O escritor, jornalista e tradutor Eric Nepomuceno publicou O Massacre – Eldorado do Carajás – Uma História de Impunidade originalmente em 2007, e num prefácio inédito escrito para a nova edição relata as (poucas) mudanças da conclusão do livro para cá. Há novos corpos além dos 19 mortos no massacre de 17 de abril de 1996, quando, à luz do dia, 155 policiais paraenses abriram fogo contra 2.500 trabalhadores sem-terra que haviam bloqueado uma rodovia nos arredores de Eldorado do Carajás (PA), nas redondezas de onde funcionou décadas atrás o garimpo de Serra Pelada.
O governador Almir Gabriel (PSDB), responsável pela ordem que precipitou a matança, morreu em 2013 sem jamais ter sido indiciado ou levado à Justiça. Em 2012, os dois policiais militares que comandaram a ação foram finalmente presos – em 2016, o coronel Mário Pantoja, principal comandante da missão, conquistou a prisão domiciliar. Em tempos bolsonaros, é ocioso observar que a situação fundiária piora a cada dia, em nível amazônico e nacional. “Convém recordar”, escreve Nepomuceno, “que na sexta-feira, 13 de abril de 2018, e em plena campanha eleitoral, Jair Bolsonaro foi até Eldorado do Carajás. E em frente dos 19 troncos de castanheiras queimadas erguidos em círculo exatamente no lugar do massacre, disse, entre outras frases em defesa dos policiais militares presos por causa da matança feita 22 anos antes, que ‘quem tinha de estar preso é o pessoal do MST, gente canalha e vagabunda'”.
Por outro lado, no palco do massacre surgiu o assentamento de sem-terra chamado Vila 17 de Abril, grande fornecedor de leite para a região. Entre os assentados, o Movimento Sem Terra disputa terreno, em desvantagem, com grupos evangélicos que não param de crescer. O 17 de abril passou a ser tributado como o Dia Mundial de Luta pela Terra.
Na narrativa do livro em si, o autor remonta a tragédia, seus antecedentes e seus resultados, numa fórmula grandiosa de apresentar primeiro “a terra”, em seguida “o homem”, por fim “a luta” em que os escolhidos para morrer foram homens sem-terra, em vários casos com facões e foices que pertenciam a eles próprios. Nenhuma mulher morreu, também nenhum policial. “Olha aí, safado, não era isso que vocês queriam? Queriam terra, agora vão ter”, bradavam os matadores, segundo a reconstituição de Nepomuceno. Riqueza que se vê cada vez mais na imprensa cotidiana, o autor ouve o lado perdedor da moeda sangrenta. “Tenho a minha terra. Ninguém tira ela de mim. Aqui vou ser enterrado. Esse é o meu sonho. Pena que, para que ele virasse verdade, tantos amigos tenham tido de morrer”, afirma um sobrevivente do massacre.

O Massacre – Eldorado do Carajás – Uma História de Impunidade. De Eric Nepomuceno. Record, 167 págs., 38 reais.

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