Jimi Hendrix morreu há 50 anos.

Foi em 18 de setembro de 1970, em Londres, e ele tinha apenas 27 anos.

O conceito musical de Hendrix esteve por apenas quatro anos no centro das atenções da música, é como se ele tivesse tido uma carreira de apenas quatro anos. Mas, meio século depois, é possível identificar sua presença em quase todo o rock (e parte da música eletrônica, vejam só) que ainda se faz no planeta.

Somente nos últimos tempos, um pelotão de jovens seguidores passou pelos palcos brasileiros: Jack Broadbent, Malina Moye, Fantastic Negrito. Sem contar Stanley Jordan e todos os outros mais calejados.

“É claro que Jimi é relevante. Olha só o jeito que eu me visto!”, brincou o norte-americano Fantastic Negrito, em conversa por WhatsApp. “Jimi Hendrix transformou o negócio da música. Foi tão inovador e transformador que fez uma canção mudar o jeito que toda a música podia ser abordada. Ele foi uma força da natureza. Criou um universo dentro da cabeça e o repartiu com o mundo”.

Para o guitarrista cearense Mimi Rocha, a importância de Hendrix consiste em “seu pioneirismo no uso da guitarra como um instrumento mais expressivo, seja por uso de técnicas novas para a época, pelo desenvolvimento e uso de novos pedais de efeito, ou novas técnicas de gravação, além, é claro, das composições que são regravadas até hoje. Isso sem falar na sua persona , visual – desenhava as próprias roupas – e a performance de palco tão imitada, mas ainda não superada”.

“Hendrix está para guitarra assim como Bob Dylan para a canção popular, pegaram e viraram tudo do avesso, estabeleceram um novo ponto de partida”, afirma o curitibano Giovanni Caruso, da banda Escambau.

Jimi Hendrix viveu na época da contracultura, um tempo em que era preciso chamar a atenção com algum talento extraordinário ou então forjar um embuste conceitual inigualável. Jimi foi pela primeira opção. “Não estou aqui para destruir nada. Não se esqueça que ainda existem outras pessoas por aí fazendo um som doce e agradável. Vocês ainda têm os Beach Boys e os Four Seasons para curtir”, afirmou.

Jimi Hendrix, o próprio, definiu de muitas formas sua feitiçaria. Essa é uma das que mais gosto:

“Queremos fazer uma música solta e poderosa que atinja sua alma com a força suficiente para abri-la. É uma espécie de terapia de choque ou de abridor de lata. Quem escuta fica hipnotizado e retorna a seu estado natural, que é positividade pura – é como esses baratos naturais que a gente tem na infância. E quando o efeito desse barato (toca), o público enxerga com mais clareza, sente coisas que não sentia antes. É tudo muito espiritual”.

Outra que também me fascina:

“Um músico, quando tem uma mensagem, é como uma criança ainda pouco manipulada pelo homem, cujo cérebro ainda não traz muitas marcas de mãos humanas. É por isso que a música é muito mais pesada do que qualquer coisa que você já tenha sentido”.

E  uma outra mais teórica:

“A natureza da música inglesa pede quilos e mais quilos de melodia”, explicou Hendrix. “As canções folclóricas irlandesas precisam de melodias complicadas. Sou da América, o blues está no meu sangue e não precisa de tanta melodia. É mais uma questão de ritmo, de sentimento, mais pé no chão. Se quiser, pode chamar isso de soul”.

Frank Zappa (1940-1993) uma vez disse uma coisa que só compreendi completamente muito tempo depois: “É impossível simplesmente ouvir aquilo que Hendrix cria. Aquilo te devora”, disse Zappa. Uma vez, sobrevoando Atlanta, a caminho de New Orleans, a playlist da companhia aérea abriu com All Along the Watchtower, com Hendrix.

All Along the Watchtower parecia se derramar sobre aqueles chatôs franceses brancos gigantescos enfiados em bosques de ciprestes lá embaixo no chão, preenchendo a paisagem e espantando os fantasmas. Siderado, eu via o que eles chamam de “América” lá embaixo e a música nos fones de ouvido, feita de assaltos de guitarra totalmente imprevistos e em quatro ou cinco andamentos diferentes, ia me chacoalhando a cabeça como se o avião tivesse desaparecido, somente o voo tivesse permanecido.

Até hoje lembro perfeitamente da sensação. Que tipo de música causa isso? Poucas, podem acreditar. “Deve haver algum jeito de sair daqui/Disse o palhaço para o ladrão/Confusão demais/E alívio de menos”, canta Hendrix, compreendendo como a um filho os versos de Bob Dylan, de 1967. “Quando eu a canto, é estranho como eu sinto que é um tributo a ele de alguma maneira”, declarou Dylan sobre a canção que compôs e da qual Hendrix se apropriou.

A avó materna de Jimi descendia de índios cherokee (nome que batiza uma das canções mais lindas da Cat Power, mas isso não tem nada a ver aqui). Ele adorava a avó, que lhe contava histórias de xamãs e grandes medicinas. Essa crença na música como fonte de imunidades e escudo contra a mortalidade permeou sua trajetória. “Seria incrível se conseguíssemos produzir uma música tão perfeita que fosse como raios nos atravessando e, por fim, nos curasse. Estou interessado na combinação de música e cor. É uma nova área do conhecimento”. Lembrei disso quando o Jeff Mills, bamba da música eletrônica de Chicago, criou um negócio chamado The Healing Channel, o Canal da Cura, mas essa é uma outra história.

Tanta violência (Manic Depression), mas tanta ternura (Little Wing). Há alguns dias, foi divulgada uma lista das canções favoritas da cantora Patti Smith. Entre todas, há uma de Hendrix, 1983 (A Merman I Should Turn to Be): “Eu desperto de ontem/Vivo, mas a guerra veio para ficar/Então meu amor, Catherina, e eu resolvemos dar nossa última volta atravessando o barulho até o oceano/Não para morrer, mas para renascer/Longe de terras tão arruinadas/Para sempre, para sempre/Oh, diga, você pode ver toda essa desordem?/Cada palmo de terra é um ninho de guerra”.

É uma obra produzida, em parte, a partir de estados alterados da consciência e da percepção. Jimi chutou o balde, todo mundo sabe disso. Mas, apesar de flutuar no reino da lisergia desmesurada, Hendrix tinha métodos e dogmas dos quais não abria mão. “Eu curto o som do Jefferson Airplane, mas eles deviam privilegiar a música, não os efeitos de iluminação. São tão talentosos, mas às vezes o show de luzes é tão bom que a banda acaba sendo responsável por apenas 25% do que acontece no palco”, disse. “Eu não gosto desse exagero nas minhas apresentações, mas algo diferente para ressaltar cada música não seria má ideia – velas no palco em The Wind Cries Mary ou um filme para Purple Haze, por exemplo”.

Ele soube, como quase ninguém mais em seu tempo, utilizar as inovações tecnológicas que vinham se apresentando: os amplificadores Marshall, os pedais de efeitos Octavia e Wah-wah. “O som era impressionante, parecia sugar o ar de nossos pulmões, nos deixou escaldados, alterados”, escreveu o jornalista Allan Jones, da Uncut, sobre ter presenciado um show de Hendrix em 1967.

Jimi Hendrix era canhoto, mas não se pode cravar que, politicamente, fosse remotamente de esquerda. Defendeu a Guerra do Vietnã e confrontou Eric Burdon, dos Animals, sobre o tema (um ativista chamado Eldridge Cleaver tentou o apoio de Hendrix para o movimento Black Power, sem sucesso). Sobre o ativismo racial, às vezes tinha opiniões quase de militante do Partido Novo. “Não existe isso de problema de cor. É só uma arma a serviço das forças negativas que estão tentando destruir o País”. Mas tudo dependia do momento, ele também podia ser surpreendentemente contundente: “O meu mundo? É a fome. São as favelas, a violência do ódio racial. Um lugar onde a única felicidade é aquela que você pode segurar nas mãos”.

Mestiço de negro e índio, conheceu a discriminação também pela via da incompreensão estética e social. Foi muitas vezes impedido de se hospedar nos hotéis em que estavam os mesmos astros com os quais tocava nos festivais, como o cantor Engelbert Humperdinck.

Quando Jimi, cujo nome era James Marshall Hendrix (foi batizado originalmente como Johnny Allen Hendrix, mas, aos 4 anos, o seu pai mudou seu nome), tinha 8 anos, em setembro de 1950, seu pai e sua mãe se divorciaram. Ele e o irmão mais novo, Leon, começaram a ser criados pelo pai, Al, que fazia bicos (pedreiro, jardineiro, eletricista) e, até sua morte, em 2002, vivia dos royalties do filho Jimi e mantinha um museuzinho em Seattle, onde os filhos nasceram. Al Hendrix foi para Jimi o equivalente a Joe Jackson para Michael Jackson.

Jimi viu a mãe, Lucille, pela última vez em janeiro de 1958, quando tinha 16 anos – ela morreria um mês depois com o baço estourado, resultado de abusos alcoólicos. Naquele mesmo ano, Jimi comprou sua primeira guitarra por 5 dólares. Aos 19 anos, virou paraquedista da Força Aérea norte-americana (ali conheceu o baixista Billy Cox, com o qual formaria seu grupo Band of Gypsys). Um ano depois, foi dispensado do serviço militar após ter quebrado o tornozelo no seu 26º salto de paraquedas. “Foi no Exército que aprendi o que é o verdadeiro tédio”.

“Lembro que minha primeira apresentação foi num depósito de armas da Guarda Nacional. Cada um dos músicos ganhou 35 centavos e três hambúrgueres”, contou Jimi.

Quando evoluiu mais, passou a tocar no Greenwich Village, em Nova York. Ganhava dois dólares por noite para tocar e depois tinha que encontrar um lugar para dormir, “na mesma época em que Bob Dylan também andava passando fome por lá”.

“No momento, quando se trata de tocar, prefiro os clubes mais fuleiros. Adoro uma boate com cheiro de suor, empoeirada e sebenta. É em lugares assim que conseguimos nos conectar com a plateia. Com essa coisa toda de ficar a 3 mil quilômetros do público, acabo não sentindo nada”.

Em junho de 1967, após interferência de Paul McCartney em seu favor, Hendrix conseguiu se apresentar no festival de Monterey, na Califórnia. Ele se via no centro de uma badalação que raros músicos conseguiram em tão pouco tempo no métier. Tocava com David Crosby, passeava com os Mamas & Papas, abria shows para os Monkees e se hospedava na casa de Peter Tork. A Inglaterra abriu as portas para sua música. Foi preso com heroína e haxixe em Toronto e tocou no Olympia de Paris e tomou ácido com o conjunto Art Ensemble of Chicago no Marrocos. Vivia numa festa móvel.

Sexo, para Hendrix, sempre foi um componente crucial da combustão criativa. Talvez tenha feito a música mais libidinosa que se tem notícia até hoje, mesmo sem essa característica explícita em letras. A orgiástica Foxy Lady é um pequeno escândalo, deu régua e compasso para grupos subsequentes, como o Black Sabbath. Seu relacionamento com as mulheres, entretanto, é complicado, tem lances de agressão física e demonstrações públicas de misoginia. É famosa a história de como ele cantou a namorada de Mick Jagger, Marianne Faithfull, numa casa de shows chamada Speakeasy, na frente de Mick, virando as costas para o Rolling Stone. Marianne, anos depois, contou que sentia arrependimento por não ter tido um caso com Hendrix.

Em 17 de agosto de 1969, ao tocar o hino nacional norte-americano em Woodstock, Jimi Hendrix cimentou sua reputação de profanador e insolente. Injetando sarcasmo e distorção num símbolo sacralizado, ele questionou a corrupção moral da Nação, incomodou consciências, chegou a ser ameaçado de morte por aquilo. “Se sou livre, é porque estou sempre fugindo”.

A fuga não era apenas existencial e social. “Tenho muito a oferecer ao pop, mas o pop não tem tanto para me dar em troca, porque quem manda no pop é gente que só fala no que é comercial”, ele disse. Foi hippie e foi anti-hippie. “Os hippies eram uma experiência. Agora são só um clichê da moda (…) Esses garotos não vão durar muito, vão pegar a primeira onda nova que passar perto deles, seja qual for”.

“Quero dizer tanta coisa e o tempo é tão curto que quase me sinto como um velho fracassado”, afirmou Jimi, bem-sucedido no intento de fazer da sua música uma extensão de seu próprio espírito.

 

 

BIBLIOGRAFIA:
Jimi Hendrix, as histórias por trás de cada canção, de David Stubbs. Madras Editora, 2014
Jimi Hendrix por ele mesmo, compilação de Peter Neal. Zahar Editora, 2014

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