A aritmética é apenas visual, mas a impressão é de que TODAS as professoras que lotam o vão livre do Masp votaram sim. Elas brandem com as duas mãos levantadas a aprovação irrestrita da resolução: sim, a greve das professoras estaduais paulistas vai continuar.

Já são 49 dias paradas (e sem salário), durante os quais o sacrossanto governador tucano Geraldo Alckmim, primo político mais velho do sanguinário correligionário paranaense Beto Richa, não negociou nem uma pitada de sal com as insurgentes.

Uso “professoras” no feminino, embora haja muitos professores homens nessa que é mais uma passeata gigante numa já quase tradição de caminhadas semanais de professores do Masp até a sede da Secretaria Estadual de Educação, que fica no centro de São Paulo, dentro da praça da República.

Uso “professoras” porque elas são maioria na passeata (e na profissão) inspirado na entrevista que faço com uma professora aposentada de que não me recordo o nome. Ela dá entender, não nessas palavras, que professoras são mais mulheres do que homens porque ganham menos que homens, e ganham menos que homens porque são mulheres e professoras, ou algo assim meio parecido com isso que não consigo decifrar melhor.

Estou transmitindo a assembleia e a passeata ao vivo, de celular na mão no programa Twitcasting. Jornalista habituado a escrever textos, na hora da rua não faço anotações enquanto entrevisto porque estou com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. Agora que é hora de escrever, em casa, não tenho anotações e não sei direito o que relatar.

Está tudo um tanto confuso, até porque o Beto Richa lascou porrada geral ontem nas companheiras professoras lá do Paraná, que é vizinho ao sul aqui de São Paulo.

A passeata é feminina, bem feminina, muito feminina. E eloquentemente silenciosa.

A exuberância do protesto parece golpeada pela truculência bárbara do pequeno déspota jr. paranaense, sobrinho-neto político do tucano-que-não-se-ousa-mencionar-o-nome, o sinistro senador José Serra., atual governador perpétuo da mídia PIG-USA (Partido da Imprensa Golpista, um partido estadunidense em atividade no BraZil).

Os professores fazem uma linda e pacífica passeata, repleta de famílias, clima ameno, descontração, céu azul e sol de outono. Mas há na atmosfera um desconsolo coletivo que ninguém ousa nominar e muito menos a Rede Globo tem a intenção de televisionar. O sangue que jorrou ontem no Paraná é o nome do, amenizemos, desconforto.

O PSDB sabe o que faz. Bombas de efeito moral exercem um efeito fulminante sobre a moral da tropa que não é de choque. @s #JornalistasLivres, primos dos #ProfessoresLivres, também estamos meio desnorteados, até porque estamos aqui para transmitir notícias daquelas que nunca aprendemos a ler nos jornais – portanto, não sabemos escrevê-las.

(Ninguém é totalmente livre, ainda mais num país que ainda não acertou todas as contas consigo mesmo, como é o Brasil.)

Guilherme, um solitário professor negro de Itaquaquecetuba, passeia enrolado na bandeira verde e amarela do nosso país, que pelo menos hoje não está monopolizada pelo #NãoVaiTerCopa, digo, pelo #VemPraRua dos reacionários gasolinados pelo PIG.

O professor, que dá aulas em cinco escolas diferentes, clama por coisas bem mais simples que os paneleiros de Higienópolis e do Morumbi: tempo remunerado para corrigir provas, papel higiênico nos banheiros da escola, fim da duzentena (tal como se fossem estrelas da Rede Globo, professoras de Alckmim têm de ficar na geladeira por 200 dias quando expiram os contratos; seus salários jamais são depositados em contas de paraíso fiscal do HSBC).

Está todo mundo um pouco confuso, a moral meio baixa, meio alta. Baixa por causa de Beto Richa. Alta porque é uma mobilização de alta adesão, feito raro em anos tucanos.

A decisão de continuar a greve é visualmente unânime (Alckmim nega: não existe greve de professores em SP). A grande polêmica da assembleia no vão livre se desloca para a decisão sobre se a passeata irá para a República ou deslizará para “atrapalhar” a saída dos paulistanos “de bem” para o feriado do Dia do Trabalho, pela Marginal Tietê.

A opção República vence com margem folgada, bem maior que a obtida ano passado pela petista Dilma Rousseff contra o tucano Aécio Neves. A minoria que sonhava com a Marginal não se conforma com a, digamos, derrota: faz panelaço, tenta impedir o caminhão de som de rumar para o centro da Cidade, tenta impor sua vontade no grito. Esses fazem vezes de aecistas de ocasião, mostrando que, mesmo numa passeata à esquerda à qual “coxinhas” e “reaças” não têm a menor intenção de comparecer, sempre há gente braZileira disposta a rejeitar a democracia e os rituais democráticos.

O autoritarismo soergue nas sombras da megalópole feito espigão no “skyline” (como diriam os machos escrotos do Manhattam Connection). Somos uma democracia-bebê, ínfimos 27 anos consecutivos de voto direto para presidenta. A especulação imobiliária é prima-irmã da especulação antidemocrática. O valor da moeda impeachment (impeacnhment de Dilma, não impeachment de Beto ou muito menos de Geraldo) caiu, mas ainda está nas alturas. É grave a criZe.

Estamos todos meio confusos.

As professoras que queriam marchar para a República saem vitoriosas da peleja geográfica e, de quebra, fazem prevalecer a proposta aprovada em assembleia anterior, de carregar 10 toneladas de sal de cozinha auto-arrecadado para espalhar ao redor do prédio da Secretaria Estadual da (falta de) Educação.

Ninguém entende direito a simbologia cloreto-de-sódio. Por cima das lágrimas paranaenses de ontem, fazem piada sobre a metáfora. Sal para derreter a lesma que ocupa o cargo de secretário estadual de (des)educação? Para salgar o chuchu aguado que se agarrou à cadeira de governador aparentemente desde quando os bandeirantes começaram a dizimar os índios paulistas? Sal grosso para tirar a urucubaca que despencou sobre os céus secos (ou melhor, chuvosos) de São Paulo?

O que, afinal?

Ninguém consegue explicar direito. Estamos meio confuso. Professoras começam a despejar punhados de sal junto às grades da secretaria, sob o olhar armado e ofensivo da feroz tropa de choque da Polícia Militar alckminiana. Bebel Noronha, a presidenta do sindicato dos professores, grita do alto-falante a contra-ordem: não é para tacar sal no prédio, e sim para empilhar os pacotes fechados em frente à porta trancadíssima da fortaleza.

A esta altura grande parte do sal já está derramado. Há nuvens brancas pelo ar – hoje as nuvens não são de gás lacrimogêneo, até porque o supostamente insosso Alckmin é qualquer coisa, menos bobo. Abertos ou fechados, pacotes são atirados inteiros para dentro das grades da prisão. Alguém profere uma frase que nunca na vida imaginei que ia ouvir: “Olha, está voando um monte de sal!”.

O sal voa e ninguém decifra: o sal, por que o sal? Bem longe desta praça republicana de paz, possivelmente no Palácio dos Bandeirantes, o deus de sal que nos governa há décadas acompanha tudo, distante e sorrateiro, armado até os dentes pelo poder desmobilizador que tem sido o segredo de sua perpetuação no cargo de governador do estado mais… próspero.

Enquanto o homem-deus de sal trabalha concentrado em seu palácio, as mulheres de carne e osso passeiam lampeiras pelas ruas de São Paulo. Na vida real, ele e elas jamais se encontram.

(Milton Nascimento compôs solitariamente o canto de trabalho/de escravos “Canção do Sal”, que Elis Regina lançou em 1966. As versões acima são posteriores.)

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