laudir de oliveira com o neto

Em 1969, o brasileiro Laudir de Oliveira chegou a Los Angeles para tentar a sorte como percussionista e foi ver um show de um amigo. Na saída, quando ia embora do teatro, no estacionamento, um homem o abordou. “Você é o Laudir? O percussionista? Quer tocar na gravação de um disco na semana que vem?”.
Laudir topou e, na semana seguinte, chegou ao tal estúdio. “Estava cheio de cabeludos, muita coisa proibida. Eu pensei em fugir, de medo. Mas não deu tempo, acabei gravando. Só depois fiquei sabendo que era o disco With a Little Help From My Friends, de Joe Cocker, com o Jimmy Page, Albert Lee”, lembra hoje, divertido.
Filho de sergipanos, família de 11 irmãos, natural de Ramos (RJ), o lendário percussionista brasileiro de 76 anos seria um dos destaques da segunda edição do Iguape Jazz & Blues Festival, no ano passado. Mas o festival foi cancelado – fiz essa entrevista para o festival. Após 26 anos morando no Exterior (18 anos na Europa, 7 anos nos Estados Unidos, um ano no México), ele se restabeleceu no seu bairro de origem e prossegue em intensa atividade, além de empreender ações educacionais.
Bailarino de gafieira, ele viveu ali em Cacique de Ramos sua iniciação artística. Morava ao lado de um córrego. Do lado de lá, vivia o maestro Moacir Santos, que lhe deu “três dias de aulas de percussão”. Baden Powell, amigo da família, visitava sua mãe. Pixinguinha, João da Bahiana, o maestro José Prates: no entorno, conheceu e aprendeu com os maiores.
Na era da contracultura, Laudir fez o nome no Exterior com sua marca inconfundível de ritmista de candomblé. Chegou aos Estados Unidos na mesma época que Airto Moreira. “Ele tocou com Miles Davis e virou músico de jazz. Eu toquei com Joe Cocker e virei músico de rock. Mas até hoje não sei dizer o que é rock. Acho que é baiano, o rock”, brinca. Não por acaso, seu disco mais recente, com o grupo Urca, Bossa, Jazz, é o álbum 70 Anos de Raul Seixas, em homenagem ao roqueiro baiano.
Laudir foi para os Estados Unidos, na verdade, acompanhando o espetáculo Brasiliana, uma turnê que correu o mundo durante 3 anos, com 33 artistas no elenco. Ele tinha sido ator no Brasil, encenou Antígona, de Sófocles, na companhia de Pascoal Carlos Magno. Mas abandonou a carreira para seguir a trupe. Como músico, formou o Família Sagrada com Luiz Eça e o Som Imaginário, com Milton Nascimento. Ao deixar ambos, foi substituído por Naná, grande amigo.
Em 1970, ele, Naná Vasconcelos e Airto Moreira, os maiores da percussão, tentaram criar um grupo em Los Angeles (teria ainda Herbie Hancock no teclado). Mas não deu certo: Airto insistia em colocar a mulher, Flora Purim, como cantora, e Naná era contra ter vocalistas no grupo.
Recrutado pela banda Chicago, onde ficaria até 1981 (e com quem ganhou um Grammy, em 1976), Laudir recentemente foi admitido no Hall da Fama do Rock, junto com o grupo que integrou. Seu toque afro na cozinha da banda a tornou uma das mais longevas do rock, mais de 40 anos na ativa. Tocou e gravou com Chick Corea, Gerry Mulligan, Lee Ritenour, Sergio Mendes. Sua batida está no disco Destiny, da banda familiar de Michael Jackson, The Jacksons, entre centenas de outros registros.
Em setembro, seria publicada a biografia de Laudir de Oliveira, de autoria de Washington Araújo. Antes, ele passaria por Iguape com um convidado especial, o gaitista Jefferson Gonçalves. “Se ele é bom? Eu sou bom. Ele é MUITO bom!”, diz o percussionista, que já tem tocado com Jefferson há algum tempo.

Segundo o noticiário, Laudir morreu ontem, domingo, de infarto, em pleno palco, durante um show no Reduto Pixinguinha, em Olaria, Zona Norte do Rio. Um gigante.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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