A cantora Ligiana Costa. Foto: José de Holanda
A cantora Ligiana Costa. Foto: José de Holanda

Usando apenas vozes como instrumentos, em seu terceiro disco solo Ligiana Costa acerca-se de cantores e cantoras exalando revolta e beleza

Pode parecer contraditório, mas o terceiro disco solo de Ligiana Costa é absolutamente coletivo. Plural e político, que nada nele se conjuga no singular.

A cantora acerca-se de nomes talentosos, mais ou menos conhecidos. Reúne, sob produção musical de Dan Maia, as vozes de Bruna Lucchesi, Lívia Nestrovski, Marina Decourt, Pedro Iaco e São Yantó, além da do produtor.

Eva. Capa. Reprodução
Eva. Capa. Reprodução

Após anos dedicada ao duo Naked Universe (NU) – com Edson Secco – ela nos apresenta “Eva” [yb music, 2020], sucessor de “Floresta” (2013) e “De amor e mar” (2009).

“Eva” é, ao mesmo tempo, a primeira mulher a povoar o mundo, a própria Ligiana, além de sigla de Errante Voz Ativa, tradução-subtítulo do disco.

Completamente autoral e vocal, o disco exala indignação com os “rumos que estávamos tomando no Brasil e no mundo” – desde o golpe de 2016 – e segue tomando – com a eleição e o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, as aspas de texto no encarte, que se desdobra e é ao mesmo tempo capa e pôster.

E finaliza evocando o “Banditismo por uma questão de classe” de Chico Science & Nação Zumbi, recentemente censurada pela polícia militar pernambucana: “Do gênesis ao agora, minha Eva é voz pura. Eva e sua irmã Lilith, Luzia ancestral, Nesrin combativa, Ná cantora, Nice amada, Afrodite provocante, Rosa acolhedora, Maya revolucionária… eu tenho certeza, elas também cantaram um dia”, revelando personagens reais e imaginárias evocadas nas oito faixas do álbum.

Ligiana não é neófita quando o assunto é juntar arte e política: quando recebeu o prêmio Flaiano de melhor livro de italianística, em Pescara, na Itália, por sua tradução do anônimo do século XVII “O Corego” [Edusp, 2018], fez um veemente discurso em defesa da liberdade do ex-presidente Lula.

“Nice”, que abre o álbum, homenageia sua companheira, trocadilhando entre inglês e português, seu nome e seu significado (bonita, legal) em inglês. “Ná” homenageia a cantora Ná Ozzetti: “nada existe além do canto/ e dentro dele cabe tanto,/ o afago, o riso, o choro”, diz na letra, com a autoridade de quem dedica uma vida inteira ao ofício – em que se misturam talento, sensibilidade e dois doutorados em Musicologia.

“Luzia” evoca o incêndio que consumiu o Museu Nacional no Rio de Janeiro, incluindo o fóssil que batiza a canção, o mais antigo da América do Sul, com cerca de 13 mil anos – pouco mais de um mês depois, cerca de 80% do fóssil foi encontrado, sendo possível fazer sua reconstituição. “Só uma mulher queimada,/ só mais uma”, canta Ligiana, na letra em português e espanhol, aludindo aos altos índices de feminicídio e violência contra a mulher no Brasil.

“Lilith e Eva” (parceria com São Yantó), com participação de Lívia Nestrovski, continua com a pauta do feminismo, abordando o empoderamento feminino e a sororidade. “Do corte de um animal/ me fiz metade só,/ amar e multiplicar,/ papel sagrado a mim./ Não via, nem era capaz de olhar,/ condenada a sorrir e a me ofertar/ ouvindo uma voz longe a me chamar,/ minha irmã me salvou e então vi”, cantam, em tempos de “ninguém solta a mão de ninguém”.

“Maya”, quase metade do nome do poeta russo Maiakovski, é escrita a partir de seu poema “Nossa marcha”, cantado em inglês a partir da tradução de “The heritage of russian verse”. “Beat to battle, heart!”, algo como “Bata para a batalha, coração!”, em tradução livre, conclama o poema/letra, lembrando que a revolução também é feita com amor – como Ligiana faz seus discos, estes artefatos tão em desuso nestes tristes tempos, amor e discos.

Celebrando a deusa do amor, Ligiana canta em espanhol em “Afrodite” (parceria com Natalia Mallo), abordando a fugacidade dos relacionamentos amorosos de nossa época. “Nesrin” volta a evocar – como de resto todo o disco, em maior ou menor grau – o protagonismo feminino na re/construção do mundo. “É que meu país morreu/ e fui eu e minhas irmãs/ que reconstruímos/ tudo o que se vê”, provoca a letra.

A letra de “Rosa”, que fecha o disco, é uma espécie de alerta vermelho para diversas questões cotidianamente percebidas em nossa época: o egoísmo, a insensibilidade diante de problemas alheios ou da desigualdade social, a ditadura da beleza (e da indústria cosmética), o charlatanismo de falsos pastores (autoridades religiosas que afinal (se) elegem governantes) e, obviamente, o obscurantismo a que sucumbimos desde a ascensão do neofascismo ao poder.

Com rara elegância, “Eva” equilibra-se “entre o monstruoso e o sublime”, como diria um antigo compositor baiano, a urgência de seus temas e a beleza das vozes e dos arranjos que as emolduram. Como todas as questões suscitadas em seu conteúdo, estamos diante de um disco que não deveria passar despercebido ou ser recebido com indiferença por ninguém.

Ouça “Eva”:

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