Para tocar no dia 20 de junho em Conceição do Mato Dentro (MG, a 167 km de Belo Horizonte), o cantor sertanejo Gusttavo Lima cobrou 1,2 milhão de reais – 275 mil a menos do que o que os Rolling Stones receberam do Banco do Brasil em 2015 para apresentar a turnê 14 on Fire em quatro capitais brasileiras (1,475 milhão por show). Os Stones estão em turnê há 60 anos, são a maior banda de rock do planeta e um dos maiores cachês do mercado internacional. Sua entourage envolve um gigantesco conceito cênico e dezenas de músicos e técnicos, além de uma estrutura de transporte terrestre de palcos entre países de um mesmo continente. O dinheiro do cachê dos britânicos, naquela ocasião, veio de uma instituição financeira privada com pressuposto de investimento, e o dinheiro dos cachês milionários de Gusttavo Lima (e outros astros sertanejos) têm origem principalmente nos combalidos cofres públicos de modestas cidadezinhas do interior do Brasil.

Na última terça, 30, o FAROFAFÁ revelou que Gusttavo Lima receberia, de cada um dos 15 mil habitantes da pequena cidade de Teolândia, na Bahia (a 271 km de Salvador), 50 reais por um show na Festa da Banana. De cada um dos habitantes. O pagamento do cachê de 700 mil foi acertado entre a empresa de Lima, a Balada Eventos e Produções, e a prefeita Maria Baitinga de Santana, conhecida como Rosa Santana (PP). A reportagem também mostrou que a cidade vive os efeitos de uma inundação em abril, que devastou a produção rural. Alertada, a Justiça cancelou os shows da Festa da Banana, que seria neste domingo, 5 (alguns moradores, pasmem, chegaram a fazer um protesto em uma rodovia na noite de sexta após o anúncio do cancelamento).

Os contratos dos shows milionários de Gusttavo Lima só passaram a ser questionados após a revelação de que ele recebeu R$ 800 mil por um evento na cidade de São Luiz, de apenas 8 mil habitantes e com o segundo menor Produto Interno Bruto (PIB) do Estado de Roraima. O Ministério Público Estadual acabou suspendendo o show.

Esse escândalo, jocosamente apelidado de Sofrenciagate, acabou insuflando um debate ideologizado que contrapõe críticos da Lei Rouanet (parte expressiva dos cantores sertanejos) e os adversários do vale-tudo bolsonarista. Gusttavo Lima, por exemplo, é bolsonarista de quatro costados. A Justiça, no entanto, está suspendendo as apresentações com base nos princípios mais elementares de todos: o zelo com a coisa pública, os princípios da economicidade e da racionalidade administrativa.

Há quem acredite que o esquema envolve um sistema de captação paralela de recursos para campanhas eleitorais, face ao grande alarido que os candidatos bolsonaristas têm feito para defender os sertanejos – com argumentos risíveis, diga-se de passagem. O ex-secretário Especial de Cultura de Bolsonaro, Mario Frias, que é candidato a deputado em São Paulo, saiu-se com essa: “Há uma enorme diferença entre um artista que é contratado por uma cidade, por iniciativa da prefeitura, e um artista que vive de captar recursos através da Lei Rouanet. No primeiro caso, é o Estado quem vai atrás do artista. No segundo, é o artista quem vai atrás do Estado”. Um leitor não perdeu a ocasião: “Mostre em que parte da Constituição está escrito que é atribuição do Estado ir atrás de contratar artista”. Mas é uma distorção ainda mais grave: Frias defende o indefensável, de que há dois tipos de recursos públicos disponíveis, um deles que não exige fiscalização.

 

 

 

 

 

 

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