Eu quero falar sobre o poema que é o samba da Acadêmicos de Niterói. Depois de cantá-lo por uma hora na avenida, de ver o sambódromo em grande parte vibrar com ele, de assistir as pessoas felizes da vida por poder entoá-lo tantas vezes etc., eu tento pensar só nessa letra e em suas peculiaridades.

Vou fazer isso, que é o mais importante, o mais inesquecível, o que ficará. Mas antes vou falar do assunto mais chato deste carnaval, um não-assunto. A “nobreza” da nossa elite midiática me obriga. Peço, antecipadamente, desculpas, mas quem quiser pode pular direto para o intertítulo “Poesia brasileira sem véu de alegoria”.
A censura contra os pobres
A judicialização forçada pela mídia do desfile da Acadêmicos de Niterói mal esconde seu desejo de censura. O argumento de que se trata de campanha eleitoral antecipada não é mais que isto: um argumento, que não se sustenta em fatos.
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QUERO APOIARDiariamente, os ricos, seja diretamente, seja por meio de seus porta-vozes, reclamam do governo e de Lula. A TV Jovem Pan existe apenas para isso e para manifestar sua preferência por Jair Bolsonaro.
Os velhos métodos antipopulares, que atingiram os píncaros da glória durante a Operação Lava Jato, voltaram, com a Justiça se curvando à pauta política da mídia.
Mas por que não seria campanha eleitoral antecipada? As respostas são simples e objetivas: 1) a Acadêmicos de Niterói escolheu sozinha o enredo, não por decisão partidária; 2) os recursos públicos envolvidos não decorreram da escolha do enredo; 3) a escola não pedia votos.
Além disso, o encurtamento das campanhas eleitorais tem sido um método da direita para reduzir o tempo de debate e enfraquecer as candidaturas mais sólidas nesse campo. Quem acha que estou puxando sardinha nesse quesito que compare as sólidas propostas apresentadas à Justiça Eleitoral pelas candidaturas Haddad e Lula e os powerpoints adaptados de Jair Bolsonaro em 2018 e 2022.
O que a Justiça promoveu, na ameaça explícita de Carmem Lúcia, foi praticamente uma proibição de que se fale de política antes das eleições, sobretudo se você for de esquerda. Temos de rejeitar esse tipo de ameaça como sociedade: falar de política é um direito de todos, inclusive das escolas de samba.
É preciso reconhecer que a ameaça surtiu efeito. Ministros e deputados puderam desfilar em várias agremiações, mas não na Acadêmicos de Niterói. Lula foi à avenida, como diversos presidentes já o fizeram (quem não se lembra de Itamar Franco acompanhado da modelo Lilian Ramos?), não sem antes passar por Recife e Salvador.
O veto à participação de lideranças petistas no desfile é um sinal de que a censura ainda vence batalhas importantes no país. Parabéns à escola que, em nota, denunciou as diferentes formas de tentativa de silenciamento que enfrentou:
“Durante todo o processo carnavalesco, a nossa agremiação foi perseguida. Sofremos ataques políticos, enfrentamos setores conservadores e, de forma ainda mais grave, lidamos com perseguições vindas de gestores do próprio carnaval carioca. Houve tentativas de interferência direta na nossa autonomia artística, com pedidos de mudança de enredo, questionamentos sobre a letra do samba e outras ações que buscaram nos enquadrar e nos silenciar.
“Não conseguiram.
“Mesmo pressionada, a Acadêmicos de Niterói não se curvou. Nos posicionamos, resistimos e levamos para a avenida um desfile verdadeiro, potente e coerente com a nossa identidade.
“A força da nossa comunidade foi o nosso pilar. A aclamação popular foi a nossa resposta. O carinho do público foi o nosso maior prêmio.
“Também não ignoramos o histórico conhecido no carnaval: a narrativa injusta de que ‘quem sobe, desce’. Por isso, reafirmamos com firmeza que esperamos um julgamento justo, técnico e transparente, que respeite o que foi apresentado na avenida e não reproduza perseguições, interesses ou pré-julgamentos.
“A nossa mensagem ecoa clara, forte e sem medo:
“🔥 EM NITERÓI, O AMOR VENCEU O MEDO🔥
“Seguimos firmes. Seguimos com o povo. Seguimos atentos”.
Poesia brasileira sem véu de alegoria
Um dos contos mais admiráveis da literatura brasileira é de Alcântara Machado, conhecido por Brás, Bexiga e Barra Funda.
O conto se chama “Apólogo Brasileiro sem Véu de Alegoria” e conta a história de um trem que parte de Maguari com destino a Belém, no Pará, carregando trabalhadores de um matadouro.
O cheiro de sangue é enorme e os trabalhadores estão fatigados. Essa é a alegoria sem do conto, mas não para aí. Um cego de óculos azuis, flautista de profissão, puxa assunto:
“– O jornal não dá nada sobre a sucessão presidencial?
“O rapaz respondeu:
“– Não sei: nós estamos no escuro.
“– No escuro?
“– É.“
Ele parece não acreditar e insiste na pergunta. Confirmam mais vezes que não há luz no vagão. Ele se revolta:
“De tanta indignação bateu com o porrete no soalho. E principiou a grita dele assim:
“– Não pode ser! Estrada relaxada! Que é que faz que não acende? Não se pode viver sem luz! A luz é necessária! A luz é o maior dom da natureza! Luz! Luz! Luz!
“E a luz não foi feita. Continuou berrando:
“– Luz! Luz! Luz!
“Só a escuridão respondia”.
A revolta do cego inicialmente não é compreendida.
“Foi preciso explicar que era um desaforo. Homem não é bicho. Viver nas trevas é cuspir no progresso da humanidade. Depois a gente tem a obrigação de reagir contra os exploradores do povo. No preço da passagem está incluída a luz. O governo não toma providências? Não toma? A turba ignara fará valer seus direitos sem ele. Contra ele se necessário. Brasileiro é bom, é amigo da paz, é tudo quanto quiserem: mas bobo não. Chega um dia e a coisa pega fogo.“
De fato, há um levante, e o trem é totalmente destruído pelos trabalhadores do matadouro, que usam suas ferramentas de trabalho – facas amoladas – para destruir o trem. Depois do alerta do cego, outras personagens entram em cena. Alguém pergunta:
“– Que é que se vai fazer então?
“Ninguém sabia. Isto é: João Virgulino sabia. Magarefe-chefe do matadouro de Maguari, tirou a faca da cinta e começou a esquartejar o banco de palhinha. Com todas as regras do ofício. Cortou um pedaço, jogou pela janela e disse:
“– Dois quilos de lombo!
“Cortou outro e disse:
“– Quilo e meio de toicinho!
“Todos os passageiros magarefes e auxiliares imitaram o chefe. Os instintos carniceiros se satisfizeram plenamente. A indignação virou alegria. Era cortar e jogar pelas janelas. Parecia um serviço organizado. Ordens partiam de todos os lados. Com piadas, risadas, gargalhadas.
“– Quantas reses, Zé Bento?“
E segue o baile desta festa da carne sui generis.
Num dos momentos do conto, alguém propõe uma passeata com fogos de artifício, bandas de música e discurso. Mas alguém lembra que isso custa dinheiro que eles não tinham.
O que a Acadêmicos de Niterói mostrou é que, apesar dos recursos escassos se comparados com os de outras escolas, os pobres podem fazer discursos, colocar seus músicos na rua e soltar seus fogos de artifício.
E o discurso da Acadêmicos de Niterói é uma ode à trajetória de um trabalhador. Como no conto cômico e realista de Alcântara Machado, as coisas foram ditas por meio de metáforas simples e diretas. A escola preferiu não buscar subterfúrgios para narrar a história de Lula. O texto é, ao mesmo tempo, tremendamente complexo como um discurso, com múltiplos temas, mas com referências populares, bem ao estilo de Lula, aliás, mas muito simples em suas mensagens.
Tem o nascimento de Lula, a jornada com os irmãos, a luta sindical e seus governos. Não é um enrendo que festeja realizações – não há nomes de programas, por exemplo, algo tão caro aos marqueteiros, mas a construção de um sentido para a vida de Lula.
Em primeira pessoa, temos Lindu, a mãe que pega os meninos pelos braços e enfrenta 13 noites e 13 dias de viagem enfrentando a caatinga. O lugar de chegada é menos importante – na verdade, nem sequer é mencionado – que o de partida, porque, ao fim e ao cabo, a chegada é o mundo: Lula é a liderança mundial, cuja voz é ouvida pelo povo.
O povo, no entanto, preserva sua autonomia, porque é capaz de escolher seus heróis, e eles são nominados – Betinho, Vladimir Herzog, Zuzu Angel, Henfil – ou referenciados – Chico Buarque, que cede um verso para o poema da Niterói, quando sabemos que “vai passar nesta avenida mais um samba popular”.
É curioso que a Acadêmicos de Niterói, na contramão da maioria das escolas de samba do país, não recorreu a referências explícitas à cultura e às línguas africanas neste desfile. As únicas divindades mencionadas são “Deus Pai” (Lula está à esquerda dele, sugere o enredo, respeitoso, mas não submisso), Santa Luzia e São José, referências ao catolicismo da mãe do homenageado, mas sem centralidade. A história narrada pela Acadêmicos de Niterói é pura ação humana, de filhos de pobre virando doutores e de comida na mesa dos trabalhadores.
Coincidentemente, li, poucos dias atrás que numa pesquisa em Salvador, a capital mais negra do país, há alguns anos, 18% dos entrevistados citaram Lula quando foi pedido um exemplo de político negro. Lula nunca se declarou, que eu saiba, preto ou pardo, mas ele é assim visto por uma parcela significativa de seus eleitores.
A escola optou pelo enredo tão objetivo quanto possível, exaltando posições firmes, mas não histriônicas, ao dizer que Lula afirmou a soberania rejeitando “tarifas e sanções/ sem mitos falsos/ sem anistia”. Claro que o “Mito” é o palhaço que estava na comissão de frente, mas é também a rejeição do uso de bravatas quando o assunto é sério e delicado.
A Acadêmicos de Niterói revelou um país em que os trabalhadores querem menos pranto e menos pobreza e que a riqueza não fique na mão de alguns. É política pura, que joga na cara dos oportunistas de plantão quem só pensa naquilo, como diria uma velha personagem de Chico Anysio.
Resumidamente, a Acadêmicos de Niterói revelou um projeto de país sem véu de alegoria, um país de milhões de Lulas.
P.S.: Tenho aqui em casa, desde 1995, uma antologia boliviana de poemas sobre Che Guevara. No dia que alguém fizer uma antologia dessas sobre Lula, este enredo da Acadêmicos de Niterói tem de figurar, ao lado da mais singela e amorosa estrofe sobre ele, de Mário Lago, que dizia: “Por mais que matem os sonhos/ os sonhos ninguém anula/ eles caminham ao vento/ gritando o nome de Lula”.
(Haroldo Ceravolo Sereza é crítico literário, editor da Alameda, autor de O Naturalismo e o Naturalismo no Brasil e Trinta e Tantos Livros Sobre a Mesa.)





