Elke Maravilha

Lançada inicialmente em 2020 como audiobook, a biografia Elke – Mulher Maravilha, do jornalista Chico Felitti (autor de Ricardo e Vânia, 2019), ganha versão em papel que eterniza a história fabulosa da modelo, jurada de programas de calouros, animadora, cantora eventual e apresentadora de TV Elke Maravilha (1945-2016). O livro desfolha, em histórias épicas e depoimentos da própria biografada, uma personagem expressiva em várias frentes da cultura brasileira, embora tratada constantemente como personalidade trash e/ou subcelebridade do mundo-cão televisivo.

A principal revelação dimensiona a atmosfera de fábula que Elke Grünupp construiu em torno de si mesma: apesar de ela ter atravessado toda a vida profissional afirmando-se russa nascida em Leningrado (atual São Petersburgo), a certidão de nascimento encontrada por Felitti num cartório no interior paulista demonstra que a loura Elke nasceu alemã, em Leutkirch. Não se sabe a razão da troca de nacionalidade, mas a cidade fica a meros 270 quilômetros da atualmente austríaca Braunau am Inn, local de nascença de Adolf Hitler, vulto histórico diametralmente oposto a tudo que a libertária Elke quis representar e representou em 71 anos de vida.

Filha de Liezelotte, nascida na Alemanha, e George, nascido na Letônia, Elke migrou para o Brasil com a família aos 4 anos e viveu sucessivamente em Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Os não muitos papéis no cinema exploraram o contraste entre a europeia de pele branquíssima e o Brasil mestiço, como nos filmes Xica da Silva (1976), de Cacá DieguesA Força de Xangô (1977), de Iberê Cavalcanti, e Pixote – A Lei do Mais Fraco (1980), de Hector Babenco.

O biógrafo resgata do passado o livro Melissa (1972), escrito pelo grego Alexandros Evremidis, primeiro marido de Elke, que ela conheceu ainda adolescente, num navio a caminho da Europa. Vivendo com ele na Grécia, foi rebatizada Melissa Vassiliki e é, portanto, personagem-título da obra de tons autobiográficos de Evremidis. Escreve Felitti: “Além de afirmar que Liezelotte foi secretária de um ministro do Partido Nazista, (…) consta em Melissa que Elke foi estuprada pelo avô. E que as surras do pai eram mais frequentes, e mais violentas, do que ela contava. Na versão narrada no livro, Melissa estava grávida em 1965 e foi mandada à Europa para ter o bebê sem que ninguém no Brasil soubesse. E sofreu um aborto espontâneo em Zurique, na cama da pensão de Alexandros, antes que os dois conseguissem encontrar um médico disposto a interromper a gravidez indesejada”.

Episódios como esse flagram uma uma vida familiar menos cor-de-rosa do que ela gostava de propagandear e uma Elke menos ensolarada que a gargalhante e positiva persona pública fixada no Brasil a partir de 1970. A gargalhada, por sinal, foi elemento distintivo em seu início profissional como modelo, num meio que segundo o autor já naquele tempo era dominado por jovens nunca sorridentes. Amiga da estilista Zuzu Angel, que vivia às voltas com o desaparecimento político do filho Stuart Angel, Elke foi presa em 1972, no aeroporto Santos Dumont (RJ), por arrancar cartazes públicos em que Stuart era estampado como foragido, quando já se sabia que fora assassinado pela ditadura. “Tomou um tapa na cara. Foi a única violência que sofreu do regime militar”, afirma Felitti, esquecido do castelo de violência simbólica que envolveu o Brasil naquela época e certamente apanhou em cheio uma personagem com tantas características libertárias.

Segundo Elke, um policial tentou suborná-la para devolver seus documentos (mais uma violência), ela rejeitou a oferta, passou a se afirmar apátrida e recebeu da ONU um passaporte destinado a refugiados políticos. “Eu acho que tenho que ser apátrida. Foi um apátrida que me pariu”, afirmou, em referência ao fato de seu pai ter lutado contra a União Soviética em guerra com a Finlândia em 1939 e por isso ter sido enviado pelo governo a um campo de concentração na Sibéria. Felitti revela que, nos anos 1990, Elke teve um passaporte alemão.

A carreira de jurada meiga e histriônica se desenvolveu a partir de 1972, em várias versões dos programas de Chacrinha, o primeiro a lhe dar emprego e estabilidade, e de Silvio Santos, que a contratou entre 1974 e 1976. Em várias ocasiões trabalhou de graça para Chacrinha, e manteve-se no Cassino do Chacrinha, da Globo, até a morte do apresentador, em 1988. “Sou odiada pelas pessoas mais velhas, que me xingam nas ruas, e amada pelas crianças, que me dão balas e chicletes”, disse em 1972, demonstrando os humores que sua figura pacífica, andrógina e ornamentada despertava. Mesmo já participando do circo televisivo mais popularesco, foi entrevistada em 1976 pela escritora Clarice Lispector, para a revista Fatos & Fotos – conversaram sobre amor e morte.

Sem Chacrinha nem Globo, Elke Maravilha voltou a pedir guarida a Silvio Santos, por quem, segundo Felitti, nutria sentimentos bem diferentes dos devotados ao “painho” pernambucano. O livro narra que “maquiavélico” era um adjetivo que Elke remetia ao então dono do SBT, a quem apelidou publicamente de “patrão”. “O Silvio espumava de ódio de mim. Todo mundo achava que ele me amava, mas sempre me odiou”, afirmou ao biógrafo. Em 1993, Silvio criou um programa de entrevistas para a jurada, que rendeu bons índices de audiência, mas durou menos de um ano. No programa de estreia, recebeu o humorista e militante negro e homossexual Jorge Lafond, e chegou a celebrar um casamento gay em cena, segundo a biografia.

Elke perdeu o emprego no SBT quando o Show de Calouros foi retirado do ar, em 1996. Felitti descreve o difícil e doloroso final de carreira, sempre em grande instabilidade econômica. “Aos 53 anos, Elke não tinha mais casa própria. (…) No começo da década de 2000, a família de Elke também perdeu o apartamento da avenida Paulista, que teve de ser vendido para pagar condomínios e impostos atrasados”, escreve. Outra passagem desnuda o tão corriqueiro abandono na terceira idade, também experimentado pela ex-jurada: “Uma ou duas vezes, Elke ligou para (o amigo) Rubens e sussurrou, no meio de uma conversa de horas: ‘Não tem comida em casa'”.

Elke deu uma série de entrevistas ao autor, embora afirmasse não gostar do formato. “Essas biografias normalmente são um saco, chatas demais”, afirmou, em depoimento espirituosamente publicado pelo biógrafo. Uma frase da artista sobre a morte revela uma pensadora densa escondida atrás da máscara de espalhafato e plena alegria: “O sono é irmão da morte. A gente dorme todo dia pra quê? Pra se preparar para a morte”. Outra passagem do livro dá essa mesma medida: “Pelo telefone, um amigo avisou ao outro: ‘Ela foi brincar de outra coisa’. Era essa a expressão que ela usava para a morte, ‘ir brincar de outra coisa'”. Segundo revela Mulher Maravillha, Elke se considerava uma pessoa trágica. Como é comum, a comicidade das situações em que se envolvia com o colega jurado Pedro de Lara, tipo “bem versus mal”, escondia muitos outros lados de Elke Maravilha.

"Elke - Mulher Maravilha" (2021), de Chico Felitti

Elke – Mulher Maravilha. De Chico Felitti. Todavia, 200 pág., R$ 70.

 

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