Dilma toma posse em janeiro de 2011 não em companhia de um primeiro-cavalheiro, mas da filha Paula
Dilma Vana Rousseff toma posse em janeiro de 2011 não em companhia de um primeiro-cavalheiro, mas da filha Paula

Em 2010, a tradicional família brasileira foi submetida à traumática experiência de ter de aceitar, pela primeira vez, a eleição de uma mulher para a presidência da República. A porção tradicionalista, reacionária, machista e misógina do país não pôde evitar o ato consumado. Mas reagiu de pronto, de duas maneiras iniciais.

De chofre, o sempre ditatorial partido da imprensa conservadora providenciou uma série de denúncias de corrupção contra o governo de Dilma Vana Rousseff. Ela reagiu prontamente, demitindo ministros suspeitos, um após o outro. Desconcertado, o partido da imprensa misógina entrou de sola com sua segunda ação, rotulando a presidentA (que jamais chamou de presidentA) de “faxineira”.

Diante do fracasso da primeira estratégia, a segunda manteve oculto o tiro no pé. A suposta diminuição da presidentA à condição habitualmente subalterna de “faxineira” escondeu, mal e porcamente, o fundo misógino, racista e classista da reação dos reacionários. A existência, anos mais tarde, do filme Que Horas Ela Volta? (2015), de Anna Muylaert, seria um dos calmos revides à primeira onda misógina antiDilma, aquela que pretendia “reduzir” a presidentA, mandatária máxima, a subserviente e obediente “faxineira”.

A estudante Jessica (Paula?) e a faxineira Val (Dilma?), mulheres protagonistas de "Que Horas ela Volta?"
A estudante Jessica (Paula?) e a faxineira Val (Dilma Vana?), mulheres protagonistas de “Que Horas ela Volta?”

A reação submergiu diante da competência da “faxineira”. Dilma viveu um primeiro mandato presidencial estranhamente tranquilo. Por vezes até governou em paz, enquanto o partido da imprensa inconformada mirava flechas de curare em Luiz Inácio Lula da Silva, o pai da filha política, pai da própria mãe. Embora estranhássemos, todas nós sabíamos que o partido da imprensa reacionária não hibernava. Mais cedo ou mais tarde, mostraria suas garras.

Aconteceu em 2014. A fúria reativa ergueu uma montanha durante a campanha de reeleição da que não deveria ter sido eleita, matando o suposto esquerdista Eduardo Campos e ressuscitando a suposta mulher Marina Silva, entre outras “façanhas” grotescas, tudo para não permitir a recondução da que não deveria ter sido conduzida.

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Marina Silva solta os cabelos para Aécio Neves da Cunha, ao consumar apoio ao próprio algoz no segundo turno da eleição de 2014

O plano deu certo, num primeiro momento: a mulher beijada Marina serviu de escada subserviente para que o homem beijoqueiro Aécio Neves (uma nulidade política) ascendesse ao segundo turno e usurpasse a noiva (a República). Mas a montanha não conseguiu eleger o camundongo.

Com capa falsificada da Veja e tudo, deu tudo errado. A mulher que nem deveria ter sido eleita terminou reeleita, frustrando o minucioso golpe de recaptura do controle do país pelo partido do empresariado machista-católico-regressista.

Dilma Vana Rousseff toma posse outra vez em janeiro de 2015, outra vez ao lado da filha Paula
Dilma Vana Rousseff toma posse outra vez em janeiro de 2015, outra vez ao lado da filha Paula

Aí a misoginia começou a enlouquecer, anabolizada pelo fato de que o assalto havia conseguido estreitar a margem de vitória e, assim, encolher o poder de fato da re-escolhida. A direita golpista agradeceu silenciosamente, sem muita gratidão, à esquerda antiDilma, ao partido do muro eterno, à blogosfera regressista, às cada dia menos femininas marias-vão-com-os-outros. A redução da margem de poder era boa, mas estava longe de ser suficiente para quem apostara tudo na derrota ainda “legítima” e “institucional” da bruxa inimiga.

A nação de meninos mimados emburrados começou a vir à tona. O reacionarismo começou a virar hospício. Os machos reacionários dupla e tripla e quadruplamente perdedores soltaram o pino.

Dois segundos depois da reeleição, havia gente (não só na direita e no partido da imprensa escravagista, mas até mesmo na chamada blogosfera macho-progressista) garantindo que a reeleita não tomaria posse, não conseguiria governar, não teria um minuto de paz, não governaria.

Dito e feito.

A guerrilha de desgaste foi, pouco a pouco, se transformando em guerra aberta, político-jurídico-midiática. Me abstenho de relembrar o último ano e quatro meses, que está nítido nas nossas memórias de sofredoras.

Corto para o dia em que Dilma deixou o vice decorativo Michel Temer cuidando da casa e viajou para o coração do GOLPE, Nova York, para discursar na Organização das Nações Unidas: 22 de abril de 2016, aniversário de 516 anos do “descobrimento “do BraZil.

Dilma Vana fala sobre o clima
Dilma Vana fala sobre o clima na convenção sobre o clima

Serena. Calma. Tranquila. Ponderada. Controlada. Moderada. Para alívio momentâneo da direita hidrófoba e surto automático de esquerdas misóginas que desde janeiro de 2011 não confiam um milímetro em seu governo, Dilma não usou a tribuna internacional para desvio de rota, pedido esmolambado de socorro ou plataforma de chororô. Agiu como a estadista que, dia após dia, noite após noite, tem revelado ser.

Na serenidade da resistência em fogo brando, expôs mais uma vez o descontrole do partido da imprensa golpista (de direita e de esquerda e de centro) e do partido da Fiesp (Federação das Indústria de São Paulo = Rede Globo), o PCO, Partido do Crime Organizado.

Não importa um milímetro que a revista-panfleto Istoé xingue Dilma e a difame como louca furiosa. A cada dia, mais gente (sobretudo gentes de gênero feminino) compreende quem é que está louco, furioso, descontrolado, em combustão espontânea: são os (predominantemente) machos que até hoje não se conformaram nenhum segundo sequer com a eleição da eleita e reeleita.

Coisas estranhas acontecem enquanto Dilma esbanja serenidade e maturidade diante da brutal ameaça de assalto ao símbolo que é, de violência anti-institucional e de estupro à figura que representa. Brinquemos de fazer listinha.

Michel Temer se comporta como estadista para garantir a vaga de Dilma em não-eleição indireta
Michel Temer se comporta como estadista para garantir a vaga de Dilma em não-eleição indireta

Candidato a usurpador, o vice-presidente golpista da República sai de carro semi-escondido, descabelado, esbugalhado, esquecido de plantar pancake no rosto betuminoso.

"The Guardian" humilha um dos Irmãos Marinhos, colando seu sagrado direito de resposta na caixa de comentários do site
“The Guardian” humilha um dos Irmãos Marinhos, colando seu sagrado direito de resposta na caixa de comentários do site

O presidente (antidemocraticamente não-eleito) do quarto poder, João Roberto Marinho, da TV-panfleto Rede Globo de GOLPES contra a Democracia, cai à condição mal afamada de comentarista furibundo de portal, ao reagir com uma piscina de mentiras arrogantes contra uma reportagem minimamente equilibrada do jornal inglês The Guardian.

367 parlamentares ensandecidos (maioria absoluta de homens) ofertam espetáculo planetário de horror, no maior Xou da Xuxa político da história deste sofrido país. Os votos se referem a Deus, religião, tradição, família, propriedade – se referem a tudo, menos a supostos crimes de responsabilidade cometidos pela bruxa que sonham atirar à fogueira da extinção.

De face permanentemente pintada em 50 tons de rosa e escarlate, o presidente onipotente dos 367 estupra tudo que há para estuprar e vota (quando não deveria votar) pelo golpeachment, evocando um deus macho que proteja o BraSil dele mesmo (ele, Eduardo Cunha, e não ele, o BraSil, ou ele, deus.com): “Que Deus tenha misericórdia desta nação”.

Três machos do Supremo Tribunal Federal fazem striptease de toga na praça dos três mil poderes GOLPISTAS: proclamam votos na hora de não votar, militam por determinado partido, acobertam bandidos, omitem-se. O STF como um todo, vários homens e poucas mulheres, confirma-se covarde ao não se acovardar apenas e somente diante daquele que os qualificou como acovardados.

Aparentando viver num filme de Glauber Rocha, um ex-presidente do STF, Carlos Ayres Britto, sai fantasiado de pavão mysteriozo e tucaniza o GOLPE para “pausa democrática” em “transe institucional” para “freio de arrumação”. (A última dessas “pausas” “democráticas” durou 21 anos de regime civil-militar de exceção.)

De sobrenome Civita, a revista-panfleto Veja ejacula de felicidade: estamos prestes a depor aquela asquerosa mulher autônoma e independente!, estamos prestes a restaurar o poder masculino amparado por uma escrava branca, bela, recatada e do lar!

De sobrenome Frias, o jornal-panfleto Folha de São Paulo desce do próprio manual de redação, joga ao mar os pilares de pluralidade, neutralidade e apartidarismo e cai no samba com editorial que EXIGE renúncia, impeachment, GOLPE e suicídio porque sim, sim, sim, sim, sim, siiiiiiiiiiiiiiiiim! O machinho-riquinho-reizinho sou eu, eu quero porque quero, cumpram minha vontade e cortem-lhe a cabeça!

O jornal "O Globo" apela e volta ao clima "a democracia voltou" de editorial de 1964 para justificar a tentativa de golpe em 2016
Isolado na imprensa mundial, o jornal “O Globo” apela e volta ao clima “a democracia voltou” de editorial de 1964 para justificar a tentativa de golpe em 2016

De sobrenome Marinho, o jornal-panfleto das Organizações Globo de GOLPES perde a pompa e a circunstância e parece incorporar o espírito do Professor Hariovaldo em seu editorial pós-Cunha, pós-golpeachment, pós-reação internacional.

Saudades de 1964
Saudades de 1964

Jornalistas funcionários das Organizações Globo se põem a bater boca via redes sociais com seus colegas da mídia planetária, dispostos a comprovar a tese editorial do patrão de que não há GOLPE no Brasil e de que as Organizações Globos são democráticas, neutras, plurais e apartidárias. Enquanto o fazem, nós aqui de fora elaboramos estatísticas fundadas em regra de três e descobrimos o BraSil: 100% dos funcionários semi-escravos das Organizações Golpe são a favor do GOLPE; confirmando o pluralismo democrático do patrão, 0% deles se sujeita a classificar o GOLPE como GOLPE.)

(O conspirador supremo, o maior inimigo de Dilma, José Serra, notório misógino que usa esposa, ex-esposa, filha, amante e secretária como escudos, até aqui manteve a fleuma em público. Em público. Até aqui.)

(Você pode me ajudar com mais exemplos de descontrole masculino – eles pululam no Brasil que faz questão, por mera vontade subjetiva, de derrubar do poder aquela mulherzinha.)

Dilma Vana se exercita na manhã em que a Câmara Federal aprovaria o prosseguimento do processo de golpeachment
Dilma Vana se exercita na manhã em que a Câmara Federal aprovaria o prosseguimento do processo de golpeachment

E como reage Dilma Vana a este festival de irracionalidade masculina e/ou masculinizada? Em primeira instância, com a estratégia silenciosa, quase muda, que tem usado desde a primeira eleição em 2010: evidenciando pela paciente mudez que estamos diante de reação misógina, rebelião misógina, panelaços misóginos, ataques misóginos, assalto misógino ao poder, estupro institucional misógino, tentativa misógina diuturna de calar a voz da presidentA, sobretudo um GOLPE misógino.

Colunista das Globos insiste na velha e puída crítica misogina
Colunista das Globos insiste na velha e puída crítica misogina

O golpe é sobretudo misógino. Não estão endoidecidos para depô-la porque é má governante, porque corrompeu, porque foi corrompida ou porque não merece o cargo que ocupa. Estão endoidecidos para depô-la porque é mulher, “faxineira”, ruim no volante, dondoca fútil doida para ir às compras em Nova York, uma mistura dessa barafunda toda.

O golpe é sobretudo misógino e não será debelado enquanto não estivermos prontas para dar nome próprio à coisa – e, a partir de nomeá-la, combater, derrotar e quem sabe um dia dizimar a coisa em si.

Após a aprovação do golpeachment na Câmara Federal, Dilma Vana recebe amor feminino à entrada do Palácio do Alvorada
Após a aprovação do golpeachment na Câmara Federal, Dilma Vana recebe amor feminino à entrada do Palácio do Alvorada

Sobretudo, a estadista Dilma reage ao festival de insanidade (sobretudo) masculina com um misto de duas máximas, apenas uma delas declarada. “A vida quer é coragem“, ela costuma declarar desde o primeiro discurso de posse, suscitando seu conterrâneo mineiro João Guimarães Rosa, pai [email protected] [email protected] Diadorim.

A segunda máxima, não explicitada, ela toma do presidente deposto Fernando Collor, quando, arruinado por si próprio (com o pontapé estrondoso do mesmo partido da imprensa golpista de sempre), andou com uma camiseta estampada “o tempo é senhor da razão”.

Dilma não disse essa frase, mas a sinalizou em entrevista a blogueiros (nem sempre) progressistas, ao evocar os tempos de prisão, quando ficava à espera da inevitável próxima sessão de tortura. Concluo me furtando de tentar decifrá-la e decupá-la, porque a mulher em quem votei e que me representa fala por mim, por nós:

“Um belo dia estava eu na Operação Bandeirantes; daqui a duas horas você espera que vai ser interrogado. Depois, ia para o Dops. Ficava torcendo para Fleury ir para o carnaval, porque aí não interrogava. Passava um tempo, ia para o Presídio Tiradentes. Você ia pensar o que? Não tem saída, é assim para sempre? Não é assim que se encara. Encara se tiver esperança, se souber que a vida é um pouquinho mais complicada. (…) Sabe porque não temos mágoa dos torturadores? Porque nós ganhamos e eles não. Mas levamos 25 anos. Na pior situação, você sempre sabia que as coisas não são estáticas, são dinâmicas, os agentes sociais agem. Enquanto tem tudo isso, eu vejo uma manifestação democrática fantástica. E tenho certeza de que independentemente de mim, isso continuará, o país continuará avançando e a democracia se consolidando”.

Mulheres envolvem Dilma Vana em abraço "todas juntas somos fortes"
Mulheres envolvem Dilma Vana em abraço “todas juntas somos fortes”, no dia (do índio) 19 de abril de 2016

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