Foto de Jotabê Medeiros
A viúva de Antonio Carlos Belchior, Edna Prometheu, no dia do velório do companheiro, no Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza

A última vez que a vi foi no cemitério. Um rapaz a empurrava sentada na cadeira de rodas e ela estava inerme, uma expressão de catatonia no olhar. Soube que se recuperou rapidamente porque, no dia 6 de maio, de cabelos soltos, óculos escuros, reapareceu no Theatro São João, em Sobral (CE), por insistência de amigos da cidade, discursando já com energia para uma casa lotada sobre a grande perda de toda sua existência.

“O Belchior é, foi e sempre será aquele meninozinho de Sobral que perambulava por essas ruas correndo, brincando, estudando”, disse Edna à emocionada plateia.

Contaram-me que logo depois ela tentou organizar uma junta editorial, uma equipe de conselheiros, para examinar e preparar lançamentos em torno do material que herdara em uma pasta tipo 007 (na verdade, era uma maleta de couro preta, grande), que conteria toda a produção de seu companheiro, Belchior, nos 10 anos em que ele consumou talvez a maior quarentena da História da arte. Mas a pasta sumiu, Edna também sumiu, e eu acredito mesmo que as memórias disso estão se perdendo irremediavelmente.

Edna Assunção de Araújo, que usava o codinome de Edna Prometheu, foi a última companheira de Belchior até sua morte, há três anos, no dia 30 de abril de 2017. Desapareceram juntos a partir de 2007, foram viver num chalé no Uruguai, depois em outros paradeiros menos estáveis e, finalmente, despediram-se pouco antes da madrugada do dia 30, quando Belchior foi carregado pelo Anjo da Senhor – que desceu do Céu para uma cerveja, junto dele, no seu canto em Santa Cruz do Sul (“E a morte o carregou feito um pacote no seu manto”).

Os últimos passos de Belchior se tornaram um mistério para os fãs, pesquisadores e admiradores. Muita gente detesta sua companheira, a acusam de manipuladora e insidiosa; contam que ela pesava os ambientes onde se imiscuía, tinha uma postura negativa e veia autoritária. Que matou passarinho de gaiola e chutou cachorro de anfitriões. Que dizia uma coisa e, na surdina, fazia outra. Uma anti-Beauvoir. Outros a veneram justamente por ter sido a interlocutora privilegiada de um prestidigitador das palavras, por sua consciência da ruptura social, sua presumível aversão pelos jogos midiáticos, seu amor louco e romântico.

Mas ouso dizer que Edna é um mistério ainda maior para mim, e por outros motivos. O que Belchior apreendeu na convivência com Edna? Qual era a perspectiva do mundo que ele desenvolveu ao lado dela em sua diligente quarentena? Por que ela resolveu prosseguir nessa ruptura, se não tem uma obra e um legado artístico a defender? Soube que Edna acompanhava as notícias sobre a biografia que eu então escrevia sobre Belchior, mas nem ela nem ele jamais se pronunciaram.

Seu vácuo existencial, após a morte do companheiro, aprofundou-se ao ponto da total desaparição. Há dois anos, por causa de seu absoluto abandono das questões práticas do mundo, a família de Belchior se viu obrigada a intimá-la judicialmente para tratar do inventário dos bens. Em fevereiro de 2018, com o trânsito em julgado da ação (quando não se pode mais recorrer), ela foi legalmente alijada das decisões sobre o legado de Belchior.  Agora, nem mesmo que se disponha a fazê-lo, não pode mais dispor livremente do que dizia possuir de produção final do bardo sobralense naquela misteriosa maleta que carregava. Mas é possível que nem esteja mais se importando com isso.

As lendas e as histórias em torno da figura de Edna Prometheu cresceram bastante desde então. Conta-se que teria sido internada em um sanatório em Pernambuco. Que vive escondida em Guarulhos. Que esteve na plateia de tributos em homenagem ao menestrel, incognita. Procurei muito, mas não cheguei nem perto. Evidentemente, não quer ser localizada nunca mais. Confesso que, mesmo assim, ainda nutro um grande desejo de ter pelo menos uma hora de papo com Edna. Alguém aí viu Edna?

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