Quatro anos depois de se lançar como artista solo num álbum homônimo, o cearense Fernando Catatau volta à sua banda de origem com Cidadão Instigado, uma coleção de 13 canções confeccionadas na simbiose entre o elétrico e o sintético, com Catatau pilotando guitarra, baixo e uma cama de sintetizadores. A retomada do nome Cidadão Instigado deixa incertezas, pois os colegas anteriores de banda Regis Damasceno (guitarra), Dustan Gallas (piano), Rian Batista (baixo) e Clayton Martin (bateria) dividem com ele apenas uma faixa, “Tudo Vai Ser Diferente”. “Nada será como antes/ tudo vai ser diferente/ como antes”, limita-se a dizer o enigmático rock elétrico-sintético, como se fundisse numa coisa só Fernando Catatau, Cidadão Instigado, Clube da Esquina, o Pessoal do Ceará de Ednardo, banda de rock e inteligência artificial.
Constituído há três décadas, em 1996, o Cidadão Instigado demarcou sua presença no cenário com um EP inaugural lançado em 2000 e, em seguida, o primeiro álbum, o zangado e progressivo O Circo da Dê.Cadência (2002), ao qual se seguiram Cidadão Instigado e o Método Túfo de Experiências (2005), Uhuuu! (2009) e Fortaleza (201). Nem a suposta banda Cidadão Instigado nem Fernando Catatau jamais haviam figurado na capa de algum de seus trabalhos até agora. No novo Cidadão Instigado e no material fotográfico distribuído para a imprensa, Catatau aparece sozinho (embora embaçado), configurando finalmente a imagem de homem-banda, um trovador solitário das próprias canções. Desta vez, o parceiro Dustan Gallas co-assina com ele a direção musical do álbum, que de resto é centralizado em voz, guitarras, baixos, synths e baterias eletrônicas de Catatau.
Mas não se trata de um trabalho solitário do homem-banda, porque, como já havia acontecido em Fernando Catatau (2022), o artista traz um elenco amplo de convidados para dividir com sua voz pontuda os vocais das canções. O disco abre com “Sangue no Chão”, cantada com Juçara Marçal, que volta quase ao final, em “O Grande Vazio” – os títulos, ambos assinados em dupla com Juçara, ajudam a compor a moldura niilista, pré ou pós-apocalíptica de todo o disco, que também parece ter muito a ver com o avanço da IA sobre o que antigamente apelidávamos de corações e mentes.
Kiko Dinucci colabora com voz e co-autoria em “Medo do Invisível”, momento mais próximo do universo “brega” nordestino que norteou momentos luminosos do Cidadão Instigado, em especial o álbum O Método Túfo de Experiências (2005), inspirador, entre muitos, do novo piaiuense-cearense Getúlio Abelha. “Essa luz que me cega/ me conduz a você/ e eu vou chegando nela/ tô querendo viver/ mas essa luz que me enxerga/ é uma mortalha clara/ sou eu chegando em casa/ imensidão no vazio”, canta “Medo do Invisível”, em rumo desnorteado de brega de beira de estrada, tecladeira de churrascaria, prompt de IA, pop kitsch de elevador, Diana, Belchior e Vangelis.
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QUERO APOIARArtistas de gerações mais recentes também se fazem presentes em Cidadão Instigado. A baiana Jadsa faz coro orgânico-sintético em “Daqui Desse Lugar” e cuida dos backing vocais em várias faixas, além de cantar, toca guitarrar e co-assinar “Nuvem Movimento”: “Sinto o cheiro lento do tempo”. A paulistana Yma e Edson Van Gogh (integrante da banda cearense Jonnata Doll e Os Garotos Solventes) somam vozes com Catatau na aflitiva, angustiante e literal “Insônia”, em versos kraftwerkianos repetidos como “ainda são 5:20 da manhã/ e eu tenho a sensação/ de que eu nunca dormi”, em que apenas os horários mudam nas diversas passagens. A paulista Anna Vis se encarrega do dueto da soturna, sorumbática e arrastada “Mundo Estranho”: “Que medo é esse/ que não passa nunca, meu amor?”. A nova geração do pessoal do Ceará encerra o álbum na figura de Mateus Fazeno Rock, parceiro de Catatau em “Sobrevivendo”, uma conclusão nada otimista apesar do título resiliente.
Ava Rocha canta em “Tremendo”, e o discurso amoroso presente nessa e em outras faixas parece se dissolver, propositalmente ou não, nos tempos líquidos e gasosos da música intermediada (se não dominada) por robôs que Catatau pratica e à qual resiste em tensão constante consigo mesmo: “Estou aqui tremendo/ travado eu me senti/ perto de ti/ meus planos foram desconfigurando/ (…) não tem mais nada aqui agora/ eu estou entrando/ na tua ausência/ e descobri o ranço/ já era tão tarde/ (…) Não há nada que possa mudar/ agora/ observamos o céu descansar/ agora”.

A atmosfera distópica tipo Blade Runner (e/ou Alien, o Oitavo Passageiro) contamina cada nicho de Cidadão Instigado, em declarações como “estou no meio do fogo cruzado/ minha missão é desaparecer/ mas como eu não tenho um centavo/ fico perto de você” (de “Frita”), “que tempo troncho/ arrastando o mundo que restou” (“Mundo Estranho”), “o grande vazio perambula pelas ruas sombrias dessa cidade fatal” (“O Grande Vazio”)… Mesmo a dimensão amorosa-romântica (em faixas como “Frita”) se insinua na edificação de musas que, no entanto, poderiam se chamar Alexa, Siri, Gemini etc.
O alívio, breve e fugaz, aparece na dupla “Pressão” e “Consciência”, que sugere chapar o coco como antídoto para a distopia – não chega a se consumar o alívio, já que logo depois das duas vem o rap-rock “O Grande Vazio”, ponto culminante do disco: “Sou o vazio/ que tira o ar/ é oco, é vão/ é sempre frio/ escuro, partido, sem chão”.
Tudo parece convergir para um único ponto cego, seja na obra particular de Catatau, seja na música contemporânea de modo geral: a dissolução total de formatos antes conhecidos como álbum, LP, CD, mp3, gravadora, estúdio, rockstar, banda… Com os blimps e blóins de Cidadão Instigado, Fernando Catatau parece indagar, ao respeitável público e a si próprio: para que ter uma banda, se tudo lá fora se dissolveu em streaming e inteligência artificial? O grande vazio parece ser a resposta.



