O cantor e compositor Syd Barrett, do Pink Floyd, em 1969, em fotografia do lendário Mick Rock

“Não me parece justo comparar o rock de hoje com o que eu fotografava nos anos 1970. Por um motivo muito simples: naquela época, eu tinha a mesma idade deles. Compartilhava sua voracidade, sua fúria. Eu apenas não podia fazer música, então eu fotografava”, me disse Mick Rock por telefone, em 2014, logo após se hospedar num hotel de São Paulo, Brasil, onde desembarcava pela primeira vez para uma mostra de 24 de suas icônicas fotografias no Museu da Imagem e do Som (MIS).

Mick Rock, conhecido mundialmente por suas fotografias que capturaram a efervescência do rock nas décadas de 70 e 80 – ele também ajudou a criar o imaginário daquelas revoluções, produzindo o cenário de insondável dramaturgia da era Ziggy Stardust, de David Bowie, além de dirigir os os clipes de “John, I’m only dancing”, “The Jean Genie”, “Space Oddity” e “Life on Mars?” – morreu hoje em Londres, aos 72 anos. Seus diversos livros com os registros de sua saga ajudam a compor um dos mais precisos retratos existenciais de uma época, um instantâneo do que viria a ser chamado de blank generation.

Rock também criou a produção visual de discos de Lou Reed (Transformer, Coney Island Baby), Stooges (Raw Power), Ramones (End of the Century), Joan Jett (I Love Rock’n’Roll) e Queen (Queen II). Ele contou que a maior parte desse trabalho era fundado na pura improvisação, além do delírio pessoal: “Era, e ainda é, como na própria música: nenhum show é igual ao ouro, sempre se tem que improvisar, fazer algo que não está previsto”.

Mick Rock nunca parou de trabalhar. Recentemente, fez a produção visual de discos de Black Lips (Underneath the Rainbow) e Miley Cyrus (Plastic Hearts), assim como trabalhou com Kate Moss, Yeah Yeah Yeahs e Pharrell, entre outros.

Nascido Michael David Rock em Hammersmith, Inglaterra, em 1948, ele estudou linguística em Cambridge, onde foi preso por posse de maconha e iniciou sua saga fotográfica, aliando-se com um dos papas da música psicodélica de todos os tempos: Syd Barrett, do Pink Floyd – fez as fotos para o lendário disco solo The Madcap Laughs, de Barrett. “Fui fotografar Syd em seu flat, mas aí tinha aquele carro parado na frente do prédio. Eu pensei: foda-se, eu quero fotografar isso aqui também!”. Aí puxou o cantor para baixo e fez uma série na frente do Pontiac Parisienne estacionado. Sua primeira câmera foi comprada, ele contava, durante uma viagem de ácido.

Por causa do seu trabalho de documentação daqueles anos loucos, ficou conhecido como “o homem que fotografou os anos 70” (The man who shot the 70’s). Não saiu impune de suas viagens pelo palácio dos excessos: chegou a ser alcoólatra e viciado em heroína, e dizia que seu tratamento de reabilitação tinha sido pago pelos empresários dos Rolling Stones, Allen Klein e Andrew Loog Oldham.

Em 2014, em São Paulo, ele não apenas apresentou uma instalação fotográfica inédita intitulada It’s Rock, no MIS, como também integrou o júri de um festival de videoclipes e fez uma disputada palestra na qual expôs sua filosofia de trabalho e contou histórias do star system que habitou – Syd Barrett, Lou Reed, Blondie, Ramones, Iggy Pop, David Bowie, entre tantos outros.

“Ele foi um homem lindo e brilhante. Foi uma honra e um privilégio tê-lo conhecido”, escreveu o músico Sean Lennon no Instagram.

Mick Rock vivia em Staten Island, Nova York, com a mulher Pati e a filha, Nathalie. A causa de sua morte não foi revelada.

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