Ver ou não ver um porre de Shakespeare

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  • Vá ver Um Porre de Shakespeare, se estiver a fim de desanuviar a mente e rir com uma… comédia do que deveria ser uma tragédia.
  • Não vá ver Um Porre de Shakespeare, se não gosta do autor inglês ou, ao contrário, é um purista shakesperiano.

O Nùcleo Experimental de Teatro apresenta a sua versão de Drunk Shakespeare, nos mesmos moldes do espetáculo que surgiu em Londres, terra do bardo inglês, e segue em cartaz em cidades dos Estados Unidos. Esta nova montagem brasileira recebeu o nome de Um Porre de Shakespeare, a partir da adaptação, direção e cenografia de Zé Henrique de Paula. Antes dela, veio uma outra versão, batizada de Shakespeare Embriagado (não assistida por FAROFAFÁ), com direção de Dagoberto Feliz e produção de Henrique Benjamin.

Um Porre de Shakespeare segue o conhecido esquema de uma peça dentro de uma peça. Um grupo de seis atores e atrizes faz parte de uma confraria que idolatra Shakespeare e vai interpretar Macbeth, a clássica tragédia que gira em torno de um regicídio. Nela, o guerreiro escocês Macbeth, de ambição desmedida incentivada pelas profecias de bruxas e pela manipulação de sua esposa, comete assassinatos que, ao fim e ao cabo, levará à sua própria destruição.

O porém é que nessa versão criada pelos londrinos um dos atores começa tomando cinco doses de uma bebida alcóolica – que pode ou não ser seguido por alguém da plateia para atestar o teor etílico da dose. A ideia é que o ator fique, literalmente, bêbado, colocando em risco toda a montagem que a chamada Sociedade Literária do Velho Bardo Bêbado quer apresentar.

Funciona? Talvez, mas na estreia assistida por FAROFAFÁ o ator Rodrigo Caetano que intepretava MacBeth tomou dez doses de cachaça e parecia firme o suficiente para alternar “lapsos” de memória com a encenação de trechos completos e difíceis do texto de Shakespeare. Na hipótese desta montagem, quem bebe deve ficar bêbado a ponto de obrigar os demais atores a improvisarem diante dos erros etílicos.

As risadas virão, com certeza, mas não necessariamente da situação inusitada que se espera em Um Porre de Shakespeare. É que o elenco, formado por Bruna Guerin, Fabiana Tolentino, Luciana Ramanzini, Cleomácio Inácio, Dennis Pinheiro, Gabriel Lodi e Rodrigo Caetano, se empenha para criar situações engraçadas no troca-troca de personagens. Isso porque esta montagem também trabalha sob uma outra configuração particular: os papéis não são fixos, e os atores podem interpretar diferentes personagens presentes em Macbeth.

Há um motivo para que isso ocorra. Se alguém fez a conta dos integrantes do elenco acima, são sete atores, mas apenas seis entram em cena a cada noite. O ator ou a atriz sorteado no espetáculo anterior, portanto embriagado, tem um dia de folga, o que obriga que todos sejam capazes de ocupar um papel diferente.

Diferentes montagens mundo afora transformaram tragédias shakesperianas em comédias, numa tentativa de fazer com que mais pessoas conheçam esse texto clássico do teatro mundial. A Reduced Shakespeare Company faz uma paródia das obras do autor em The Complete Works of William Shakespeare (Abridged). Eugène Ionesco, o dramaturgo romeno, recorre ao grotesco, à caricatura e ao humor em Macbett, cujo texto acaba de ser publicado em livro pela Editora Temporal. Nessa releitura, Ionesco, uma das maiores referências do Teatro do Absurdo, troca a morte do rei pelo genocídio.

Um Porre de Shakespeare. Direção de Zé Henrique de Paula. No Núcleo Experimental, Rua Barra Funda, 637, São Paulo, às segundas, terças-feiras e aos sábados (20 horas) e domingos (18). Até 23 de julho. Ingressos a partir de 30 reais (meia-entrada).
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