Por Daniel Perroni Ratto

Ex-aluno do lendário Burle Marx, o paisagista Moraes Costa Júnior planta árvores pelo Brasil há mais de meio século. Seu vislumbre é o mesmo do antigo professor: imaginar como uma árvore vai se portar daqui a 30 anos se for plantada hoje. “Qual o espaço que ela vai buscar, qual o espaço que ela vai dar para o povo, com quantos metros cúbicos vai fazer a fotossíntese? Eu aprendi isso tudo com ele. Que é o grande mestre. Quem quiser fazer paisagismo tem que ir para a escola dele”.

Nos últimos 5 anos, Moraes Costa encabeçou um grande projeto de reflorestamento na Serra das Araras, Rio de Janeiro, buscando a recuperação da APA do Guandu, importante para o sistema de abastecimento de água do Rio de Janeiro. Ali, entre urros de onça parda e barulhos de rio, ele ajudou a desenvolver um trabalho com a Fundação Gmon, de revitalização da Mata Atlântica, reinserindo ipê, cedro e sibipiruna, todas plantas nativas, na paisagem. Com o projeto concluído, voltou ao seu lugar preferido do País, o Ceará, onde cresceu e onde desenvolveu a carreira, para pilotar projetos de reflorestamento em Fortaleza (a prefeitura está com um plano de plantar 110 mil árvores na capital cearense) e no Cariri. Também está envolvido em um reflorestamento em Maricá (RJ). “Existe um ditado que diz que devemos ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Eu diria que está incompleto: devemos plantar mil árvores”.

Toda vez que conclui um projeto de um jardim, ele coloca uma plaquinha que diz: “Pise na grama”, contrariando o excesso de zelo de alguns gestores públicos. “Grama é pra pisar, é um tapete natural”. Moraes, aos 73 anos, está cheio de otimismo pelo futuro, e parte desse otimismo vem de uma nova lei do governo federal que obriga os municípios a reflorestarem a Mata Atlântica com plantas nativas. A tecnologia dos dias atuais também o anima. “Há 50 anos, ninguém acreditava no paisagista. Falava-se mais em jardinista”. Ele participou da recuperação da vegetação na Beira-Mar de Fortaleza, com a implantação de plantas adultas e esculturais.

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A Prefeitura de Fortaleza planeja uma grande urbanização na Praia do Futuro. A área da Praia do Futuro sempre foi negligenciada pela administração pública – a Praça Dom Hélder Câmara, por exemplo, nunca conseguiram sombrear adequadamente, salienta o paisagista. “Temos grandes desafios ali, principalmente relacionados ao solo, à água e à nutrição das plantas. É essencial preparar a ‘cama de plantio’ — ou seja, criar as condições adequadas de solo e irrigação”, explica. “Além disso, trata-se de uma área com alto índice de salinidade, ventos intensos (especialmente entre setembro e dezembro) e condições ambientais exigentes. As espécies precisam ser resistentes”.

Na beira-mar das capitais litorâneas, a planta mais adequada sempre foi — e continuará sendo — o coqueiro, considera Moraes. O Beach Park, exemplifica, “era uma grande duna e hoje se tornou um oásis”. O plantio inicial de 10 mil coqueiros ali (o início do projeto foi com Arialdo Pinho) ajudou a criar um microclima. Somente após esse processo é possível introduzir outras espécies, como frutíferas e arbustos.

“O paisagismo não é simples. Exige estudo profundo para alcançar harmonia e beleza. É preciso respeitar o que a natureza oferece: vento, salinidade e condições do solo. Devemos utilizar espécies locais. Por exemplo, a forração ideal é a sálvia marítima. Já a grama esmeralda exige sombreamento. Não adianta plantar espécies inadequadas, como a sibipiruna, que pode atrofiar nessas condições. É fundamental um estudo técnico detalhado”, ensina o paisagista. Ainda assim persistem os desafios, como a alteração do lençol freático devido ao grande afluxo de novas construções.

“Se não plantarmos árvores hoje, daqui a 50 anos a sociedade sentirá falta, não só no Brasil, mas no mundo inteiro”, pondera. O ecopaisagismo é sua área de atuação, um conceito ligado à sustentabilidade, em trabalhar em harmonia com o ecossistema. “O ser humano tem o hábito de destruir a natureza, mas hoje começa a perceber a necessidade de replantar. As mudanças climáticas estão cada vez mais extremas e, se nada for feito, podemos chegar a um ponto sem volta em poucas décadas. Precisamos das árvores, das abelhas e de todo o equilíbrio ambiental”.

Moraes acredita que o paisagismo não é uma formação tradicional, como medicina ou direito — é, em grande parte, um dom. Além disso, seus campos de atuação são expandidos para outros conhecimentos, como os de arquitetura, engenharia, agronomia e biologia. “É preciso desenvolver a capacidade de visualizar como uma árvore estará daqui a 30, 40 ou 50 anos, compreender sua saúde, suas doenças e suas necessidades”.

Daniel Perroni Ratto é poeta, editor, músico e jornalista, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela Escola de Comunicação e Artes (ECA) pela USP, e filho do paisagista

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