Simone Spoladore em "O Livro dos Prazeres", de Marcela Lordy

Em cartaz nos cinemas desde o fim de semana, o filme O Livro dos Prazeres, de Marcela Lordy, recorre a Clarice Lispector (1920-1977) para exibir em esplendor o imaginário feminino, a partir do ponto de vista feminino e para ele direcionado. Adaptado do romance Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969), de Clarice, o filme de Marcela coloca nas mãos de Simone Spoladore a tarefa grandiosa de encarnar uma persona lispectoriana universal (ou universalizável), e a atriz cumpre o objetivo com eloquência e riqueza de detalhes, sutilezas e expressões corporais.

Simone interpreta Loreley, ou Lóri, professora primária chegada do interior fluminense para um amplo apartamento na orla carioca, concedido pelo pai, em algum ponto entre o Leme onde Clarice habitou e Copacabana. Desconfortável no novo cenário, ela vaga entre intensas atividades de sexo casual, o pânico social e o amor romântico pelo professor argentino de filosofia Ulisses (o também argentino Javier Drolas). O contraste nominal, entre o épico Ulisses e a sonhadora Loreley, alegoriza as desigualdades de gênero que não se dispersaram, mas sofreram ondas de questionamento cada vez mais potentes de 1969 até hoje. Marcela conta que “foi preciso amenizar o lado careta do Ulisses e a submissão excessiva da Lóri, que não cabiam mais nos dias de hoje”, daí a construção que aponta para a liberdade sexual da protagonista e para a bissexualidade de ambos os personagens.

Como numa homenagem transversa a Clarice Lispector, O Livro dos Prazeres não faz da palavra seu ponto de apoio crucial – o gestual, o balé corporal e os olhares, sobretudo de Simone Spoladore, dizem muito do que Clarice disse há mais de meio século, sem precisar das palavras nas quais Clarice se (e nos) deliciou. Alguns dos momentos mais tensos e ao mesmo tempo calorosos se dão em torno da fobia de Lóri pela água de mergulhar, seja a água do mar em frente de casa ou de uma prosaica piscina.

Os personagens masculinos variam entre o dominador, como o professor Ulisses, e o opressor, encarnado no irmão de Lóri (Felipe Rocha), para quem Lóri se queixa do pai de ambos: “Não consigo engolir até hoje que ele votou nesse cara”. Entre o passado de Clarice e as agruras femininas no enfrentamento ao neofascismo patriarcal de hoje, a versão d’O Livro dos Prazeres narra uma história inconclusa, de uma libertação (feminina, mas não apenas) ampla, geral e irrestrita, que ainda está por acontecer por completo.

"O Livro dos Prazeres" (2020), de Marcela Lordy

O Livro dos PrazeresDe Marcela Lordy. Brasil/Argentina, 2021, 1h40.

Precisamos de um quilo de farinha pra fazer FAROFAFÁ!

Mascote FAROFAFÁ Somos o único veículo crítico e progressista dedicado exclusivamente ao jornalismo cultural, nas suas mais variadas frentes: livros, filmes, música, artes, teatro etc. Se você chegou até aqui é porque está do nosso lado. Ajude FAROFAFÁ a fortalecer o debate e a cultura brasileira.

Diferente dos grandes veículos, não somos donos bilionários e não corremos atrás de cliques a qualquer custo. Isso significa duas coisas:

1. Farofafá trata do que importa para a cultura brasileira — do teatro de grupo às periferias musicais, da literatura marginal às artes visuais — sem precisar agradar patrocinadores.

2. Praticamos jornalismo de fôlego. Críticas, reportagens e ensaios nascem de quem foi ao teatro, ouviu a música, leu o livro, viu a exposição. E tudo o que publicamos é gratuito para qualquer leitor — e queremos que continue assim.

Você pode ajudar a deixar Farofafá mais forte e vibrante! Escolha sua forma de contribuir e vamos farofafar juntos!

Escolha como apoiar

Saiba mais em farofafa.com.br/apoie

PUBLICIDADE

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome