Tinha um macaco de estimação chamado Parsifal, nome da última ópera de Richard Wagner, de 1882. Viveu em um barraco de madeira e de chão batido no então ermo bairro da Matinha (atual bairro de Fátima), em Belém, Capital do Pará, com a mulher, Harriette Mae, e três filhos: Sharon, de 10 anos, Jonathan Davis, de quatro, e Christopher, bebê de colo. A casa era decorada apenas por um trompete na parede da sala e uma mala gigante que servia de mesa, e sob a qual ele guardava um exemplar gigante do dicionário Webster.
Era o ano de 1952 e o poeta norte-americano Robert Stock, que girava ali pela casa dos seus 30 anos de idade, chamava a atenção na capital paraense pela, digamos assim, excentricidade. Vivia praticamente isolado, num local ainda inóspito e de difícil acesso, numa época em que Belém tinha uma população quase seis vezes menor do que tem hoje. Sabe-se que era natural de Nova Orleans, na Luisiana, e seu comportamento era análogo ao de um franciscano. Bob, ou “o americano”, como também era chamado, muitas vezes desmarcou compromissos alegando que sua mulher iria “lavar a sua única calça”. Filava almoços na casa dos amigos belenenses, que conheciam sua rotina errática. Antes de chegar a Belém, ele passou pela Costa Rica e também se diz que desenvolvera seu estilo na cena cultural de São Francisco, na Califórnia, no exato tempo em que vicejava lá o movimento beatnik de Lawrence Ferlinghetti, Allen Ginsberg e Jack Kerouac. Em Belém, a família sobrevivia de parcos recursos que Bob levantava dando aulas particulares de inglês ou fazendo traduções.
Apesar da rotina de hippie extemporâneo, instalou-se de tal forma na formação intelectual da cidade que sua influência é reconhecida até hoje. “Bob Stock deixará uma marca profunda no ambiente intelectual de Belém do Pará. Afinal, os sentidos da renovação poética não deixam de ser trabalhados em grupo, algo estritamente individual não vai perdurar no reino da linguagem humana”, declarou o filósofo paraense Benedito Nunes (1929-2011).
Pelo menos dois grandes autores brasileiros tiveram um diálogo artístico profícuo e importante com Robert Stock: os poetas Mário Faustino (1930-1962) e Max Martins (1926-2009). O primeiro destacou-se como seu interlocutor e tradutor. O segundo, como discípulo. “O poeta-mentor, como na verdade se configurava Bob Stock àquela altura, disseminava uma postura diante da poesia, e assumia, assim, uma “poética da leitura”, na qual o trato visual do poema seria preservado”, escreveu Benedito Nunes. “E Max incorporou esse lado de um ‘poeta da página’, avançando sobre o trato em torno do visual ideogramático advindo de seus estudos acerca do I-Ching“. Entenda-se o “poeta da página” como um insight concretista.
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QUERO APOIARFebril observador da produção nacional, Bob Stock examinou a poesia brasileira com método e paixão. Foi assim que estabeleceu correspondência com Carlos Drummond de Andrade, cuja poesia o fascinou suficientemente ao ponto de travar um diálogo intertextual com o autor mineiro em seu único livro de poemas, Covenants (termo que poderia ser traduzido poeticamente, aqui no Brasil, como “Contratos de Gaveta”, um compromisso assinado que poderá ou não ser cumprido no futuro). Covenants saiu em 1967 nos Estados Unidos pela Trident Press, mais de uma década após o retorno de Stock a sua terra natal.
Em Belém, sua presença nos anos 1950, parcamente registrada em documentos e publicações, mas firme na memória de algumas famílias, começa a ressurgir aos poucos. O médico e escritor Ruy Antônio Barata, em vias de lançar em São Paulo (na Livraria da Vila da Avenida Paulista, 1063, no próximo dia 24, às 18 horas) o seu volume de memórias Esse Rio é Minha Rua, aborda a lembrança da convivência da sua família com o poeta, em Belém.
“Por aqueles dias, os almoços em casa passaram a contar, quase que diariamente, com um novo convidado de papai. Pelo andar lento, cabeleira abundante partida no meio, caindo pela testa lisa acima de óculos de grossas lentes que amiudavam seus olhos azuis, foi logo apelidado por vovó de Preguiça Real. Era o Bob. Vinha da América por motivos que nunca conheci. Falava com o sotaque enrolado do Mangabeira Unger”, descreve Ruy Antônio. “Depois, Bob começou a dar aulas de inglês em colégios e para alunos particulares arranjados por papai e seus amigos do Central Café”, prossegue, relembrando também integrantes do resto da família Stock: “Sharon, que aprendera um tipo de dialeto paraoara, brincava de bonecas com minha irmã. Dizia tauba em vez de tábua, Crube do Remo e não Clube do Remo”.
De fato, quase ninguém sabe a razão pela qual o poeta saiu do ambiente cultural efervescente de São Francisco e veio dar com os costados no meio da selva amazônica, para viver e fazer poesia em um distanciamento inédito para um artista estrangeiro. Muitos vieram pela experiência antropológica, visual, mítica, mas não era o caso de Bob Stock. Mário Faustino o descreveu da seguinte maneira: “Habitou entre nós durante mais de dois anos (na verdade, foram quatro anos): esse grande Robert Stock, o publicano Bob de nossas rodas de Central Café e El Marrocos… Esse Bob que é o espécime típico da fauna variegada de Greenwich Village, o heroico bairro boêmio que forma inexpugnável recife de caridade, liberdade e anarquia no farisaico oceano da América de hoje. Pobre quase no sentido da lei, vivendo, num dos subúrbios mais miseráveis de Belém, com a família de cinco pessoas, apenas de seus esquálidos recursos de professor — por sinal incomparável — de inglês, vestindo como um asceta e parecendo em tudo com um deles (por fora; por dentro era dos que acreditam ser preciso perder-se primeiro para depois achar-se…), conseguiu ele emprestar a alguns de nós, aos que queriam aprender, um pouco de sua maravilhosa experiência, de sua unidade de espírito, de seu dar-se inteiramente à oração contínua da poesia e, também, algo de sua extensa cultura, de seu equilíbrio crítico, de sua justa escala de valores, de seu exato senso poético”.
Robert Stock deixou o Brasil ainda nos anos 1950, de volta aos Estados Unidos, para receber uma herança, segundo relatos. Não se tem notícia de que tenha regressado algum dia. Morreu em 1981. A mulher, Harriette Mae Stock, morreu no ano passado aos 101 anos de idade em Sebastopol, na Califórnia. O casal deixou 15 netos.
A poesia de Robert Stock começou a ser revisitada no Brasil em abril de 2002. Foi quando a revista Sibila, da Ateliê Editoral (com editores como Régis Bonvicino), publicou o poema que Stock fez em tributo a Mário Faustino após a morte do poeta piauiense. O poeta e crítico literário brasileiro Faustino morreu aos 32 anos em um trágico acidente aéreo nos Andes peruanos, em 27 de novembro de 1962. Ele era passageiro do voo Varig 810, que caiu nas proximidades de Lima. Faustino viajava para Nova York. O poema de Bob Stock dá conta do tamanho da perda e da amizade que os ligava:
O poeta Mario Faustino desce ao Hades e ascende ao Empíreo:
IV. ANTI-PRESENÇA
Seu unicórnio está selado em seu brasão.
Impossível carregá-lo do campo de batalha,
impossível em seu escudo andino.
Era algo comovente, seu corpo. Como qualquer outro corpo,
tocando e sendo tocado. Sentia-se em casa
em um colchão de penas ou em um cacto. Casa, impossivelmente
era onde o corpo tocava. Mas pedras? Mas perdido nas pedras?
Oh, Mario, Mario, enquanto caminhávamos e conversávamos na manhã com Lorca, ao meio-dia com Crane, e mantínhamos nossa conversa séria enquanto os outros poetas dormiam sua juventude – as rochas, as rochas já estavam à espreita logo além da herança da selva que você aprendeu, criança, a temer? Ou elas só então começaram a se formar, estalactite em estalagmite conspirando na caverna mental?
Conversamos por uma eternidade um minuto.
Agora, devo supor que você, em seus sapatos,
tão velho quanto Adão quando ele deu o nome de quartzo ao quartzo, encontrou a morte em algo mais antigo que você?
Hoje, em algum ângulo estranho, uma rocha outrora vermelha com você fica negra com uma lembrança terrível. Não!
Eu também sou uma rocha na qual seu sangue escurece.
Não! Você preferiria ter perdido um polegar.
Mas todo aquele toque. Perdido? Nas pedras?
Perdido nas pedras.
Impossível te tirar do campo.
Impossível encontrar seu corpo no vazio.
Você superou seu corpo.
Derramado sobre rochas, profanado por pássaros,
você superou seu corpo;
preservado no gelo
onde unhas e cabelos
ainda crescem, você superou
seu corpo; rarefeito
e suspirado como um sacramento
na Rússia, China e nestes Estados Unidos.
você superou seu corpo;
ou, um escrúpulo de terra
oferecendo a uma semente expelida por um pássaro
seu berço para a raiz
que irrompe na encosta da montanha,
você superou seu corpo.
Impossível te carregar do campo,
ó serpente em teu brasão selado,
impossível em teu escudo andino.
Quando ainda vivia em Belém, Robert Stock teve poemas publicados na revista bimestral de vanguarda Norte, com tradução do inglês para o português por Mário Faustino. Como Arco do Triunfo:
A noite
arqueia a cidade
com dez pelicanos escuros.
A noite é silente, profunda.
A criação dorme um sono
profético de nosso fim
na noite — tão silente, tão profunda.
Os pelicanos
transpassam a pompa de osso;
belonaves iradas
geram parábolas de ódio
numa lua cinemática.
Com dez pelicanos escuros
a noite
entra na cidade.
Benedito Nunes, que foi editor da Norte, analisou a relação intelectual entre Faustino, que trabalhou na ONU em Nova York entre 1959 e 1962, e Stock: “(Mário) de volta da Europa em 1953, travou amizade com o poeta Robert Stock, egresso das comunidades inconformistas do Big Sur da década de 40, e que pobremente viveu em Belém durante quatro anos; dele terá aprendido, no momento em que escrevia O Homem e sua hora, a dedicação extrema ao trabalho poético – o real work, conforme costumava dizer o norte-americano”.
O poeta e pintor norte-americano David Wiley, escrevendo sobre o livro de Stock, analisou postumamente a trajetória do poeta, que fora seu amigo. “A família de Bob entendeu que a poesia era o trabalho de sua vida. Eles acreditavam nele e lhe deram apoio em todos os aspectos, entendendo que, de alguma maneira, seus destinos estavam todos entrelaçados na arte de Bob”, escreveu o pintor. “Eles haviam morado na Costa Rica, em Nova York, em São Francisco e em outros lugares. Não era uma vida de luxo, mas era uma vida repleta de riquezas de um tipo diferente. Logo comecei a aprender coisas com Stock. Ele me contou sobre o amigo deles, o poeta brasileiro Mário Faustino. Conversamos sobre Alfred Jarry, Blaise Cendrars e Gérard de Nerval. Conversamos sobre escritores latino-americanos como Borges e Cortázar, e poetas como Carlos Drummond Andrade (um dos favoritos de Stock), Nicanor Parra e Ernesto Cardenal. Imerso em livros e diversos pedaços de papel com seus poemas, Stock parecia uma espécie de retábulo literário”.
Dos poemas de Robert Stock, extrai-se uma quase estupefação não apenas pela modernidade, mas também pelo estilo de absoluta independência em relação a escolas e movimentos. “Evitando o estilo frequentemente frenético, áspero e altamente individualista de seus contemporâneos, muitos dos quais eram seus amigos, Stock preferia nadar naqueles oceanos poéticos atemporais onde suas explorações, e a tentativa de se familiarizar com um grande número de espécies selecionadas dessas águas, conduziam sua imaginação a lugares onde o desconhecido se revela de maneiras estranhamente iluminadoras, e o conhecido se torna extraordinário mais uma vez”, analisou Wiley. No poema Transfiguração, é possível visualizar o ponto do crítico de literatura:
Eu, um dia envergonhado
de minha própria voz se arrebentando
contra a punhal de sua corda única;
envergonhado de minha boca, retorcido
peixe-estrela encalhado na maré;
deste corpo grotesco envergonhado,
deste corpo gauche, despido de esperança,
nos próprios ossos crucificado;
com vergonha do cabelo de espinheiro
e dos joelhos de canivete –
Eu, mirabili dictu, eu
até eu transfigurado
este todo que sou
(por obra da mulher indiferente
conspurcado como qualquer estrela-cão
atirada nos pântanos)
pelo menor, mais vagabundo olhar ou gesto.
transfigurado na maravilha da ressaca
Sua obra “brasileira”, por assim dizer, estabeleceu uma ponta cultural de natureza afetiva, ao largo de uma presumível frieza antropológica, entrelaçada com as memórias do seu tempo na capital do Pará. “Quem representa a pedra de fusão e o fogo, absoluto como a transparência?”.





