CEU Butantã
A sala de exibição do CEU Butantã faz parte do Circuito Spcine - foto Sylvia Masini/Spcine

Algo apocalíptico, o título Depois da Última Sessão de Cinema reflete o ambiente de destruição em que o cinema brasileiro mergulhou a partir do golpe de 2015 e, especialmente, da partir do governo de extermínio instalado em 2019 no Brasil. Mas o livro em questão remonta ao instante imediatamente anterior ao cataclisma, ainda num cenário de pleno progresso e construção. Em 2015, às vésperas do desmonte total do Brasil, a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo capitaneou um dos últimos gestos de ousadia do tempo de permanência do PT no poder, inaugurando a empresa pública Spcine, com o objetivo de impulsionar o desenvolvimento da indústria audiovisual paulistana.

A aventura foi anunciada inicialmente como fruto de investimento simultâneo e equitativo nos níveis municipal, pela prefeitura do petista Fernando Haddad, estadual, pelo governo do tucano Geraldo Alckmin, e federal, sob Dilma Rousseff. Apesar de presente no evento de apresentação do projeto de lei que criava a Spcine, em 2013, Alckmin desistiu posteriormente de participar e não entregou a parcela prometida no investimento total. Organizado por Alfredo Manevy, primeiro presidente da Spcine (entre 2014 e 2016), e por Fabio Maleronka Ferron, integrante do conselho administrativo da empresa entre 2015 e 2017, Depois da Última Sessão de Cinema – Spcine, Audiovisual e Democracia faz uma revisão em regra daquela experiência – que continua em vigência, embora em clima de paralisação semelhante ao que acomete a política cultural brasileira em geral.

O livro reúne 40 entrevistas feitas especialmente com personalidades atuantes no processo e/ou no audiovisual nacional, o que inclui cineastas (Anna Muylaert, Beatriz SeignerKleber Mendonça FilhoLaís BodanzkyOrlando SennaTata AmaralUgo Giorgetti, Viviane Ferreira), produtores (Fernando Meirelles, Rodrigo Teixeira), exibidores (Adhemar OliveiraAndré Sturm), gestores (Ana LoubackAndrea MatarazzoDébora Ivanov, Fernando Haddad, Juca Ferreira, Manoel RangelNabil Bonduki, Orlando Silva), ativistas (Ailton KrenakMalu Andrade) e assim por diante.

O painel formado é avassalador, seja pelos momentos de ímpeto construtivo ou de destruição generalizada. Manoel Rangel, que foi diretor-presidente da Ancine (Agência Nacional de Cinema) entre 2006 e 2017, avalia as origens da implosão: “Onde é que essa crise teve início? No governo Temer. (…) A visão de quem comandava a gestão do Ministério da Cultura naquele momento (Sérgio Sá Leitão, atual secretário de Cultura do governo paulista do tucano João Doria) sobre o Brasil e sobre a política audiovisual é que a produção brasileira deveria estar a reboque dos grandes grupos de mídia internacional, dos grandes grupos estrangeiros de produção e distribuição audiovisual”. Com Bolsonaro, ele alerta, o extermínio do que foi feito e da própria identidade nacional avança sobre Ancine, Fundo Nacional de Cultura, Fundo Setorial do Audiovisual, Lei da TV Paga…

A cineasta Tata Amaral, de Um Céu de Estrelas (1997) e Antônia (2006), caracteriza frontalmente a “crise” que irradia de Brasília para o Brasil: “Primeiro, quero esclarecer que não havia crise alguma. Havia um cenário de pujança e de diversidade. (…) O dinheiro estava lá, os editais foram construídos, a Ancine cada vez mais afinada e seus funcionários fazendo a regulação, seu papel de agência reguladora e fomentadora. Não havia crise alguma, a crise foi provocada e visa a paralisia de um setor que é da maior importância para a sociedade brasileira e para a economia brasileira”.

Entre discussões sobre cinema, TV, TV paga, games etc., personagens como a produtora e ex-diretora da Ancine Débora Ivanov trazem à tona as questões mais explosivas do audiovisual atual, como a ausência de políticas definidas para streaming e VoD (video on demand). “O VoD está em atividade no Brasil há quase 15 anos sem regulação nenhuma, sem contribuição de impostos, sem contribuição para atividade, sem um espaço garantido para a produção nacional”, ela descreve o atual paraíso para as gigantes multinacionais de produção e distribuição de conteúdo. Para Tata Amaral, a indústria do VoD está avançando no país “de maneira predatória”.

O produtor Rodrigo Teixeira, avalia o impacto da pandemia sobre o audiovisual, para além da realidade brasileira: “Aconteceu algo que a gente nunca viu na história da humanidade. O cinema nunca teve uma paralisação de produção nos Estados Unidos desde que ele existe. É a primeira vez na história. Nem a guerra, nem a pandemia da gripe espanhola pararam a produção do audiovisual nos Estados Unidos como a covid-19 fez. Hoje, você tem cerca de dez canais de streaming sólidos com um capital para comprar conteúdo”.

Os temas abordados se referem principalmente à Spcine, mas não se restringem ao cinema ou ao audiovisual e alçam outros voos. Egresso do ministério de Gilberto Gil (2003-2008), ministro da Cultura no segundo governo Lula (2008-2010) e no segundo governo Dilma (2015-2016) e secretário municipal paulistano de Cultura quando da criação da Spcine, o baiano Juca Ferreira relê a participação da cultura em outros momentos de estrangulamento político no Brasil: “Tenho uma tese de que os movimentos culturais, incluindo o tropicalismo, são irmãos siameses da guerrilha. Era o mesmo movimento de radicalização de jovens de classe média em busca de uma saída para o Brasil”.

Em outro segmento, a diretora Anna Muylaert observa que faz parte da elite que aborda em filmes como Que Horas Ela Volta? (2015) e classifica essa elite como “a pior coisa do Brasil”. E conclui: “O que a elite brasileira faz desde os tempos imemoriais é estupro, é abuso sexual, é abuso financeiro, é abuso emocional; é assim que a gente foi e é construído”. Mesmo tratando de um caso específico e localizado, Depois da Última Sessão de Cinema traça um roteiro preciso sobre a ascensão e queda da cultura brasileira no início do século 21, sob a égide da democracia e dos golpes continuados que a corroem.

Depois da Última Sessão de Cinema – Spcine, Audiovisual e DemocraciaOrganização de Fabio Maleronka Ferron e Alfredo Manevy. Autonomia Literária, 420 págs., 60 reais.

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