O senador Eduardo Suplicy me ligou ontem à noite.
“Eu estava fora do País, só li sua reportagem agora. Muito boa. Eu queria saber se você tem o telefone dela”.
“Na verdade, senador, foi ela quem me ligou. Não tenho o telefone dela. Foi tudo agendado pela produtora que a está trazendo para cantar aqui. Ela só me disse que quer muito ver o sr. e me pediu para colocá-lo em contato com seus agentes. Mas eu não tinha seu telefone naquele momento”.
“E você tem como me dar o contato dessa produtora?”.
“É claro, senador! Só tenho que procurar na minha caixa de mensagem, pq estou em casa e não tenho agenda aqui”. Ainda uso agendinha de papel.
O senador estava no gabinete, o celular estava ficando sem bateria, ele me disse para ligar de volta em uma hora para lhe dar o número. Mas, como estava no fixo, me perguntou:
“Você esteve lá no dia do show do Tuca? Gostaria de saber os fatos daqueles dias como eles realmente aconteceram?”.
“Eu adoraria, senador!”.
Então ele contou. Disse que foi procurado pelos promotores dos shows dela no começo dos anos 1980 (ele se confunde sobre a data, achava que foi 1983, mas eu lhe disse que, pelos recortes de jornal, tudo se passou em 1981).
Suplicy tinha vivido nos Estados Unidos, estudou em Stanford, morou na Califórnia, assistira a shows de Joan Baez em San Jose, perto de Palo Alto, nos anos 1970. Era um grande fã.
Em 1981 ele era deputado estadual.

“Me lembro bem dos fatos que aconteceram. Ela tinha pedido aos promotores para conhecer o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, o Lula. Eu a acompanharia. Levei-a ao sindicato, ela conversou longamente com Lula, mais de duas horas, e eu fui o intérprete. De noite eu a levei ao Tuca. Você sabe, eu lutei boxe dos 15 aos 21 anos. Meu treinador tinha sido o Lúcio Inácio da Cruz. Estava lotado o Tuca, era um espetáculo para estudantes, acho que era gratuito. Logo na entrada, encontrei o Lúcio, que me disse: “Isso aí infelizmente não vai poder acontecer, não foram apresentadas as músicas para a censura da Polícia Federal, dizem que não receberam a lista e portanto não será permitido”.
Era assim na ditadura, com lista ou sem lista.
Entramos e nos misturamos aos estudantes na plateia. E eis que, de repente, uma voz feminina começou a cantar “caminhando e cantando e seguindo a canção”. Era Para não Dizer que Não Falei das Flores, do Geraldo Vandré. Ela conhecia a letra em português. Era uma voz linda. Todos começaram a cantar com ela. Ela não tinha nem um violão, cantava a capela. Conhecia muito bem a canção. Depois, ainda cantou Blowin’ in the Wind. Foram essas as duas músicas que ela cantou”.

Eu achei a história linda. Perguntei a Suplicy: “Senador, o sr. sabe que até hoje todo mundo espalha por aí que o sr. namorou a Joan Baez, não sabe?”. Suplicy enrolou.

“Eu tinha uma palestra no dia seguinte. Na parte da tarde, em Brasília. Mas eu disse a ela: gostaria de acompanhar você também no Rio de Janeiro. Era para onde ela iria em seguida. Eu fui e a encontrei em Copacabana. Passei no Hotel Excelsior, onde ela estava hospedada. Não tive qualquer relação com ela. Nós almoçamos e conversamos, ela me deu um beijo e foi embora. Ela convidou o presidente Lula para visitar a Califórnia e participar de uma palestra em um instituto que criara, o Humanitas. O Lula então foi e eu o acompanhei. Fomos a sindicatos de Washington, falamos com sindicalistas e senadores. Fomos até o Canadá, a Nova York. Depois, fomos fazer a palestra na Califórnia. Durou dois dias o seminário”.

Quantos anos o sr. tem agora, senador?

“72, vou fazer 73 anos. Temos mais ou menos a mesma idade, eu e ela”.

O sr. vai tentar cantar Blowin’ in the Wind com Joan Baez, senador?

“Só se ela me convidar, e se não for atrapalhar o show. Se ela me convidar, terei o maior prazer. Mas vou ligar para os agentes, quero apresentar a ela meus filhos, o Supla e o João. Quem sabe eles até não tocam com ela?”

Joan Baez toca no Teatro Bradesco, em São Paulo, no dia 23 de março. Será seu primeiro show no Brasil desde que o governo do general João Baptista Figueiredo a impediu de cantar aqui.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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