita uma linguagem com a qual mulheres que são artistas escrevem sua própria história, sistematizam suas técnicas e análises, preservam sua memória e constroem crítica que encarna fatos reais em reinvenções dramatúrgicas, com fontes e documentos”, observa Carlos Vainer, professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ, noutro texto introdutório ao volume.

Registrar o estado de coisas através de uma linguagem artística é uma preocupação que move Júlia Emília. O livro é ilustrado por fotografias de encenações de processos anteriores (a trilogia) e ensaio deste, além de desenhos de Telma Lopes, revelando num delicado traço os horrores de equipamentos usados para torturar.

Há algo de premonitório na obra de Júlia Emília: publicado este ano, a peça já havia sido escrita (ao longo de algum tempo) antes da chegada de Jair Bolsonaro ao poder e, com ele, uma sucessão de ataques às artes, à cultura e ao pensamento. “Com leveza permaneço escrevendo aos berros para que escutem quando digo que não há limites para se arriscar”, afirma, corajosa. Cabe refletir: quantas quitérias, inêses (e júlias) seguem tendo o sofrimento diário como cotidiano?

Serviço
Júlia Emília autografa “Quitéria e Inês” hoje (3), às 19h, na Livraria e Espaço Cultural Amei (São Luís Shopping). Haverá conversa sobre o processo, mediada por Lindevânia Martins, e tessituras sensoriais com a atriz e educadora Tatiane Soares (integrante do processo), com participação do Centro Ozaka Origami.

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