Moraes Moreira
A morte por infarto, aos 72 anos, no último dia 13 do ex-líder do conjunto Novos Baianos, Moraes Moreira, é emblemática para o País entristecido de 2020

A morte do ex-líder do conjunto Novos Baianos, Moraes Moreira é emblemática para o País entristecido de 2020

Trata-se de uma morte emblemática para o Brasil infeliz de 2020, a do baiano Moraes Moreira, por infarto, aos 72 anos, no último dia 13. Como um dos (vários) líderes hippies do antológico conjunto Novos Baianos, Moraes cantou com Baby Consuelo (hoje Baby do Brasil) e Paulinho Boca de Cantor versos do conterrâneo Assis Valente que diziam que chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor, em Brasil Pandeiro (1972). Em carreira solo iniciada em 1975, tornou-se pioneiro do formato de carnaval sobre o trio elétrico, de onde cantou frevos como Chão da Praça (1979), transformador transitório de tristeza em alegria: Nossa dor, meu amor, é que balança nossa dor/ o chão da praça. Em Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira, do mesmo ano, deu contornos otimistas aos versos quem desce do morro não morre no asfalto/ lá vem o Brasil descendo a ladeira.

Moraes Moreira morre em momento completamente antagônico àqueles dos muitos brasis que ele cantou. Pós-Carnaval de 2020, os chãos das praças estão esvaziados pela quarentena do coronavírus, esta gente bronzeada resiste entocada em casa (ou então obedecendo aos chamados do presidente para que reocupe as ruas) e o Brasil rola ladeira abaixo, no pior dos sentidos.

Um pouco da música brasileira tropicalista e pós-tropicalista morre com Moraes, principal compositor dos sambas e rocks dos Novos Baianos, ao lado de Luiz Galvão e, mais tarde, de Pepeu Gomes. Preta Pretinha, Acabou Chorare, A Menina Dança, O Mistério do Planeta e Besta É Tu (todas de 1972) alegorizaram um Brasil luminoso, otimista e transgressor, à revelia da ditadura instalada no País. Acabou chorare, ficou tudo lindo/ de manhã cedinho, cantou Moraes para a então pequena Bebel Gilberto, filha do amigo e influenciador João Gilberto, num sítio comunitário carioca habitado por baianos, cariocas, futebol, maconha e LSD.

Na fase solo, o cantor e compositor aprimorou a veia pop movida por guitarra baiana e antecipou a onda carnavalesca da axé music dos anos 1990, com frevos elétricos como Pombo-Correio (1977), Vassourinha Elétrica (1980) e Chame Gente (1985), as duas últimas gravadas com o pioneiro Trio Elétrico Dodô & Osmar. Na voz de Gal Costa, suas Festa do Interior e Bloco do Prazer (1981) tornaram-se hits no Carnaval e fora dele. Por Que Parou, Parou Por Quê?, de 1988, virou bordão para os pedidos de bis em shows dos mais variados artistas. Meu Nome É Brasil foi o título do disco de 2003 em que o cantor entoou Violão Cidadão, outra tradição local. Moraes Moreira morre quando o violão está enclausurado e todos os shows, no Brasil e planeta afora, restam cancelados pela ameaça viral. Por ora, a alegria e a festa que ele preconizou não têm hora para sair da toca.

 

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