Um habitante de SP passa o carnaval na cidade, entre o desfile do bloco afro Ilú Obá de Min (foto) e a antropofagia do Teatro Oficina, a festa no Minhocão e a renúncia do papa.   

 

O poeta e compositor Vinicius de Moraes e o samba de São Paulo estão irremediavelmente associados, por conta de um famosíssimo clichê que faço questão de não repetir aqui. O carnaval é um momento em que esse chavão ribomba como nunca no cérebro, se você passa a data na cidade de São Paulo. Se a lenda fosse ampliada e atualizada pelo rapper Criolo, diríamos, quem sabe, que não existe carnaval em SP.

Pois bem, passar o carnaval em São Paulo foi o que fiz neste 2013, depois de anos e anos fugindo para outros cantos em tempos de velório, digo, de festa popular. Quem andava de luto em 2013 era eu (meu pai morreu há poucas semanas), e atravessei os dias de feriado meio fascinado, meio desinteressado pelos rituais de carnaval. O velório, como logo percebi, estava mais aqui dentro que nas ruas ali fora.

Logo na sexta-feira, fui verificar ao vivo, sob chuva fina, o mítico bloco Ilú Obá de Min, de que amigos negros e/ou ligados ao candomblé sempre me falam, mas que eu nunca tinha testemunhado de perto. Acachapante.

É um evento ritual, devotado à cultura negra e aos orixás do candomblé, que passeia pelo centro da cidade, do viaduto Major Quedinho, rumo à imemorial igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no largo do Paissandu, cara a cara com a Galeria do Rock. O Ilú Obá é um bloco feminino de percussão, o que não exclui, de forma alguma, intensa participação masculina, inclusive nas lindas figuras de orixás que evoluem montados sobre pernas-de-pau.

As músicas em idioma africano, maravilhosas, são mais reverentes que propriamente carnavalescas. A multidão segue o bloco respeitosa e algo desconcertada, aparentemente receosa de pular afro-carnaval – fora uns tantos foliões-pipoca pela própria natureza. Existe e não existe carnaval em SP.

Lanço uns tweets diretamente do asfalto, e o mano paulistano @emicida me responde, entusiasmado pelo Ilú Obá (sua mãe participava, ele conta), mas impossibilitado de comparecer porque tem apresentação ao lado de ninguém menos que a Velha Guarda da Camisa Verde-e-Branco. Existe rap-carnaval em SP!

A rua diz muito sobre o sentimento que esse carnaval em SP me deixou, durante o Ilú Obá e depois. Também passei pela festa pop Ressuscitame, no Teatro Oficina do incansável Zé Celso Martinez Corrêa, e pelo adorável bloco Agora Vai. Esse último sairia da frente de outra igreja (a do largo Padre Péricles, na Barra Funda, um dos berços do samba de São Paulo) e desfilaria suspensa no alto do Minhocão (nome popular do Elevado Costa e Silva, até hoje batizado oficialmente com o nome de um general da ditadura de 1964), mas acabou ficando concentrado no largo mesmo.

Ouvi dizer que o bloco chegou a trepar no Minhocão, que tremeu feito geleia, como ouvi dizer também que a nova prefeitura não permitiu que o Agora Vai percorresse o viaduto elevado – bem, você entende, não sou Eliane Cantanhede, mas ainda estou no clima de luto carnavalesco, levemente preguiçoso de apurar informações no duro.

O que senti e ouvi muito falar, por várias bocas, é que o carnaval de rua vicejou em SP neste 2013. Ainda não dá para saber se a prefeitura se tornou mais arejada após duas gestões altamente proibicionistas, mas de fato o que mais vi pelo pouco que circulei neste carnaval foi gente – animada – na rua. Velório, enterro, lápide? Só se for do papa que renunciou em plana segunda-feira gorda brasileira.

Outra parte do tempo momesco, passei aqui mesmo, em frente ao computador, cá dentro da internet. Enquanto blocos profanos pulavam em frente a igrejas católicas, nas redes sociais os babados do bloco religioso arrebanhavam mais e mais atenções. E ainda tive o azar de bater de frente com uma manifestação indigesta vinda do Rio de Janeiro, terra de Momo e do samba por excelência.

A diatribe partiu de um rapper, o MC carioca Shawlin, que via Facebook se mostrava indignado com a existência do carnaval e distribuía xingos francamente preconceituosos contra mulheres, homossexuais e a gente “feia” que gosta de pular carnaval. No liquidificador, ainda atacava um suposto “excesso de democracia” no Brasil – seria esse um pedido pela tangente de mais autoritarismo, ditadura e regimes de opressão? Existe algum elevado Costa e Silva no RJ?

Foi aí que meus miolos deram um nó. Shawlin integrava o coletivo carioca Quinto Andar e lançou em 2012 um trabalho interessante (e grandiloquente), Orquestra Simbólica, que em certas passagens soa ousado ao emparelhar hip-hop com referências a música erudita, a sons árabes, a musicais hollywoodianos. O próprio hip-hop (e a gente tida por Shawlin como “feia”, que costuma praticá-lo e consumi-lo) está para lá de acostumado a sofrer preconceito, discriminação, racismo. Mas Shawlin parece tentar resolver a equação da maneira mais antiquada, semelhante à de quando os Racionais MC’s ainda faziam letras misóginas e intolerantes (isso foi lá pelo século passado).

Viajo na maionese, com perguntas que ficaram ribombando por aqui: será que detestar carnaval indica que o sujeito detesta sexo? E por será que que quem não gosta gosta tanto de tentar reprimir quem gosta?

O nó não se resolveu até agora. Afinal, por que é que eu estou tentando pular carnaval nas ruas de São Paulo enquanto um papa católico escolhe o meio da festa da carne para se demitir do Vaticano e um rapper carioca lança fagulhas de ódio contra a população essencialmente carnavalesca que habita o “país tropical abençoado por Deus” que os samba-soul-funkeiros Jorge Ben e Wilson Simonal cantaram? A resposta é… sei lá, estou mal de respostas por estes dias.

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