Silvério Pessoa - foto Sidarta
Silvério Pessoa - foto Sidarta

Nas plataformas digitais a partir de terça-feira, 5, o álbum Sangue de Amor marca a volta do pernambucano Silvério Pessoa ao repertório autoral pela primeira vez em uma década. Vão longe os dias de origem impulsionados pela ascensão do movimento manguebeat, com a banda Cascabulho, nos anos 1990. Em Sangue de Amor, Silvério olha com mais atenção para a chamada psicodelia pernambucana dos anos 1970, o movimento underground que fez pela cultura pernambucana algo parecido com o que a tropicália baiana fazia pelo Brasil.

Canção de abertura, a fortíssima “Caveira de Cavalo” enfileira imagens para lá de psicodélicas, traduzidas em termos como morcegos, caveira de cavalo, sangue do vaqueiro, inferno, mariposa encantada, garrote, ratazana, buraco, cheiro forte de enxofre, cheiro forte de esperma, abismos, tempestade e trovão, castigo, confissão, ventania, sobras de comida, migalhas, a lama verde que o porco se banhava, cheiro podre de lembranças, latidos do cão. “O amor/ morreu”, repete o simples refrão do rock, sobre fundo percussivo aparentado da Nação Zumbi, num clima de bad trip alucinógena.

Como numa fusão de tempos distintos, o pós-manguebeat se reencontra com os psicodélicos dos 1970 (Lula Côrtes, FlaviolaMarconi Notaro, a banda Ave Sangria, o homem-síntese que voou para o sucesso chamado Alceu Valença), sem que se rompam os vínculos com o forrock do Cascabulho (Silvério participou da banda no disco Fome Dá Dor e Cabeça, de 1998) e com os momentos em que o artista reverenciou os pais fundadores do frevo (no Projeto Micróbio do Frevo, de 2002) e do forró, do alagoano Jacinto Silva (em 2001) ao paraibano Jackson do Pandeiro (em 2014).

Ex-líder do mitológico Ave Sangria, o vocalista Marco Polo participa (também como co-autor) de “Ranger de Dentes”, em mais uma rajada de termos de amor sanguinolento, desta vez sobre o som de um fantasmagórico Theremin: raiva, ricochete de ódio, cacos, ecos, engole, morde, regurgita, rumina, osso, afia os dentes, pedra de lava, lodo, relva. No rock pesado “Quando Nasceram os Deuses”, só de Silvério e em dueto dissonante com o ex-Titãs Paulo Miklos, algum otimismo tenta emergir do entulho, onde chafurdam a realidade, cretinos, mar de mediocridade, mentira (de perna curta), riquezas, famílias pobres famintas.

O amor raivoso, plenamente sintonizado com tempos bolsomínicos, puxa o fôlego pelas frestas, em faixas como “Pedra Polida”, em que a voz doce da amapaense/mineira Fernanda Takai preconiza que “meu amor não é de metal/ não dá ferrugem, é sobrenatural/ tem jeito de rio, ele corre pro mar/ meu amor corre pro mar”. Mesmo aí as imagens pontiagudas persistem: pedra vulcânica, outdoor, amor de brita, mundo vagabundo, chão imundo, tempo primitivo, cavernas, pré-história moderna… Efeito parecido tem “Sal”, parceria com o compositor pós-manguebeat Tibério Azul, em que sal, sol, mar e a voz serena da recifense Ylana Queiroga são escapes de alívio para um narrador que já se acostumou com “o sono que não vem nem larga”. “Eu já me acostumei/ que eu nunca estive no comando”, conclui, concluímos. A suavidade pende para o lado progressivo do udigrúdi setentista em “A Primeira Noite”, dueto com a cantora Aelis Loddo, do grupo occitano La Talvera, e soa mais leve em “Poente” (parceria com o pernambucano Bruno Souto, da banda Volver), também salpicada de sonoridade tradicional occitana.

O amor, especialmente em tempos áridos, é sempre quebrado, inconcluso ou mal correspondido, como acontece no rock-balada agreste que dá título ao álbum, composto com o gaúcho Filipe Catto, ou em “O Pior É Que Eu Me Lembro” (“do amor pouco que era o máximo”), parceria e dueto com a paulista Bruna Caram. Invariavelmente espinhoso, o amor, no álbum de Silvério, não é para os fracos.

Não só pelos ecos psicodélicos e do rock ácido de Alceu Valença, o Nordeste nunca desgruda de Sangue de Amor e é sobressaltado na faixa-título, na ciranda pop “Ciranda Psi” (com a jovem conterrânea Natascha Falcão), no frevo áspero “Frevo Enigma” (“o frevo é um enigma/ mistérios nas ladeiras/ é bom”), ou no pós-repente que encerra o repertório, “Ela e o Amor” (parceria com o paraibano Ivan Santos), lascado pela alucinação bolsominion de imagens e coisas tipo crise na tribo Guarani, impressora em 3D, internet, Facebook, Twitter, Instagram, o pastor que o céu revende, espião-grampo em seu computador, mar de lama até onde a vista alcança, inteligência artificial, Amazônia terra de ninguém, mentiras de jornais, cirurgias por robôs… “Vem futuro, vem/ vem, futuro e traz/ bem mais, bem mais amor”, despede-se Silvério embalado na alucinação por tempos menos bicudos.

Do forró e do frevo à psicodelia setentista e ao manguebeat noventista, passando (por que não?) por tempos armoriais e violados, Silvério Pessoa ancora-se em chão firme faça chuva ou faça sol, como cidadão agridoce da zona da mata que é (da cidade de Carpina). Quem sai aos seus não vira bolsominion.

"Sangue de Amor" (2022), de Silvério Pessoa

Sangue de Amor. De Silvério Pessoa. Independente.

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