Moraram na casa durante 26 anos. Outro casal alugou depois e viveu 4 anos ali.
Venderam o imóvel recentemente para uma moça jovem, que pagou mais de um milhão pela residência.
A garota pagou com alegria, e logo deu uma festa para uma centena para comemorar – com direito a segurança na porta.
Depois, iniciou a reforma. Contratou uma empreiteira, um plano ousado: paredes da sala e da cozinha foram abertas, uma laje cobriria o quintal lá embaixo.
Na parede da sala, alguém escreveu: “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”.
Era preciso abrir os depósitos sob a casa, restaurar a tubulação.
Três operários quebraram o piso do depósito. Tiveram trabalho: o chão tinha três camadas de concreto. Abriram a primeira vala para os tubos.
Surpresa: um fêmur, duas fíbulas, junta do joelho, o osso do cóccix.
A parte de baixo de um ser humano.
A escavação mostrava mais ossos debaixo.
Chamaram a polícia, a escavação foi interrompida, o lugar foi interditado (não a obra na casa de cima, que continua).
O vigia da obra, que dorme no local, brincou: “Eu só tenho medo dos vivos, não dos mortos”.
Os ossos parecem antigos, talvez entre 10 a 20 anos (um cara da Polícia Científica me disse hoje que têm “muito mais” de 20 anos).
Os vizinhos, que andavam preocupados com os ladrões que invadiram casas nas últimas semanas, agora se debruçam sobre o mistério da ossada humana que apareceu.
De quem seria? Quantos anos tinha? Quanto tempo ficou sob três camadas de concreto até que sua história emergisse?
Uma viatura da polícia militar está parada na frente da nossa casa desde cedo.
Que tipo de vizinho tivemos?
Via jogos do Santos, do Corinthians ou do Palmeiras?
Agora chegou um trio de investigadores com distintivos pendurados no pescoço.
Nós só mudamos para cá sábado.

ATUALIZANDO:
Na sexta, ouvi um encarregado da obra falando ao celular. “Esses ossos são muito diversos, pode não ser nada. E nem acharam a cabeça. Sem o crânio não dá”.
A polícia científica veio buscar os ossos no final de semana. O crânio não foi achado.
Um vizinho levantou a hipótese de os ossos terem estado ali muito antes de a casa ser construída, há 35 anos.
A provável prescrição do crime e o volume de investigações que a polícia tem podem finalmente conduzir os ossos para um armário sem fundo no departamento de polícia.

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