Somente com a contratação de 4 artistas, o prefeito de Jales (SP), o bolsonarista Luis Henrique dos Santos Moreira (PL-SP), gastou R$ 3,2 milhões para a Festa do Peão da cidade, conhecida como Jales Rodeo Music, que será realizada entre 17 e 21 de abril de 2026. Moreira contratou, sem licitação, o cantor Leonardo (pagando cachê de 880 mil reais), DJ Alok (950 mil reais), a dupla Maiara e Maraísa (754 mil reais) e Murilo Huff (pai do filho da cantora Marília Mendonça, por 655 mil reais). Jales, a cerca de 130 km da capital, São Paulo, tem aproximadamente 50 mil habitantes.
Os cachês pagos pela prefeitura representam 10% do valor gasto anualmente com saúde no município (dados de 2020, segundo o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo). São valores completamente distintos daqueles pagos pela iniciativa privada, e irrealistas. Recentemente, o cantor Zezé di Camargo teve os recursos para um show em Marabá (PA) cancelados pelo governo federal ao ser revelado pelo FAROFAFÁ que ganharia 1 milhão de reais. Acabou se apresentando com ônus de recursos municipais. A ironia, nesses casos, é que geralmente são artistas que criticam violentamente o sistema de incentivo fiscal da Lei Rouanet para estimular turnês e produtos artísticos, a cuja ação chamam de “mamar no dinheiro público”.
Quando revelados, em 2020, com a divulgação dos megacachês de Gusttavo Lima, os shows patrocinados pelo dinheiro público em prefeituras de cidades de orçamento modesto do interior do Brasil revelaram uma teia de uso sem fiscalização de recursos estatais. Isso chegou a levar o Congresso a ameaçar a abertura de uma CPI, mas como parte expressiva dos deputados se beneficia da repercussão dessas apresentações, isso acabou arquivado. Os superchachês alimentam uma bolha de prosperidade em certo espectro da música ao vivo nacional, majoritariamente sertanejo ou derivado, uma música alinhada politicamente.
Um dos motivos para que municípios de receita modesta consigam fazer contratações milionárias de artistas de renome, em claro descompasso com os números de desenvolvimento daquelas cidades, são as emendas parlamentares. Sem controle de racionalidade, sem fiscalização, turbinam interesses políticos (e outros mais pragmáticos) de políticos regionais. No orçamento do Congresso, as transferências especiais, as chamadas “emendas Pix” (recursos destinados diretamente às prefeituras) girarão em torno de R$ 7 bilhões em 2026, segundo a Agência Câmara de Notícias.
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