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THE KIDS ARE ALRIGHT

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“Shit happens”, disse Roger Daltrey ao descobrir que tinha de cantar The Kids are Alright, e que Pete Townshend tinha trocado a ordem das músicas.”Deve ser por isso que dizem que a gente briga”, afirmou o vocalista Daltrey. “Mas a gente briga mesmo”, respondeu o guitarrista.

Com o espirito irônico intacto, Daltrey destilava sarcamo. “Festivais! Que bacana! Moda e maconha”, disse também, mas o público não se incomodou com o sarro – sabia que ali estava presente um dos maiores de todos os tempos, e a massa sonora que se formava acima da lama era um presente da natureza do rock.

A turnê The Who Hits 50! iniciou em 2014. Era “o começo de um longo adeus”, segundo disse Daltrey na época. “Haverá uma finalidade para isso”, disse o cantor. “Vamos parar de excursionar, tenho certeza, antes que paremos de tocar como músicos em bandas. Mas, como disse Eric Clapton, trata-se do apelo da estrada, essa incrível energia que traz ao corpo…”. Antes que terminasse, Townshend completou: “As putas, a heroína, a cocaína…”.

Dois dias após o baixista John Entwistle ter sido encontrado morto no quarto 658 no Hard Rock Hotel de Las Vegas, em 2002, aos 57 anos, o grupo britânico The Who teve que decidir se continuaria sem ele ou se deixaria a História se encarregar de seu legado. Resolveram seguir em frente apenas com Pete Townshend (guitarra) e Roger Daltrey (voz) da formação original.

“Essa vai ser a maior das turnês fora de moda”, disse Daltrey na ocasião. No ano passado, após dois anos longe dos palcos, voltaram para celebrar os 50 anos de carreira. Eles tinham enfrentado vários baques nos anos recentes, além da morte de Entwistle. Um dos piores: em 2003, Townshend foi acusado de lidar com pornografia infantil. Mas vê-los ali fazendo os mesmos gestos que encantaram discípulos tã diferentes quanto Eddie Vedder, Joan Jett e Questlove, confesso, foi emocionante.

Hinos como My Generation, Baba O`Riley e The Seeker (no qual Daltrey dialoga com Beatles, Dylan e Timothy Leary) os tornaram um dos atos mais impressionantes do rock ainda em atividade – além dos Stones (de quem chegaram a ser acusados de serem uma versão pobre, acusação à qual responderam com Substitute), outro dos últimos grandes em ação.

The Who trouxe novos patamares de ambição artística, profundidade lírica e intensidade musical para o rock.

Sem John Entwistle (baixo) e Keith Moon (bateria), parecia que não era possível seguir adiante. Eles engajaram Pino Palladino (que tocara com Eric Clapton e D`Angelo, entre outros) na formacao. Na bateria, o filho de Ringo, Zak Starkey (com o cabelo tão tingido que fiquei com medo de escrever que era ele mesmo). O irmao de Pete, Simon Townshend, toca violão e guitarra base. Loren Gold toca teclados, percussão e banjo, assim como Frank Simes, John Corey toca piano e gaita.

Essa tarde, sob chuva fina, eles abriram o show com I Can’t Explain, que parece um grito primal do rock`n`roll. Foi originalmente um single de álbum nenhum, lançado em 1964, a música que os lançou na carreira musical. Na epoca, Townshend adorava os Kinks, e até mesmo admitiu que copiava descaradamente os ídolos, inspirado na velocidade de You Really Got Me. Ele tinha uns 18 anos na época, e a gravação de estúdio incluiu um outro guitarrista que faria história depois, Jimmy Page, do Led Zeppelin.

A sequencia do show trouxe canções simbólicas importantes, como The Seeker, também de álbum nenhum, que foi lancada como single em 1970. Foi o primeiro single da banda após o sucesso da ópera-rock Tommy, de 1969.

O público cantou de se acabar quando veio Who Are You. Do disco homônimo de 1978, “na verdade, é uma oração”, disse Townshend. “Aquele tipo de coisa de ‘onde Deus está, quem é, onde esteve'”. Ele estava desesperançado com os rumos que o rock tinha tomado no final dos anos 1970. O guitarrtista se meteu em uma bebedeira com dois integrantes dos Sex Pistols num clube chamado Speakeasy, e foi desse incidente que nasceu a ideia da canção.

The Kids are Alright, uma celebração da cultura mod, do disco My Generation, de 1965, veio a seguir. Um manifesto de atitudes desafiadoras e elogio do tribalismo jovem.

Tudo desceu em cascata. Bargain, que era um dos momentos mais importantes do disco Who`s Next, de 1971. A canção, no original, surgiu de um presente do guitarrista Joe Walsh, do trio de hard rock James Gang (Townshend tocou um violao Gretsch na faixa, que lhe fora presenteado por Walsh). Fala da fé do guitarrista do Who no sufismo e em elevação espiritual.

Depois, Pinball Wizard, icone da ópera rock Tommy. O critico ingles Nik Cohn ponderou que achara a ópera um pouco sombria. “Se a gente colocasse pinball nela, voce escreveria uma crítica decente?”, perguntou Townshend.

A idade pesa para todo mundo. Quando fez My Generation, Townshend vociferava que preferia morrer a ficar velho. Hoje, careca e circunspecto, renova a alegria de tocar sua guitarra como somente uns dois ou três conseguiram fazer. Daltrey, que terminou o show sem camisa, mostrando orgulhoso que malha, conserva a potência da voz, e os novos músicos que entraram deram vitalidade e recuperaram o peso do Who. Talvez seja a maior turnê que nunca veio ao Brasil ainda em movimento pelo mundo. Eles impediram fotos e permitiram VIPs no fosso dos fotógrafos. A celebridade os cerca, mas que não seja pelo dinheiro: a experiência vale a pena.

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