O sambista Geraldo Filme ganha CD tributo Tio Gê
O sambista Geraldo Filme ganha CD tributo Tio Gê - Foto Youtube

Na tradição de rixa entre o samba carioca e o dos demais estados brasileiros, o compositor paulista Geraldo Filme (1927-1995) resiste como artista-tabu jamais devidamente valorizado no panteão dos inquestionáveis do gênero. Eu sou paulista/ gosto de samba/ na Barra Funda/ também tem gente bamba/ somos paulistas e sambamos pra cachorro/ pra ser sambista não precisa ser do morro, escreveu ele em Eu Vou Mostrar, beliscando frontalmente o tabu. É o mesmo que faz o grandioso e orgulhoso álbum duplo Tio Gê – O Samba Paulista de Geraldo Filme, lançado pelo selo Sesc. É até hoje o maior esforço concentrado para restabelecer a memória do autor paulistano filho de mineira com paulista interiorano, que além de compositor e eventual cantor foi militante do movimento negro e fundador do sindicato das empregadas domésticas (a primeira profissão de sua mãe) em São Paulo.

Idealizado por Fernando Cardoso, Tio Gê faz jus ao passado valente de Geraldo ao reunir um elenco de intérpretes formado integralmente por mulheres negras, não necessariamente sambistas, que inclui veteranas como Alaíde Costa, Áurea Martins, Cleide Queiroz, Eliana Pittman, Graça Braga, Maria Alcina, Rosa Marya Colin e Sandra de Sá e representantes de gerações mais recentes como Ellen Oléria, Fabiana Cozza, Graça Cunha, Paula Lima, Teresa Cristina e Xênia França.

Feito matriarca do gênero feminino e do ativismo negro, a carioca Leci Brandão é quem se encarrega da crucial Eu Vou Mostrar. Outros sambas importantes de Geraldo ficam por conta de Cleide Queiroz (Tebas: Tebas, negro escravo/ profissão alvenaria/ construiu a velha Sé/ em troca pela carta de alforria), Amanda Maria (São Paulo Menino Grande), Clarianas (a comovente Tradições e Festas de Pirapora), Sandra de Sá (Tradição – Vai no Bexiga pra Ver), a diva discothèque Lady Zu (Vamos Balançar), Alaíde Costa (Silêncio no Bexiga) e Virgínia Rosa (Batuque de Pirapora).

Intervenções masculinas (sempre por artistas negros) intermediam os sambas, em textos recitados escritos por Léo Lama, filho do dramaturgo Plínio Marcos, um patrono não-negro do samba paulista. Em Vá Cuidar da Sua Vida, a cantora black power Paula Lima chama o bravo rapper Dexter para improvisar rimas em honra ao Tio Gê. Vá cuidar de sua vida/ diz o dito popular/ quem cuida da vida alheia/ da sua não pode cuidar, canta Paula, em outros dos versos mais antológicos criados pelo homenageado. Com 20 sambas e um bocado de história, Tio Gê cumpre o tributo prometido com honra, brilho e muito respeito.

Tio Gê – O Samba Paulista de Geraldo Filme. Vários intérpretes. Sesc.

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