O poema que dá título ao novo volume de poemas de Fernando Abreu, “Cavalo na rua fantasma” (7Letras, 2025, 93 p.) é uma síntese possível do livro, no que diz respeito ao espanto (de que falava Ferreira Gullar [1930-2016]) do poeta diante do ordinário — se é que se pode dizer ordinário de um “majestoso, tímido cavalo, caminhando sozinho no asfalto,/ de cabeça baixa, agitando levemente a crina amarela” — e de reflexões sobre o próprio ofício de escrever poesia, tema corriqueiro nos poemas da coletânea.
“Em um mundo onde até uma festa de noivado/ precisa ser um acontecimento “épico”/ escrever um poema se torna a cada dia/ um gesto mais bizarro”, anota em “Casamentos”. E ainda bem que há poetas, como Fernando Abreu, que insistem em fazê-lo. Arrancar beleza do cotidiano — incluindo suas chateações, como em “Um domingo”: “o entupimento na pia da cozinha é persistente” — e eternizá-la em versos.
Fernando Abreu faz da poesia sua profissão de fé e isto também transparece ao longo das páginas deste “Cavalo na rua fantasma”. Talvez bizarro, talvez inútil, com seu gesto teimoso o poeta abre veredas em que reflete, para além da função da poesia, a própria linguagem. “Mas para quem já percebeu que a palavra é matéria essencial da espécie humana, não tem escapatória: em algum momento da breve passagem por este planeta é bem possível que se pergunte: o que eu falo corresponde ao que eu vejo, ao que eu percebo, ao que eu sinto?”, provoca o companheiro de ofícios Ademir Assunção em “Poesia entranhada no cotidiano”, texto que abre e apresenta “Cavalo na rua fantasma”.
Entre os poemas curtos de seus dois primeiros livros — “Relatos do escambau” (Exodus, 1998) e “O umbigo do mudo” (Clara Editora, 2003) — e os poemas mais longos de “Aliado involuntário” (Exodus, 2011), Fernando Abreu encontrou voz própria, não fórmula, que vem aprimorando a cada lançamento, refletindo sobre este amadurecimento, sem que escrever poemas sobre a escrita de poesia torne sua obra hermética, coisa para iniciados ou para clubes de acesso restrito.
George Harrison (1943-2001), João Cabral de Melo Neto (1920-1999), Celso Borges (1959-2023) e Chico Saldanha ganham homenagens em inspirados poemas: “como George Harrison te pedindo/ para ter cuidado com a tristeza”, diz em “Para George”, a homenagem ao beatle, em que também lembra de uma tentativa de assassinato a facadas, de que sobreviveu, antes de morrer vitimado por um câncer. Reflete sobre uma noite de insônia evocando o clássico “Tecendo a manhã”: “um latido solitário/ não tece uma noite de insônia,/ é preciso que outros cães se lancem/ a essa tarefa, versão lunar/ dos galos cabralinos”.
Em “Para cima” lembra a generosidade e o aspecto paternal da figura de Celso Borges, outro colega de ofícios, companheiro de Akademia dos Párias, o poema, afinal de contas, lembrando o “primeiro/ e único prêmio literário,/ um segundo lugar, há mais de trinta anos”, conquistado por Fernando Abreu, muito provavelmente quando integrava o coletivo que editava a revista (de poesia) “Uns & Outros”. E subverte com elegância e fina ironia o rosariense Chico Saldanha, natural do berço dos bois de orquestra, em “Zabumba”, ele mesmo autor de lindas toadas em ambos os sotaques e não só.
Chico Buarque e Eric Clapton comparecem aos versos de “Consulta” e pouco importa saber se o diálogo ali exposto é verídico ou imaginário: é poético, delicado e bem-humorado. “Señor”, poema escolhido para estampar a quarta capa, extrai beleza da miséria — “e um mendigo estrangeiro/ pode curar a dor de um penitente/ com um muchas gracias de dentes perfeitos/ e nada para mastigar” —, que traduz justamente a utilidade de sua poesia/teimosia: em um mundo e tempo de tantas tragédias e barbaridades, inclusive o avanço do “seco fascismo” (ave, Paulo Henriques Britto!), alcançadas por qualquer um em poucos cliques, a poesia se faz mais necessária do que nunca, seja como um escape, seja como um modo de encarar as coisas — o que nem de longe significa estar alienado, ao menos não em se tratando de Fernando Abreu.
Serviço: a noite de autógrafos de “Cavalo na rua fantasma” (7Letras, 2025), de Fernando Abreu, acontece nesta sexta-feira (30), às 18h30, no Café Du Carmo (Praça João Lisboa, Centro).





