Morri inúmeras vezes desde domingo, dia 1º de março de 2020. Morri toda vez que rolaram pela tela do meu celular as imagens de uma transexual sendo covardemente espancada à luz do dia por dois homens grandes, um deles munido com um pedaço de pau, em Suzano, na Grande São Paulo. E foram inúmeras as vezes que essas imagens rolaram pela minha tela desde então. À direita e à esquerda, a violência dá ibope às pampas em 2020.

A primeira coisa que me vem à cabeça sempre que a cena de horror reaparece diante dos meus olhos é que, apenas cinco anos atrás, a banalidade do mal não estava instalada nas nossas vidas como está agora, a ponto de naturalizar esse cinema de horror em cores vivas sanguinolentas a todo momento, sem cortes nem impedimentos. O Brasil de 2020 está ocupado em censurar rotineiramente as artes e manifestações culturais, enquanto cenas de hiperviolência da chamada vida real pululam pelas redes sociais sem freios, mais escancaradas e estilizadas que em qualquer filme macho de Quentin Tarantino. Aumentaram as cenas, os espancamentos? Ou eles apenas se descortinaram sem pudor diante dos nossos olhos turvos? Ou as duas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo, paralelamente, na vida real e na vida virtual?

Essa substituição de um mundo edulcorado por outro hiperviolento me mata por dentro, todos os dias – enquanto segue a matar pessoas reais nas ruas, no duro, sem mediação de telinha nem de telona. Minha reação diante do horror gráfico não ficcional tem sido duas: a) jamais replicar qualquer uma dessas cenas; b) fazer silêncio sepulcral diante delas, como de resto tenho feito, por instinto, em relação a quase todos os assuntos desde que a Personificação do Grotesco assumiu a presidência da República do Brasil. E meu silêncio está me matando por dentro.

Já perdi a conta de quantas vezes sangrei em silêncio até chegar à cena da imolação da transexual de Suzano. O ar está irrespirável, um pouco mais a cada dia. Como reagir à banalização do mal e da hiperviolência? Fingir indefinidamente que nada está acontecendo? Replicar para denunciar, como tantos amigos e conhecidos fazem nestas nossas bolhas (supostamente) progressistas, iluministas, antifascistas (e burguesas)? Não encontro resposta em nenhuma das duas alternativas, nenhuma delas parece eficaz, nada parece eficaz diante da personificação do mal descarnada ao vivo e em cores.

Mesmo sem respostas, cresce aqui dentro a sensação de que é preciso colocar em cima da mesa de debates a fascistização do não-fascismo e do antifascismo: é possível ser célula saudável dentro de um organismo gravemente doente? Acredito piamente que replicar incessantemente espancamentos, agressões e frases grotescas de personagens grotescas é uma parte da doença, um subproduto protofascista de uma sociedade crescentemente fascistizada, da qual todo mundo e cada um(a) de nós é integrante. Por outro lado, admito que fingir demência não tem levado a nada, nada, nada, nada de construtivo. A cena artística, simbólica, tem sido trocada sistematicamente pelo horror nu e cru, pela barbárie. Nossos olhos sangram de dor e remorso enquanto outros corpos sangram nas ruas.

O que fazer? Qual a receita para combater com atos, mais que com palavras, a escalada de banalização do dilaceramento humano? Não sei, e morro por dentro por não saber, e morro por dentro por saber que, como corpo social uno (fascista E antifascista), estamos caminhando para o lado oposto, para a brutalização cada dia maior. O que fazer?

 

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