Manifestantes na frente da Cinemateca Brasileira, em novembro

Os funcionários da Cinemateca Brasileira, mais antiga e importante instituição de preservação do acervo audiovisual do País, em São Paulo, se declararão em greve a partir da manhã dessa sexta-feira, 12 de junho. Por volta das 7h da manhã, farão um ato na frente do edifício-sede, na Vila Mariana.

Sem receber salários desde abril e sobrevivendo de “vaquinhas”, os funcionários foram impedidos por seguranças de entrar na sede na terça-feira, provavelmente para prevenir ações trabalhistas. Estima-se que sejam cerca de 60 técnicos (além do pessoal da limpeza, seguranças, motoristas, recepcionistas e jardineiros), que são pagos pela organização social Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp). A Acerp, por sua vez, alega que não recebe repasses do governo federal, com quem tem o contrato de gestão, desde o início deste ano.

A situação trágica da Cinemateca se aprofunda dia a dia. Há duas semanas, duas empresas que fazem a manutenção de refrigeração e a manutenção elétrica suspenderam os serviços que prestavam por falta de pagamento. O prédio já tem mais de R$ 450 mil de contas de luz em atraso. No governo federal, o órgão que deveria zelar pela Cinemateca, a Secretaria Especial de Cultura, está acéfala e há rumores de que planeja fechar a instituição.

A mobilização é intensa para tentar salvar o maior acervo de filmes do País. Na quinta, 4 de junho, convocados pela Associação Paulista de Cineastas (Apaci), entre cem a 150 produtores, diretores, cinéfilos, atores e atrizes se reuniram na calçada em frente à sede da Cinemateca para chamar a atenção para o perigo que ronda a instituição. É a mais antiga do País, em atividade desde 1946 e responsável pela preservação de 245 mil rolos de películas, 30 mil filmes e um milhão de documentos.

Foi criada a Frente Ampla Cinemateca Viva, que reúne coletivos e entidades do bairro da Vila Mariana e mais o grupo Cinemateca Acesa, coletivo de cineastas, com apoio de parlamentares como Carlos e Celso Gianazzi. Eles pretendem entrar com ações populares no Ministério Público Federal denunciando o descaso do governo federal com o patrimônio nacional representado na Cinemateca – a primeira ação será protocolada na próxima semana.

Carlos Gianazzi propôs também nesta quarta-feira um Projeto de Lei (PL) que invoca a responsabilidade do governo do Estado de São Paulo em uma ação urgente para quitar as dívidas e assumir o socorro à instituição. O tema é complexo: apesar de ser um órgão federal, o terreno onde funciona a Cinemateca é de propriedade da prefeitura de São Paulo, e o tombamento do bem imóvel foi decretado pelo órgão do patrimônio estadual. Todos têm responsabilidade.

Houve um incêndio em 2016, que queimou mil rolos de filmes antigos, e uma inundação em fevereiro deste ano. A penúria foi aprofundada ao ter sua gestão repassada pelo ex-ministro da Cultura de Michel Temer, Sérgio Sá Leitão, para a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp). O regime bolsonarista já falou em simplesmente extinguir a Cinemateca e, em seguida, em refederalizá-la. Mas sua estratégia geral é não fazer nada, deixando pegar fogo em tudo que represente conhecimento e preservação historiográfica.

Um abaixo-assinado com firmas, entre milhares de outras, da escritora Lygia Fagundes Telles e dos cineastas Cacá Diegues e Walter Salles, corre na internet. O descaso para com a Cinemateca Brasileira está sendo acompanhado por 42 entidades nacionais e já ecoa no cenário internacional. A Coordinadora Latinoamericana de Archivos de Imágenes en Movimiento (CLAIM), que reúne 35 instituições e arquivos latino-americanos, manifestou em nota pública sua preocupação com a crise. “A Cinemateca Brasileira é uma referência para os arquivos latinoamericanos, um centro de pesquisa e transmissão de conhecimento, tanto por sua produção cultural como por sua missão de preservação e difusão do cinema brasileiro e latino-americano”, afirmou texto da organização.

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