Ato na rua da Consolação, em São Paulo, em 15 de maio de 2016. (foto Paulo Pinto/Agência PT)

Em poucos dias de Olimpíadas no Rio de Janeiro, a mídia internacional já exibe perplexidade e incômodo frente ao comportamento das torcedoras brasileiras nas arenas de competição. É o que expõe na manhã da primeira segunda-feira olímpica, por exemplo, uma reportagem da filial local da BBC (British Broadcast Corporation, a TV pública/estatal inglesa, não uma Rede Globo, mas uma TV Brasil à maneira Brexit).

De fato, o Brasil não é de fácil decifração para quem não nasceu aqui, nem mesmo para quem nascemos.

Ato na rua da Consolação, em São Paulo, em 15 de maio de 2016. (foto Paulo Pinto/Agência PT)
Ato na rua da Consolação, em São Paulo, em 15 de maio de 2016 (foto Paulo Pinto/Agência PT)

É pouco provável que o planeta já tenha ouvido falar de modo maciço sobre a “linguagem da fresta“, essa nossa criação indígena de guerrilha contra a institucionalização da violência pelo chamado “Estado”. Trata-se de um hábito ancestral reinventado e consagrado pela música popular brasileira, a (im)popular MPB, nos tempos do golpe de estado anterior, da ditadura civil-militar de 1964.

A linguagem da fresta, ou da brecha, fez a glória de nomes como Chico Buarque nos anos 1970, quando a repressão militar comia a sociedade à solta (sob graus relativos de aprovação pela própria sociedade que era comida primeiramente). Chico é bem menos popular em termos planetários que seus parças MPB Caetano Veloso Gilberto Gil, mas todos foram, em maior ou menor grau, useiros e vezeiros da linguagem da fresta contra a violência institucionalizada. Os livros de história contam, com ou sem partido.

Caetano Veloso segura a tabuleta da brecha nos bastidores da cerimônia de abertura das Olimpíadas
Caetano Veloso segura a tabuleta da brecha nos bastidores da cerimônia de abertura das Olimpíadas

CpLZcI6WAAAJbHhCaetano colocou as anteninhas zeitgeist de fora no bastidor da festa de abertura dos Olympics (nada diante dos bilhões de espectadores e da sestrosa Anitta). Mas quem transbordou na linguagem da fresta, cara a cara com o planeta, foi Elza Soares, dona até aqui do maior – e menos explícito – “fora Temer da história da humanidade.

Viúva de Mané Garrincha, Elza deu o pontapé inicial, em tempos de novo golpe de estado e de neo-ditadura civil-militarizada, para a ressurreição do drible da brecha.

A população vem quicando a bola, com maior ou menor elegância, para espanto e perplexidade da mídia planetária – e silêncio ensurdecedor da cada dia mais constrangida mídia golpista local.

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A goleira estadunidense teme contrair brasilidade nas Olimpíadas do Rio

Exemplos divertidos abundam na reportagem da BBC, a começar pelo escracho anti-racista na goleira azulvermelha dos Estados Unidos da América, zicada de fio a pavio pelas primas pobres verdamarelas.

Mesmo sob repressão pesada (e ilegal) em mergulho sincronizado operado pelo governo Michel Temer, pelo comitê organizador internacional (o COI, Comitê Olímpico Internacional) e pela Rede Globo, os protestos antigolpe se espalham e causam ruído na festa de suposta harmonia mundial.

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Brecha por tocha, o momento histórico atual se comunica com o nascedouro-e-auge da dita MPB que acendeu a chama e abriu a fresta: o ambiente dos festivais da canção dos anos 1960 e 1970. O idioma da vaia precedeu o da brecha. Uma população que havia sido cassada em seu direito de votar via a repressão intumescer dia após dia. Desprovida de voto, vaiava, vaiava, vaiava, como se não houvesse amanhã.

Eleições já canceladas, o Ato Institucional número 5 de 13 de dezembro de 1968 arrematou o golpe da vez e extirpou o direito à vaia. A era dos festivais rastejou feito cobra pelo chão, agora na tela ditatorial da patrocinadora oficial de golpes, a proto-estadunidense Rede Globo.

O FIC (Festival Internacional da Canção) seguiu como arena, palco e alcova para espetáculos cruzados de luta de resistência e de repressão, como bem sabem os livros de história, o finado Wilson Simonal e o ainda vivo Toni Tornado. As mulheres permaneceram na cozinha (Maria Alcina à parte), e o racismo foi troféu e pedra de toque para a elite loura de então: (quase) nada de novo no front.

Nas frestas e brechas abertas pelos livros de história às boas entendedoras, as arenas olímpicas de 2016 evocam os festivais internacional da canção da então emergente Globo. Se é certo que a história não se repete a não ser como farsa, temos de aguardar todas e quaisquer surpresas do futuro próximo. Mas já sabemos que, hoje como ontem, a primeira reação popular brasileira diante do voto cassado vem em forma de vaia, de escracho, de picardia macunaímica.

Metralhadoras e fuzis à parte, as torcedoras estão todas soltas.

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