Felipe Julian

Me deixei envolver numa relação abusiva.

Não. Não tem nada a ver com a Sandra, eterna parceira.

Na verdade é uma relação abusiva de trabalho. Tenho trabalhado muitas horas para três empresas e tenho recebido não mais do que hospedagem delas. Sim.. isso mesmo. Nem comida. Tecnicamente isso é trabalho análogo ao escravo.

Atentem para o fato de que eu não sou o único nessa situação. A cada dia, novos artistas, muitos deles famosos e bem sucedidos, revelam estar vivendo o mesmo tipo de abuso!

Minha função, para essas milionárias corporações, se resume em gerar conteúdo pra que elas exibam junto de publicidade. Essas empresas são verdadeiras minas de ouro. Minha remuneração sabe qual é? O direito de assinar esses produtos que eles veiculam. Em outras palavras, eu gero o produto que eles veiculam e o que ganho é o fato de que esse produto leva minha assinatura como autor. O que por sinal pode ser um problema, pois, se houver alguma ilegalidade nesses produtos, as empresas lavam as mãos e jogam a responsabilidade toda pra mim.

Espertos.

Mas, vocês devem estar se perguntando, por que eu me submeto a isto? Que síndrome de estocolmo é essa na qual um cara tão politizado e bem educado como eu se deixa abusar sistematicamente por anos seguidos? Afinal… o que está acontecendo comigo?

Eu explico: estamos falando de gente grande mesmo. Peixe graúdo. Empresas que têm o poder de eleger presidentes. De derrubar presidentes. Estou falando de empresas que, mudando um valor numa planilha orçamentária, varrem, em questão de dias, toda a concorrência que poderia lhes fazer oposição. Essas empresas são como uma madeireira vendendo água mineral num deserto criado por elas mesmas. São mais do que monopólios. Elas são o mundo. Praticamente não há mais operação comercial que não seja intermediada por elas.

Sou artista. Crio música. Crio vídeo. Nesses meus produtos, embuto ideias, reflexões e afetos. Todo esse material criado por anos e anos e que já soma horas e horas de saudáveis experiências estéticas e humanas está hospedado nas plataformas dessas empresas. Quem são elas? Vocês sabem: YouTube, Facebook, Spotify. Poderia citar mais umas duas ou três. E não muito mais do que isso. As novas “majors”.

São empresas que produziram montanhas de ouro oferecendo um teto para o conteúdo artístico de trabalhadores como eu.

No principio achamos muito legal. Que mal poderia haver nisso? Nisso… nada. Mas se soubéssemos que essas empresas estavam também se preocupando em eliminar toda e qualquer outra forma de circulação e de reflexão acerca de conteúdo cultural… talvez a gente não embarcasse nessa.

Tudo foi destruído pela obsolescência produzida por essas (até então) inimagináveis estruturas tecnológicas que utilizam seres humanos para recheá-las de coisas interessantes, mas lançam mão de robôs algorítmicos como força de trabalho. É genial! Não se remunera nem o produtor de conteúdo, pois este não tem opção à escassez de espaço produzida por essas mesmas empresas, nem se remunera a força de trabalho que opera esses gigantes transnacionais (e já transplanetários), pois são tocadas pelos braços de robozinhos virtuais.

De fato, a questão deveria ser a grana que essas empresas nos devem. Mas, enquanto artistas, somos afeitos a outros valores e nos daríamos por satisfeitos se eles simplesmente expusessem nossa suada produção às pessoas que circulam por suas plataformas, sem manipular. Sem desonestidade. Que devolvessem a nós algo proporcional ao que lhes doamos. Como foi no começo! Antes deles escravizarem a todos. Quando havia concorrência ao YouTube. Quando havia concorrência ao Spotify. Quando o Facebook ainda não havia comprado o Instagram nem o WhatsApp nem tantas outras redes e serviços que eles absorveram para simplesmente erradicar a concorrência… quando eles tinham que nos convencer a disponibilizar nosso produto pra eles de graça porque eles não conseguiam dar conta do recado sozinhos. Como naquela época em que um video no YouTube chegava nas pessoas que ele tinha que chegar sem precisar ser impulsionado com grana. Sem precisar pertencer a um canal comercial com centenas de milhares de seguidores. Sem precisar fazer discurso de ódio ou estupidezes pueris com a idade intelectual de pré-adolescente.

Agora… nós, artistas, além de produzir conteúdo para ELES, temos também que correr atrás de quem vai assisti-lo, um a um… para ELES. Temos que ter “presença web” constante e incessante. Temos que ser bonitos. Ou pelo menos ajuda muito ser bonito. Temos que interagir com os seguidores, ser estupidamente didáticos. Temos que crescer constantemente nossa base de seguidores. Temos que promover engajamento. Temos que ter um estúdio de televisão em casa. Temos que estar pesquisando os novos filtros babacas do Insta ou os novos recursos do Reels porque eles dão mais visibilidade, porque ELES estão implementando essa novidade. Temos que estar online 24/7/360. E temos que estar agradecidos por tudo isso pois antigamente era pior.

Por isso eu estou numa relação abusiva.

Porque antigamente era pior e porque não restou ninguém no mundo que possa substituir essa meia dúzia de empresas que remuneram minha força de trabalho com uma estante para apoiar minha obra.

Mas como disse Michel Temer, ovacionado por empresários e politicos: “Não reclame! Trabalhe!”.

 

Felipe Julian, mais conhecido pelo nome artístico Craca, é produtor musical e artista visual brasileiro na Argentina. Integrou o projeto eletrônico Axial (com Sandra X) e lançou, em dupla com Dani Nega, os álbuns Craca, Dani Nega e o Dispositivo Tralha (2016) e O Desmanche (2018). Seu trabalho musical mais recente é Traquitana Audiovisual (2019). FAROFAFÁ se solidariza com Felipe e os artistas em geral, inclusive porque, como jornalistas, também somos trabalhadores escravizados e vivendo relação abusiva com empresas tecnológicas como Google, WordPress, Twitter etc. etc. etc.

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