Certa vez um padre perguntou aos seus fiéis: quem quer ir para o céu? Todos efusivamente levaram os dois braços, num gesto vibrante, observando se alguém não o faria. O padre continuou: e quem quer fazer isso agora? Os braços se abaixaram. Todos tinham algo a ser feito antes que aquele “desejo” se concretizasse.

De modo igual, ao perguntarmos aos políticos em campanha eleitoral: quem quer que a educação seja prioridade? Certamente todos rapidamente levantariam seus braços com um largo sorriso no rosto para que todos os observassem. E se seguindo o questionamento perguntássemos: quem vai fazer isso no primeiro dia de mandato? Lembrariam, esses, que temos de “ver o orçamento”, temos algumas “questões de outros setores a serem debatidas no momento”, precisamos “analisar o contexto atual…”.

Esse é um fato em nossa sociedade, sobretudo a brasileira. No entanto, o que intriga a muitos é por que tantos milhares de cidadãos ainda se dispõem a lecionar numa sociedade que exclui de suas pautas mais urgentes a educação – base de todas as demais questões –, relegando a essa um “outro momento” de discussão. Momento que, aliás, nunca chegou de fato.

No ano de 2011 me propus a esta empreitada após um bom período de formação – que não se resume apenas aos anos de estudos da licenciatura, senão uma disposição interna de espírito que nos impulsione a querer lecionar – e ingressei como professor de filosofia na rede estadual de ensino do estado de São Paulo, na cidade de Campinas, onde residia na época. Com esses meus primeiros alunos aprendi também a ensinar, compartilhar, dividir minhas manhãs, conviver. Talvez tenha cometido equívocos frente à falta de experiência – perdoem-me, alunos –, mas o desejo de melhorar me impulsionava a seguir. Fui atrás de mais formação: pós-graduação; curso de Libras; introdução ao ECA; curso sobre currículo e prática docente; etc. Queria levar o melhor para meus alunos.

Em 2013 houve a primeira greve durante minha carreira docente. Logo de cara achei necessário aderir ao movimento. Reivindicávamos uma educação de melhor qualidade, para nós e nossos alunos. Eu tinha de participar. Porém, a falta de informação, acarretada às incertezas de um contrato precarizado (categoria O, instituída pela lei 1.093/2009), e a pressão dos “mais entendidos” sobre minha possível perda de contrato acabaram por me desestimular e abafar meu impulso de luta.

Continuando meus estudos, buscando aperfeiçoar sempre e me cobrando por isso, participei do “maior concurso da história” (grifo do governo PSDBista de São Paulo), e com bom resultado me efetivei logo na primeira chamada, assumindo um cargo na cidade de Diadema, minha cidade natal, na qual voltei a residir.

Por estar mais próximo da família, de velhos amigos, numa realidade social em que eu havia crescido, pensei que tudo seria melhor. A escola está em um prédio razoavelmente novo (inaugurado em 2009), e seria também razoável pensar que ali eu encontraria uma estrutura mais adequada ao trabalho cotidiano. Ledo engano!

O que conhecemos de fato nas várias denúncias sobre as condições das escolas públicas se repete também ali. Falta de estrutura, falta de equipamentos tecnológicos básicos, falta de segurança etc. No final do ano passado ainda fomos acometidos com o corte de verbas do governo, que impossibilitou, entre outras coisas, a compra de papel higiênico, material de escritório e demais itens já noticiados e denunciados por tantos colegas de outras unidades escolares.

O início deste ano foi marcante! Mato alto, vidros quebrados, portas quebradas, paredes rabiscadas… e sem nenhuma verba para manutenção básica! Isso mesmo, teríamos de iniciar o ano sem as correções necessárias. Diante do exposto, agora já mais bem informado sobre a carreira docente com seus direitos e deveres, não pude me furtar a aderir ao movimento grevista logo no primeiro dia.

Tive o grato orgulho de participar de visitas a outras escolas para explicar aos colegas professores os motivos da greve e captar novas adesões (ato esse que foi posteriormente proibido de ser realizado em outras escolas por ação judicial movida pelo estado paulista). Fui às assembleias sempre lotadas na capital, com passeatas, gritos de ordem, bandeiras e a alegria de estar fazendo o certo: lutar por educação de qualidade.

Porém, uma desgraça prevista assolou a muitos companheiros. Após decisão colegiada dos desembargadores do estado ter deferido a favor do não corte de ponto dos professores grevistas, o (des)governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, foi a Brasília e conseguiu a suspensão da decisão, cortando o salário de todos esses professores. Num gesto contra a lei, atingiu muitos de nós. Depois de 80 dias de paralisação, em meio a prantos e sentimento de covardia e derrota diante dos colegas lutadores, fui “obrigado” a retornar à sala de aula.

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A Tropa de Choque da Polícia Militar do governador Geraldo Alckmin (PSDB) fecha a entrada da Secretaria Estadual de Educação durante manifestação dos professores – foto Jornalistas Livres

Eu não sabia como iria encarar esse retorno. Ensaiei discursos. Pensei nas respostas às mais descabidas perguntas que pudessem surgir. Nada disso aconteceu. Pelo contrário, a alegria e empatia dos alunos ao me verem cruzar o pátio e aos cochichos que se espalhavam de “o professor voltou”, fui seguido por alguns que queriam entender meu retorno, pois todos sabiam de minha decisão inicial de voltar somente quando a greve fosse encerrada oficialmente.

Aos meus ilustres colegas professores ainda no movimento grevista peço perdão por fraquejar agora no que parece ser a reta final. Eu lutei. Eu luto na sala de aula.

“O Brasil é o país do futuro.” Torço para que esse futuro se abrevie, e que a educação seja a alavanca que guie os caminhos do país.

 

(*) Professor Fernando, que escreve sob anonimato, tem 33 anos e leciona em escolas públicas do governo estadual paulista desde 2011.

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