Para quem acredita que o pulsar teatral de São Paulo se limita ao eixo central, a 11ª edição do Ato Artístico Coletivo Perus é um convite para conhecer a potência estética e pedagógica que brota das periferias. O festival, que celebra os 10 anos da Ocupação Artística Canhoba, é um manifesto de permanência de um dos coletivos mais resilientes em atuação na metrópole paulistana, o Grupo Pandora de Teatro.

Nascido em 2004, no extremo noroeste paulistano, o Grupo Pandora não se contenta em apenas encenar peças para uma região carente de equipamentos culturais. O grupo mergulhou na arqueologia afetiva e política de Perus, articulando lutas históricas, como a reapropriação da fábrica de cimentos Portland – símbola da resistência dos “Queixadas”. Suas criações dizem respeito à história do bairro de Perus, mas de tantas outras periferias brasileiras, com suas injustiças sociais e seus problemas.
Essa consciência crítica transbordou para a curadoria do festival. No último fim de semana, as apresentações já eram representantivas, como a do Teatro Contadores de Mentira (peça Cícera, que fala de uma retirante alagoana que busca uma vida melhor em São Paulo), e da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, com o espetáculo Manifesto de Uma Mulher de Teatro (um manifesto contra a violência contra as mulheres).
E teve também a força do grupo mineiro Carroça Teatro, com a peça A Rua, A Lama e a Santa, onde cinco atores-músicos constroem uma engenhosa e dolorosa analogia: as cidades de Mariana e Brumadinho ganham corpo em um casal que vê a desgraça soterrar suas vidas. A peça, que inicia com uma leveza lírica, logo é atropelada pela ganância do capital. A lama das mineraoras não é apenas um artifício cênico, mas a representação de um lucro incessante que põe abaixo a esperança e a dignidade. É teatro de resistência, que não deixa o público esquecer que as tragédias ambientais têm nomes, sobrenomes e endereços.
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A celebração na ocupação Canhoba continua e entra em sua segunda semana. A partir de quinta-feira (26), a programação se completa com:
Quinta (26/2): o Grupo Sobrevento, em A Casa que Espera (às 10 e 14 horas), traz um raro e singelo trabalho dedicado aos bebês (e aos seus pais). À noite (19), será exibido o documentário Morro Doce, com o resgate da trajetória de resistência social do bairro vizinho.
Sexta (27): o Teatro Girandolá e sem Vem Festá! – um espetáculo de brincar une histórias, brinquedos e folguedos brasileiros.
Sábado (28): do teatro lambe-lambe dos Ciclistas Bonequeiros (11 horas) ao cortejo ancestral do Congo do Embondeiro Queixada, ocupando as ruas do entorno, a partir das 14 horas. Presença de bonecões do artista Paulo Farah. A noite se encerra com a Velha Companhia e o dramático Banco dos Sonhos, espetáculo de uma atriz à beira da morte.
Domingo (1/3): a partir das 12 horas, uma grande festença comunitária com brinquedos, brincadeiras tradicionais conduzidas por Tatiane Damanasceno e Mestre Cesinha, além do bolo de 10 anos da Ocupação Canhoba (16).





