Getúlio Abelha - retrato: Luan Martins/ divulgação
Getúlio Abelha - retrato: Luan Martins/ divulgação

Há algo de Nelson Cavaquinho (1911-1986) em “O corte” (Ramon Azevedo e Getúlio Abelha), faixa que abre “Autópsia+” (2026), gravado entre Fortaleza/CE e São Paulo/SP, novo álbum de Getúlio Abelha. Dirigido pelo artista, que divide a produção musical com glhrmee (que assina ainda mixagem e parte da engenharia de gravação), o trabalho expande os horizontes do piauiense — para além de material já lançado em EP no fim do ano passado —, nome considerado de vanguarda no forró LGBTQIAP+.

“Depois que eu morrer/ eu não vou saber/ o que vão postar/ lá no meu altar”, começa a letra, entre repaginar “Quando eu me chamar saudade” (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito) para este segundo quarto de século e propor o debate de que até a morte tornou-se instagramável.

Relações desgastadas, perdas, fins e separações pautam o repertório sem descambar para o baixo astral: Getúlio Abelha não perde a pose, a força, a explosão e, por que não dizer, o vigor, características de sua obra e sua presença no palco e no audiovisual — no que todo “Autópsia+” se alicerça, com todas as faixas ganhando videoclipes.

Getúlio Abelha propõe o diálogo de forró com uma gama de gêneros musicais, aliando sofisticação sem perder o apelo popular de vista — seu nome artístico é uma homenagem a Paulinha Abelha, da banda Calcinha Preta. Vinhetas de afirmação, típicas do gênero, carimbam as faixas: “isso é Getúlio Abelha!”, ouvimos em “Caranguejeira satanista” (Getúlio Abelha); ou “Getúlio Abelha, o mais ousado do Brasil”, em “Espantalho” (Getúlio Abelha, Alice Caymmi e Helô Duran).

O jornalismo cultural de Farofafá precisa do seu apoio! Colabore!

QUERO APOIAR

“Zé Pinguelo” (Getúlio Abelha) marca outra ponte, desta vez com os vizinhos do Cidadão Instigado e sua “Os urubus só pensam em te comer” (Fernando Catatau, 2005). Ícone do forró, bolero e brega, o potiguar Zezo ganha homenagem à altura na faixa que leva seu nome (também com ares de Nelson Cavaquinho, na morte como mote) — outra composição solitária de Getúlio Abelha; “Engulo ou cuspo”, é interpretada em dueto com Katy da Voz; “Ranço”, uma das duas faixas-bônus, é assinada por Igor Bruno, a única não-autoral do repertório. “Quando você me deixou, meu coração ficou com fome”, começa a letra, bem no espírito do disco.

A irreverência de Getúlio Abelha faz pensar e diverte ao mesmo tempo. “Freak” (Getúlio Abelha), que tem parte da letra cantada em inglês, revela a apenas aparente contradição de um artista que consolidou sua trajetória a partir do viral, mas não se contentou com os 15 minutos de fama e procura, a cada álbum (e é impossível arriscarmos quais serão seus próximos passos), trazer novidades com substância, sem a pressa da efemeridade do eterno rolar telas das redes sociais. “Preciso esvaziar/ minha cabeça tá entupida e eu não quero pensar/ o mundo é uma produção/ o meu cenário tá errado pra essa exposição”, reflete trecho da letra.

Caminho possível para expandirmo-nos também (e às nossas mentes) é cair nesta apenas aparente contradição: ouçamos Getúlio Abelha, prestando atenção em sua mensagem.

"Autópsia+" - capa/ reprodução
“Autópsia+” – capa/ reprodução

*

Ouça “Autópsia+”:

PUBLICIDADE

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome