Analisemos o novo filme de Clint Eastwood pelo ponto de vista dos mortos.
Eles são três, e têm papel fundamental no filme.

1. O pai que violentou a filha quando esta tinha 6 anos quer que ela o perdoe. Isso o libertará? Que tipo de tribunal permitiu esse derradeiro esforço de autoindulgência?
2. A mulher que manteve o marido egoisticamente do seu lado (enquanto vivia em estado semi-vegetativo) agora quer que ele recupere o tempo perdido. Conhece até as preferências do marido que vive. Isso a libertará?
3. O irmão gêmeo mantém do “outro lado” o senso de humor e de Justiça que o caraterizou em vida, aos quais acrescentou o poder de interferir na “vida dos vivos” (ironia minha). Chega mesmo a descrever ao irmão vivo a sensação de estar no Paraíso e de ser “todas as coisas”.

Eastwood parece um tipo de J.K. Rowling dos filmes espíritas – alimenta-se de todas as fontes possíveis para agradar ao máximo de fiéis possível. Em Harry Potter, isso resulta num game pós-moderno que junta o Mago Merlin com a era do iPod.
Eastwood não é menos fast food em sua pretensão cinematográfica.

Sem contar os momentos de artificialismo constrangedor – o operário vidente que diz preferir Dickens a Shakespeare, o chef de cozinha italiano fake que parece ter saído de uma stand up comedy de Seinfeld, a médica abnegada cujo ateísmo não a impede de enxergar o óbvio – os mortos vivem.

Por um momento, Clint parece abraçar a ideia mórmon da recompensa, a de que o Paraíso é o lugar onde os espíritos residem aguardando pela ressurreição.
É também cristão, ao encampar a ideia do paraíso como uma “escola” terrestre para os mortos honrados, preparando-os para subir ao Céu.
É também um tanto muçulmano, ao descrever o Paraíso como um lugar aprazível de vida após a morte.
Clint é auto-ajuda com um senso refinado de câmera & close-up.

Seu filme tem um tanto também de novela da Globo, todos os núcleos convergindo para um só para economizar nos sets e nas externas.

Eu adoro Clint porque ele nos presenteou com um filme grandioso, Os Imperdoáveis (um dos filmes da minha vida).
Mas, sinceramente, perdemos o nosso tempo a noite passada.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter desde 1986 e autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019), Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021), O Último Pau de Arara (Grafatório, 2021) e A Culpa é do Lou Reed (Reformatório, 2024)

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