a) Em “Blues pra Bia”, segunda canção do álbum Caravanas, o velho Chico Buarque faz um avanço tímido sobre a pansexualidade que é marca identitária das novas gerações, talvez de todas as gerações que fazem a grande caravana chamada humanidade, às vezes mais dentro dos armários empoeirados, às vezes mais fora deles. O velho narrador está paquerando uma jovem menina, imagino que Bia. “Compus doce melodia/ pra ela se enternecer/ rimei com melancolia/ meu dia a dia sem Bia/ mas Bia não quer saber”, faz manha o velho sonhador. “Vai ver que nem imagina/ que estou a me insinuar/ talvez ela dê risada/ talvez fica encabulada/ talvez queira me avisar/ que no coração de Bia/ meninos não têm lugar/ porém nada me amofina/ até posso virar menina/ pra ela me namorar”. Está aberta a temporada para gigantesca DR nas caixas de comentários, sobre homofobia, machismo, misoginia, travestismo, o amor (pedófilo?) de velhas meninas por meninos velhos, e quem mais chegar.

b) Em 1989, um compositor baiano citou Albert Camus num álbum chamado Estrangeiro, que continha no seu início uma canção chamada O Estrangeiro. Em 2017, Chico Buarque cita o compositor baiano num álbum chamado Caravanas, que contém no seu final uma canção chamada As Caravanas. Somos estrangeiros em qualquer tempo e lugar? Ou nos transformamos em fascistas golpistas babões de ódio pela resistência em ser quem realmente somos por dentro, ainda que em caravana transitória? Como mero espectador, às vezes me ponho a desejar que Chico e o compositor baiano, o petista e o tucano, se casassem logo de uma vez, em vez de apenas nos fetichizar como eterna plateia na caixa de comentários de uma conversa íntima e particular.

Copiar a capa do disco é plágio ou divulgação?
(Copiar a capa do disco é citação, plágio ou divulgação?)

P.S.: Pela original estratégia de divulgação de Caravanas, jornalistas (todos?, ou só alguns?) tivemos a chance de ouvir o álbum durante três horas, entre as 9h e o meio-dia da terça-feira 22 que antecede o inevitável “vazamento” do disco, a qualquer momento. (Conseguirá o super-Chico evitar o “vazamento” e virar recordista de vendagem nas prateleiras das Lojas Americanas, se nem Britney Spears tem conseguido evitar-lo?) De lá para cá, tenho recorrido às letras no encarte que os divulgadores compartilharam (e que posso mostrar para você, se quiser) e às gravações da audição transitória que fiz pelo celular – e que ficaram péssimas, parecidas com gravação de Francisco Alves em cera de carnaúba na era de ouro. A caravana de pré-divulgação veio recheada de ameaças, tipo “download é crime” e “você pode ter as mãos decepadas se conspurcar a sacralidade da finada santa indústria fonográfica mundial marineira” (o texto real: “Site exclusivo para a imprensa. Ao acessar este site, seu IP é automaticamente identificado. As canções de Caravanas estão sob copyright e possuem marca d’água. Seu download é ilegal”). Que horas ela vaza?

 

(Mais sobre Caravanas aqui.)

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