Daqui a pouco parto (feliz) de Macapá, e é hora de ruminar mais um pouco – não é de propósito, mas cada vez mais tenho me tornado adepto do jornalismo ruminativo (em detrimento do jornalismo vomitório e outras variáveis mais escatológicas).

Enquanto isso, sigo uma sugestão do professor Pena Schmidt e transfiro cá para os domínios do FAROFAFÁ a riquíssima discussão que floressceu via Facebook, a partir do texto “Pororoca“. Está na cara que o bom debate (após um ano “rico”  em sensacionalismo, afobação e linchamentos simbólicos em diversos níveis) está apenas começando. Convido a todos para que prossigamos a conversa, quem sabe aqui também pela janela de comentários do FFF.

Abaixo, em ordem cronológica, na íntegra e sem edição, os autores das argumentações e seus comentários.

 

Bia Abramo: é comigo, né que cê tá falando? tá

Pablo Ortellado: Pedro, a matéria chama corretamente a atenção para a invisibilidade do que está distante de Rio e São Paulo e defende com justiça o financiamento público à cultura. No entanto a construção discursiva que você utiliza opondo FdE e neoliberalismo cultural é absolutamente falsa e parcial. A avalanche crítica ao FdE pós-Roda Viva não foi iniciada pela indústria cultural, mas pela esquerda.

Arthur Dantas: é, o Pablo acima disse tudo. A crítica ao FdE não começou nem terminou no establishment midiático.

Fernando Morgato:  Carlos Rogerio Duarte Barreiros

Makely Ka: Pedro, eu conheço o Otto, a Heluana e o pessoal do coletivo que realiza o Quebramar. Conheço também várias das bandas que estão na programação do festival. Estive em Macapá e sou admirador do trabalho deles. A avaliação que você faz sobre as dificuldades de visibilidade, as distâncias, as conexões, tudo isso é incontestável e dá uma dimensão ainda mais heróica ao trabalho que eles desenvolvem há tantos anos. Mas acho que sua premissa é equivocada.

A crítica da grande mídia neoliberal é diferente em conteúdo, forma e teor à crítica que existe dentro do movimento da música independente ao modelo propalado pelo Fora do Eixo. E desqualificar ou igualar essa crítica de quem vive de música autoral num circuito paralelo me parece um argumento raso e parcial para um jornalista que busca ouvir sempre o outro lado (ou os outros lados).

Jean Boechat: é longo? tem figurinha?

Manoel Neto: Pedro, da mesma forma que o Makely Ka, entendo a questão de forma mais complexa. Acredito que seu texto, esta correto quando tenta revelar os feitos e desafios das cenas perifericas, ainda que ignore que existem outras em todo o Brasil, correndo por fora, bem fora do eixo SP-RJ, mas também, fora do FDE… diante de tantos foras, em mil textos e debates sobre o caso, conclamo a reflexão daquilo que eu disse a Ivana Bentes, que não se pode chamar de revolução, uma variação da mesma coisa. O modelo FDE não elimina o Mais Valia para os musicos, apenas distribui recursos entre os produtores, que agindo de forma coletiva, acumulam capital simbólico, gerando uma economia de trocas simbólicas (Bourdieu), mas esta realidade encobre, que patrões existem e ganham bem. Outro fator que bato na tecla a muito tempo, é que não concordo com quem malha o FDE de forma leviana, minha critica, não elimina a minha simpatia pelo que existe de bom, mas não posso colocar um véu sobre o real, de que na pratica das casas e festivais, a conversa distributiva, nas ruas a ideologia, mas nas salas de reuniões, o tema é sim o capital. E isso difere base de lideres e de objetivos concretos centrais de acumulação diante de um suposto discurso social, que exposto com mascaras impedem que seja visto que toda a força acumulada, é convertida em poder e poder tem carater imutável e corrompe qualquer objetivo ideologico. quando me refiro a isso, cito nominalmente o papel de lideres em espaços decisórios, que registrados em atas, denotam, que existe mais interesse em liberar mais verbas para palcos e festivais, do que se defender uma politica pública de estado para a cultura. Cito aqui especificamente As atas do CSM, RMB e CNPC. Nas Casas, nas ruas a fala social, nas mesas com governo a fala do capital. Isso revela as posições de fala (Lacan), onde nas casas discurso universitario, nas ruas histeria, e junto ao governo, discurso mestre, que é o novo, portanto o capital. Sigo reconhecendo o que existe de bom no FDE, sem ilusões, como diz MATTELART, Armand e NEVEU, Érik (2004) ao criticar Hall sobre a possível ilusão ao tratar de Mods e Rockers. “Seriam efetivamente processos de resistencia? Ou seriam apenas pequenas rebeldias que o capital permite que ocorram no tempo vago dos estudos e trabalho?” seria tudo isso um processo de revolução, ou a ilusão apaixonada dos pesquisadores, que romanticos, acham revolução, onde acreditam, ou se identificam? Como sabe Pedro, temos origem na cena indie dos anos 90… vejo como tudo isso se transformou, de uma busca de autonomia, por uma busca por incorporação… revolucionar difere de legitimar ou desejar ser estratificado socialmente… Existe portanto muito a ser dito ainda, mas dito na posição neutra. Preciso ler Rodrigo, antes de me arriscar a dizer mais… Por hora é isso. Abraço

Fernando Chuí: Concordo com comentarios anteriores. Eh um equivoco acreditar e propagar a ideia de que a critica ao FdE eh pura perseguicao neo-liberal. Essa organizacao enfraquece a musica independente e ate mesmo a chamada esquerda brasileira por utilizar metodos que sobrepoem ideologia a arte: isso pode adontecer, mas nao deveria ser uma regra estabelecida de maneira tao peremptoria (e autoritaria). Sou tb musico independente e sei o q eh tocar de graca sem nenhum apoio ou divulgacao (vc conhece parte disso ate, Pedro), mas a sistematizacao do nao-cache eh uma forma no minimo insensivel de se pensar o projeto musical no Brasil tendo a luta politica em detrimento da luta artistica e mais um passo torto para a desprofissionalizacao de musicos populares, dessa area tao castigada em nossos tempos atuais. Acredito que sua defesa eh honesta, mas seria interessante observar os outros aspectos e olhares que permeiam essa polemica.

Eva Lyra: É longo, denso e não tem figurinha…me perdi um pouco.

José Mauro Moreira: a geometria explica: eixos paralelos não se cruzam, nunca. E num país imenso, cheio de mazelas comunicacinais e interesses capitalistas escusos – com vários eixos ideológicos incongruentes e nebulosos – as coisas são complexas ao quadrado…Me satisfaz saber que o mundo cultural no Brasil exibe uma polarização salutar em termos dialéticos. A roda da história é por vezes quadrada, e é preciso lutar contra os obstáculos. Admiro os abnegados paladinos da cultura independente, que simplesmente não existia há poucos anos, e isso já é um alento e tanto. Sempre admirei o seu trabalho PAS, desde os tempos de FSP, em particular pelo viés crítico-musical. Apesar das críticas acima, achei o texto bastante ilustrativo de uma realidade densa e pouco difundida pela midiazona mainstream, o que com certeza contribui para uma discussão civilizada e sempre positiva da realidade socio-cultural desse país que tanto amamos, mas que ainda tem muito que evoluir como nação plena. Um gde abç a todos!

Irajá Menezes: “De todos os assuntos afins, o que Otto demora mais a abordar é a música.”

E, quando o faz é para concluir que:

“Nossa força está na militância”.

O artigo inteiro do P.A.S. é dedicado a concordar com Otto: tudo gira em torno das iniciativas que fazem a “cena” existir. O que está ocorrendo “na cena” não vem ao caso. É aí que um monte de artistas discorda dos FdoE. E é aí que os FdoE não deixam a discussão chegar. O saco-de-gatos da crítica ao “neo-liberalismo” é só uma das ferramentas para travar a polêmica.

Um texto quilométrico para dizer de novo o mesmo, do mesmo jeito outra vez, essa é a minha opinião.

Pedro Alexandre Sanches: Obeigado, pessoal, pelos comentários generosos. Estou ouvindo atentamente as opiniões de vocês, e refletindo sobre elas.

Vejo que a referência ao neoliberalismo – e, vou além, a conservadorismo e reacionarismo – incomoda bastante, e fico contente com isso. O fato de a mídia e parte da esquerda ter comportamento neoliberal/conservador/reaça no que diz respeito à cultura não passa necessariamente pelo FdoE – se vocês acharem que tô falando isso em contraponto ao FdoE ou para defendê-lo, estão pegando pista errada…

Nesse aspecto, tem gente no MPL, por exemplo, que crítica o FdoE pela esquerda, consjderando o movimento neoliberal, mercadista, coisas assim. Me perdoe, Pablo Ortellado, mas até hoje vi quase ninguém abordando o afifair FdoE pela esquerda.

Outro aspecto que me deixa doido, se for pra falar de esquerda: o fogo amigo. Tem gente, inclusive entendo do FdoE, que não fica devendo nada aos métodos Serra-Aécio de COMBATER aliados.

Pedro Alexandre Sanches:  Não é que eu concorde com o Otto em tudo, Irajá Menezes, mas concordar com um monte de músicos que vive no século XXI com melancolia das ruínas do sistema Globo-Hollywood é algo que tá fora de cogitação pra mim.

PAS:  Neoliberalismo cultural, por sinal, costuma resultar em música pouco inspirada – mas é apenas uma opinião particular minha.

Luciano Barreto de Matos: eu comecei a ler, falta só um trecho e tô adorando

PAS:  Bia Abramo, com você???!??!? Por quê??!???

PAS:  O cara que virou porta-voz das insatisfações dos músicos era VJ da MTV – pra vocês terem uma ideia do neoliberalismo (falido) ao qual me refiro.

Irajá Menezes: Ô, Pedro, não foi só o China que falou! Uma montanha de gente demonstrou estar insatisfeita, não?

Pablo Castro: Quer coisa mais neoliberal do que pregar a não remuneração de artistas ??? Com dinheiro público ?

José Flávio Júnior: Apesar de tutelado e meio maniqueísta, o relato explica legal como é difícil produzir um festival em Macapá. Estive em um Quebramar e confirmei que toda essa movimentação nos mostrou um país que não estávamos preparados para ver. Só lamento que muitas vezes a militância contamine tanto a cultura a ponto de inviabiliza-la. A Mini Box sumiu, está paquerando a irrelevância. Uma banda com inúmeras possibilidades que deixou seu momento passar. Poderia ter ido em frente sem a JJ, a vocalista dissidente, mas também perdeu o Sady, um membro importante que se cansou da ladainha do FdE e também não via mais sentido em trabalhar um dia do ano exclusivamente para os metaleiros, essa raça mimada que não se mistura (existe um dia do Quebramar só para o indie rock? Só para a guitarrada? Só para a surf music? Só para a MPB mais careta? Por que o metal tem essa moral?). E a separação do casal principal da banda também não deve ter contribuído para nada. O Miranda nem conta mais com a produção desse disco. Isso precisava constar no texto pois, acima de tudo, o Quebramar é um festival de música. A Mini Box faz(ia) música. Rola um superbode quando músicos, fãs e jornalistas da área se tocam que todas essas tretas relegam a música a um injusto segundo plano – seu texto e a repercussão dele confirmam isso, PAS. Mas parabéns pelo empenho em tentar entender o que se passa in loco, com todos os vícios da sua visão e tal.

Luciano Barreto de Matos:  O que mais me incomoda em toda discussão do FDE é não se quererem ver os lados positivos dele. Existem, especialmente, em cidades menores.

José Flávio Júnior: Sim, Luciano. Mas para o lado positivo de Macapá aparecer, a Mini Box teve de morrer. É muita dedicação à causa e pouca dedicação à música. Precisamos de um circuito melhor, mas sem destruir os artistas com algo de especial a dizer. Veja o caso da Macaco Bong, que é o mais triste do ano, mas que eu duvido que o PAS vá investigar.

Pablo Castro: Ainda que haja os lados positivos do Fora-do-Eixo, ainda que se louve a realização de um festival em Macapá ( e dezenas de outras iniciativas pelo país ) , a característica extremamente fechada , hierarquizada , fundamentalista e francamente refratária a qualquer tipo de crítica, porque fundada não só num discurso messiânico e culturalmente vazio , mas sobretudo no hackeamento de editais e comissões avaliadoras, portanto fundado no tráfico de influências, fica impossível antever qualquer possibilidade de melhoramento democrático em todo o processo.

José Flávio Júnior:  Arrisco dizer que todas as bandas boas que conheci em festivais FdE estão em frangalhos, deram tilt, tretaram feio. Tem algo muito errado aí.

Maurício Alves: NINGUÉM, mesmo com pessoas como o Pablo Castro, admitindo que a “Fora do Eixo” não remunera o artista e sabendo-se que Pablo Capilé defende isso abertamente, se pergunta para onde vai o dinheiro captado pelo coletivo, que atinge a casa do milhão facilmente a cada edital. Isso é lindo.

Luciano Barreto de Matos: Sem dúvida, Zé Flavio. Meu ponto é que ao invés de um Fla Flu, deveríamos tentar entender melhor e aproveitar o que cada experiência traz de positivo. E não tratar como algo 100% danoso. É um grande vacilo das pessoas envolvidas com o mercado só demonizar o FDE e não entender a contriobuição

Luciano Barreto de Matos: Nevilton tá em frangalhos? curiosidade mesmo

José Flávio Júnior: Essa eu não conheci em festival do FdE. Na real, a banda só foi para o primeiro festival depois que fizemos um barulho na comuna da BIZZ no Orkut. O Nevilton era ouvinte do meu podcast. Eles estão com problemas para fixar um baterista, mas não estão em frangalhos, não.

José Flávio Júnior: E eu sempre fui simpático às ações do FdE. Mas é inegável que eles se afastaram da música no ano passado. E a música também tinha se afastado deles – até que o Capilé foi dizer no Roda Viva que 30 mil músicos independentes sobrevivem graças ao FdE. Aí o peixe morreu pela boca. Vários artistas que nem se lembravam mais do FdE acordaram furiosos. E o que eles fizeram e seguem fazendo com a Macaco Bong é simplesmente imperdoável. A única coisa verdadeiramente genial fomentada por todo esse processo até aqui foi solapada sem dó nem piedade.

Luciano Barreto de Matos: A Nevilton fazia parte do FDE de Santa Maria e circulou por causa deles.

Luciano Barreto de Matos: Eu concordo, eles vacilaram demais tb, o que me incomoda, repito, é não aproveitar as lições positivas. Em muitas cidades, graças ao FDE se criou um circuito, com shows frequentes, bandas de fora tocando. Algo que quase não existia antes nesses lugares

José Flávio Júnior: Não faz sentido. Eles são de Umuarama, em outro estado. Nunca integraram coletivo algum. O próprio Capilé já declarou que só reparou no Nevilton quando a banda foi citada por mim na comuna da BIZZ. E, nesse momento, o trio já tinha circulado muito a bordo de Átila, o Uno. Sem auxílio do FdE, seguem circulando (agora com Ayrton, o Siena).

Luciano Barreto de Matos:  desculpa, santa maria eu viajei.

Luciano Barreto de Matos:  sim, mas eles circularam o país pelo FDE. só isso que estou comentando. Tocaram no Nordeste graças aos coletivos

José Flávio Júnior: Uma vez, na turnê com o Mini Box. É errado associar o Nevilton dessa forma ao FdE. Pode confirmar com a banda.

Luciano Barreto de Matos:  A banda circulou através deles, ou não? Pelo que sei sim. A única vez que tocou nas capitais nordestinas

José Flávio Júnior: Nevilton Alencar, tá com tempo para explicar?

Júlia Eléguida: A banda de Santa Maria que tinha relação com o Coletivo Macondo, era a Rinoceronte. Pelo que sei o coletivo não existe mais, e a banda ainda persiste fora do FDE. Se for fazer uma pesquisa poucos coletivos de dois anos atrás ainda persistem, e tem os mesmos membros.

Maurício Alves: Eu continuo pasmado, confesso: os caras arrecadam MILHÕES a cada edital, não prestam contas, ninguém vê esse dinheiro, muito menos músico, TODO MUNDO SABE DISSO e ninguém se pergunta onde é que esse dinheiro foi parar. E se trata de dinheiro público. As pessoas sequer se perguntam que raio de direito o Capilé tem a ele. Acham natural que seja assim devido ao fato dele ser próximo ao José Dirceu. Não é pelos 20 mil não, mas…

Felipe Altenfelder:  Pablo Ortellado, as criticas começaram da esquerda? Como um depoimento patrimonialista, nos chamando de seita, trabalho escravo, que reclama falta de pagamento pra circulação de um filme, que nos acusa de “nao ler” e “nao assistir filmes” pode ser uma critica a esquerda? Um depoimento repleto de preconceitos de classe, cheio de distorções quanto a uma vida coletiva é a critica a esquerda? Se essa é a esquerda qual foi a critica a direita?

Felipe Altenfelder: José Flávio Júnior, diz ai, qual o mal proporcionamos pra musica brasileira? Explica melhor isso ai. Qual o problema de organizar festivais pelo brasil? De ajudar as bandas a circularem? De pensar e viabilizar turnês? De lançar um portal pra facilitar o trabalho das bandas? De estimular o surgimento de coletivos de musica? O que a musica perde com isso? Vocês falam como se fossemos o estado ou a unica rede/entidade da musica brasileira e que tivessemos que resolver todos os problemas dela. Não existem mais centenas de produtores, coletivos, empresas, produtoras de musica no brasil? Quem tá lançando as bandas bombadonas então? quem ta fazendo direitinho sem erro? quem ta certão nessa historia de trabalhar pela musica independente? quem ta lançando a banda do acre? do amapa? de sergipe? quem ta tentando fazer isso pelo menos? qual o mal de tentar fazer? de criar alternativas? é melhor não existir o FDE? é melhor sairmos da musica e pronto? o que vai ajudar? Na hora que o fde sair tudo se resolve? centenas de bandas vão bombar? os estados fde vão conseguir até que enfim consolidar seus cenarios? os festivais que tão fora do fde vão ficar ainda maiores? a funarte vai investir mais na musica? se o fde acaba soluciona-se o problema de remuneração, de circulação, distribuicnao da musica brasileira? Acho uma grande de uma conversa fiada esse papo de FDE mal da musica brasileira. E se somos o mal quem é o bem? o que ta dando certo? o que é só acerto? o que ta funcionando que é uma beleza? Digam ai? Quais as iniciativas tão bombando? Lab Fantasma? A Cosntrutora? Do Sol? Criolo? Gaby? Conexão? pergunta pra esse povo ai o que acham de nós. Quem mais ta buscando alternativas nacionais? quem ta pensando na dimensão continental desse pais? quem se habilitou a enfrentar o desafio de conectar essa imensidão toda? Tão nos comparando com outras iniciativas ou com a régua de perfeição que vc estabelece pra nós? Na boa, muita bunda na cadeira e pouca atitude, isso sim.

Alex Antunes: acho que o que a crítica “pela esquerda“ não entende é que não se trata de produção material, que gere mais valia, mas de uma disputa narrativa, simbólica, que se dá já, dentro do funcionamento capitalista da sociedade. e nesse sentido acho que cabe sim uma drástica revisão da questão dos cachês (pra mim TEM que ter algum cachê em moeda real, exatamente como componente desse reconhecimento simbólico). mas a pancadaria contra o fde tem se dado da maneira mais moralista e histérica possível, vide esse idiota que acabou de postar sobre… zé dirceu e MILHÕES?? milhões rola no rock in rio, no lollapaloosa. assim fica difiço

Alex Antunes: bonzão o texto, btw, pedro. essa pouca distância entre a juventude e o poder público foi o que me impressionou anos atrás, na experiência acreana, quando comecei a acompanhar o fde. legal ver que o hackeamento continua no amapá

José Flávio Júnior:  Felipe, o FdE foi fundamental em tudo isso que você listou. Só que tudo isso é passado. E muito do que foi empreendido por vocês já ruiu. Festivais acabaram, outros se afastaram, bandas próximas não conseguiram lançar sequer um disco. Vocês mudaram o foco no ano passado e, neste ano, ficaram ainda mais distantes da música com a tal Mídia Ninja sob os holofotes. É natural que, para muitos, a imagem atual de vocês seja de aproveitadores. Eu acho apenas que foi uma escolha infeliz diante de um impasse (como o que se deu quando o Ynaiã e o Kayapy começaram a se estranhar e vocês pressionaram a banda para que ela acabasse – mas essa é outra história). O momento da produção cultural brasileira é bastante delicado e eu lamento que o FdE não atue mais como atuava até outro dia.

Felipe Altenfelder:  Fabrício Nobre Anderson Foca Talles Lopes Ana Garcia Jurunense Apaixonada Otto RamosPena Schmidt Cacá Machado Israel Do Vale Maurilio Kuru Lima Atílio Alencar Priscilla Brasil Marcel Arêde Marcelo Damaso Bruno Nogueira o que acham de tudo isso?

Alex Antunes:  eu acho que é ao contrário, zé flávio. o natural é o pensamento musical ser politizado. porque trata-se no fundo da mesma coisa, como sabemos desde os anos 60 e 70. aberração é essa visão oitentista/ noventista de que pensar música, comportamento e política no mesmo balaio (onde já estão) seria oportunismo

José Flávio Júnior:  Alex, por que você não estava no show em que a Macaco Bong exibiu sua nova formação em SP, lá no Centro Cultural Rio Verde? Que eu me lembre, você gostava da banda tanto quanto eu. Você estava na cidade?

Alex Antunes: tipo, DE QUE ADIANTA ter música independente, se a indignação de que ela trata não achar modo de se traduzir em transformação política da sociedade?

PAS: Sem tempo pra me aprofundar agora, mas ouvindo tudo atentamente. José Flávio Júnior e outros cheios de diagnósticos sobre os problemas da cena independente topariam inverter um pouco o foco e fazer o mesmo tipo de diagnóstico a partir da indústria cultural PESADA (passando por Globo e megafestivais), como tentei precariamente fazer no texto?

José Flávio Júnior:  Respeito sua visão, Alex. Mas também dou valor em música (independente ou não) que não almeja transformar a sociedade.

Alex Antunes:  minha formacão predileta era a segunda, com o ynaiã e o gabriel, e me dá um certo nervoso em pensar na banda especialmente sem o ynaiã. e pra mim música é sempre sobre a possibilidade de se transformar, mesmo que seja de fora pra dentro

PAS: Há alguém que não esteja em frangalhos na atual indústria cultural brasileira PESADA? Quem, por exemplo? Jota Quest? Pedro Bial?

PAS:  Por que somos um país em pleno surto de desenvolvimento, com uma indústria cultural PESADA em frangalhos?

José Flávio Júnior: Você precisa sacar o novo baterista, Alex.

Alex Antunes: vou sacar

Irajá Menezes: Pedro, vc poderia falar mais sobre essa ideia de que a indústria cultural pesada do Brasil está em frangalhos?

Felipe Altenfelder:  José Flávio Júnior, nada disso é passado, os festivais continuam acontecendo, antes eram 40, agora são 130, estão nas pontas, em várias cidades, toda semana, essa semana tem Quebramar no Amapa, extremo norte do país e o Emicida toca a primeira vez da vida dele lá, Arnaldo Antunes tocou também e mais dezenas de bandas, semana que vem tem extremo sul, festival Macondo Circus em Santa Maria e muita gente tocará la tambem. Isso é um problema pro cenario? Trabalhar pela musica brasileira não é ficar tentando criar hypes, é entender que essa maratona é longa, nem sempre terá tanta visibilidade, mas pra reequilibrar centenas de anos de concentração no eixo leva muito tempo. Talvez as expectativas sejam sempre grandes demais quando o assunto é a gente, talvez tenhamos bombado cenarios locais com muita velocidade e todos esperam que surjam bandas fodas toda hora, mas a verdade é que a estrada é longa e nós não estamos nem um pouco dispostos a parar! E eu te pergunto zé, quem ta revelando novos artistas? como isso ta acontecendo? quem ta fazendo melhor? Para de nos comparar com a gente mesmo ou com o nosso passado e comece a nos comparar com outras redes/coletivos/ e mostre item a item onde estamos atrapalhando. O grande problema é que só a gente é uma rede nacional, com festivais, coletivos, turnes, casas coletivas e etc, os outros ou são so festival, ou só agencia de banda, ou só selo, ou só casa, ai a regua de perfeição de cada um é o que nos mede, chato isso né!

Grodisli Dinossauro: PeLexanSan, me explique por que o Lobão faz tanta questão de dizimar o Fora do Eixo, tendo feito musiquinha ridícula para o Pablo Capilé (“Eu não vou deixar”)?

PAS:  Maurício Alves, eu não vou te provar que as premissas das suas perguntas são falsas. Mas se a sua indignação é realmente verdadeira, peço que traga aqui pra discussão as planilhas de gasto de dinheiro público no, sei lá, Lollapalooza.

PAS: Quando a discussão toma ares de luta de extermínio, seja pela boca dos opositores (que se opõem em defesa de quem, exatamente?), seja pela boca do Felipe Altenfelder, eu fico com calafrios – mesmo estando em Macapá.

José Flávio Júnior: Exige-se muito do FdE. Concordo contigo, Felipe. Mas isso não é motivado apenas pela carência estrutural (que existe mesmo e é lamentável). É motivado muito pelo discurso triunfalista e anabolizado de vocês, que sempre critiquei. Tanto que eu disse acima que uma galera do alternativo já estava andando para o FdE. O assunto só pegou fogo de novo porque o Capilé veio com seu “30 mil músicos sobrevivem do FdE” no Roda Vida. Da minha parte, digo que não queria que vocês fizessem MAIS, mas cuidassem melhor do que já fizeram. Mas, sinceramente, não sei se vocês ainda têm interesse nesse universo.

Grodisli Dinossauro: Você não me respondeu sobre o Lobão, PeLexanSan…

PAS:  Peço que vocês percebam que quando o José Flávio Júnior se refere a uma ~tal Mídia Ninja~, o ponto de referência dele é de um jornalista que trabalha na Abril. É declaradamente antipanfletário, mas defende sub-repticiamente (não sei como escreve) o status quo Abril etc. Portanto, é de direita, reacionário, conservador, neoliberal, políticamente falando. E olhe, Zé, que culturalmente te acho um dos jornalistas musicais mais progressistas que eu conheço. Apenas para problematizar e espelhar contradições, que todos nós temos, inclusive o pseudo-indignado com os ~milhões~ (são R$ 400 mil, no Amapá, como tá dito no texto) ~roubados~ do seu rico dinheirinho narcisista para proporcionar pitadas de cultura aos ~índios~.

PAS: Não é que eu queira pegar no pé do Zé, mas ~a tal Mídia Ninja~ é de cair o cu da bunda, vindo de um jornalista.

Pablo Ortellado:  Pedro, reli o texto agora e continuo achando que você construiu uma oposição FdE versus críticos neoliberais que me parece falsa. Se você não conhece uma crítica de esquerda ao FdE, sugiro, para além do debate pós-Roda Viva, que você leia o livro “Movimentos em Marcha” (aqui: https://emmarcha.milharal.org/) onde se lê um longo debate realizado em 2011 sobre a experiência do FdE de uma perspectiva anticapitalista. O debate sobre o FdE está superviciado — um verdadeiro FlaXFlu da cultura. Em todo caso, tentando ser ponderado, acho que você faz um bom relato sobre impactos positivos da experiência (que já escutei em outros lugares, Brasil afora). Apesar disso, discordando do Felipe Altenfelder e sem entrar no mérito, acho que muitas das principais críticas pós-Roda Viva são também de uma perspectiva de esquerda, ressaltando que o grupo faz alavancagem de marca e controle de processos, inserindo dinâmicas verticais e pró-mercantis nos movimentos dentro e fora da cultura. Isso me parece de esquerda e nem um pouco neoliberal.

Grodisli Dinossauro: E o Lobão também é colunista da “Veja”, da mesma Abril. A “Bizz”, que faleceu, ressuscitou e faleceu de novo (e o Ruy Bicho de Goiaba me excluiu de uma comunidade do Orkut só porque perguntei as razões da segunda morte da revista), era uma espécie de braço musical da “Veja”. Sérgio Martins saiu da “Bizz” e foi direto para a “Veja” escrever um monte de merda. E entre André Forastieri e Diogo Mainardi não há diferença alguma. Portanto Lobão na Abril, na “Veja” em especial, está em casa. Totalmente Dentro do Eixo.

PAS: Irajá, liga na Globo pra ver. Liga no The Voice, por exemplo – até acho que o programa ~revela~ uns artistas fodas, mas aquilo é um arremedo de showbiz norte-americano decadente com o Lulu Santos fazendo papel de Barbosa (do TV Pirata). O dinheiro público que deve cai rali e vai parar na conta do dono gringo da marca não é questionado por nenhuma alma viva ~deste país~.

PAS: A sua pergunta já é uma resposta, Gnodissi (?).

PAS: Num é possível, o Zé não assistiu àquele Roda Viva. Eu levo susto com as ~análises~ ~políticas~ dele quanto ao divisor de águas que levou o FdoE à ruína final (levou?).

PAS:  Pablo Ortellado, fiquei pensando antes se não estamos falando de assuntos paralelos. Quero pontuar que me refiro, no texto, ao componente midiático – imagino (torço) que o ambiente acadêmicos e outros estejam muito mais avançados que o jornalismo na compreensão do FdoE e de outros fenômenos atuais do Brasil. Mas não tenho tudo alcance a eles, o meu observatório é o – raso, rasissimo – do jornalismo cultural (que em grande parte das vezes nem merece esse título) e do jornalismo em geral. Desse mirante, a crítica ao FdoE foi exclusivamente sensacionalista de direita (o que até livra os FdoE de alguns apuros no capítulo do intelecto), e é só a isso que estou me referindo, neste momento. Vou ler o livro que você indicou, com prazer, obrigado pelo ótimo diálogo!

PAS: Mas, pô, a parada gay de Macapá tá passando na minha janela e eu tô aqui discutindo com vocês!!!! Peraí que eu já volto! <3

PAS: Obs.: Alex Antunes!, obrigado pela expressão ~furo na matrix~, que me chegou via Bia Abramo e eu não consigo mais parar de usar! 3-)))

Felipe Altenfelder:  Pablo Ortellado, não discordo que existam criticas a esquerda, só que você disse que “a avalanche de criticas foi iniciada pela esquerda”, não, não foi, foi iniciada por um depoimento patrimonialista, liberal e conservador de uma cineasta que nos acusava de trabalho escravo, de seita, e de não ter pago 50 mil reais para a circulação de seu filme, depoimento inclusive que você compartilhou, assim como o fez com o depoimento da lais, chamando-o de “COISA MONSTRUOSA” sem sequer ter visitado uma unica casa fde na vida, se baseando em um depoimento de alguem que ficou 2 meses na casa e que NUNCA desenvolveu outros trabalhos coletivos que chancelassem aquela opinião. Você fala que não gosta desse fla x flu mas não perde uma oportunidade de provocá-lo.

Felipe Altenfelder:  José Flávio Júnior isso não é argumento jose Flavio, 99% dos produtores/organizadores/artistas/jornalistas da musica brasileira tem discurso triunfalista, você inclusive é uma das principais especimes desse discurso, e isso não justifica que só visualizem defeitos numa plataforma complexa como a nossa, não justifica linchamento, não justifica histeria, não justifica nada disso. E vc de fato não assistiu a entrevista no Roda Viva, o Capilé não disse 30 mil artistas no FDE e sim no cenario independente nacional, a partir de plataformas variadas. Nos continuamos tendo interesse na musica, continuamos fazendo festivais, turnes, shows, debates e etc, e duvido inclusive, que mesmo a gente tendo “mudado de foco”como vc diz, que tenha alguém fazendo mais, se tiver me aponta ai.

José Flávio Júnior:  PAS, agora estou percebendo que você é um dos responsáveis por incutir na cabeça dos cabeças do FdE que o tufão pós-Roda Viva foi motivado pela crítica que o Capilé fez ao PSDB. Peço para que você converse mais com músicos. Talvez você ande meio afastado dessa turma. E os relatos quilométricos dos dissidentes (que chocaram a mim e a muitos outros – então – simpatizantes do FdE) também não tinham nada de partidários, nem foram obra da velha mídia. Não é que vocês transformam tudo em Fla X Flu ideológico. Vocês transformam tudo numa luta do bem contra o mal. Isso é muito zoado, pessoal. De resto, agradeço por me classificar como reaça progressista. Juro que adorei. Agora vá lá curtir a Parada Gay que a daí deve ser quente!

Felipe Altenfelder: José Flávio Júnior quais as criticas dos musicos? Que não pagamos cache? que vendemos a musica para o capital? que monopolizamos a cena? Me diz ai, qual a critica coerente dos musicos que vc acha que de fato justificaria essa histeria toda? E o Minc? E a Funarte? E o Rock in Rio? E o LollaPalooza? E todos os outros que tambem nao pagaram cache quando nao tinha dinheiro e hoje nos criticam? Monstro nao pagava, abril, porão, fernando rosa, todo mundo ja fez show sem cachê, qual é o grande problema disso? Volto a perguntar, seria melhor sem fDE? Paramos de fazer nossos festivais e de atuar nos estados que atuamos? Essa é a proposta?

Carlos Garcia:  Muito bom texto Pedro Alexandre Sanches! Saudades demais de Macapá! Um pedacinho do coracão fica morando aí

José Flávio Júnior:  Eu nunca entrei nessa papagaiada de cachê. Sei muito bem que o FdE paga cachê. E cachê legalzão, se a ocasião demandar. Os músicos, em geral, acreditam que o FdE não se importa tanto com eles e com a cena como alardeia – é algo muito além do pagamento ou não de cachês. E que a politização é nefasta, especialmente a longo prazo. Hoje, o partido que está no poder e fecha com o FdE amanhã pode estar na lama. As relações que estão sendo construídas pelo FdE levam isso em conta? Eu acredito que não.

Carlos Garcia: É lúcido o que José Flávio Júnior tá falando sobre ligações partidárias. Sempre achei o mesmo.

Pablo Ortellado:  Felipe, vou deixar de lado a dimensão pessoal do seu comentário. Se você ler as coisas públicas que eu escrevi e falei sobre vocês, vai ver que eu não gosto da polarização: que eu ressaltei o papel positivo de vocês na campanha contra a Ana de Hollanda e o papel que o Mídia Ninja desempenhou chamando a atenção para a repressão nas manifestações. Aqui mesmo, umas linhas acima, ressaltei que já tinha ouvido de muitas fontes diferentes que vocês tiveram um efeito positivo em cenas locais afastadas de São Paulo e do Rio. Apesar disso, me esforcei para explicitar minha divergência, de maneira clara e não pessoal. Fiz isso porque acho que a crítica de bastidores (a fofoca) é covarde e apolítica. O que eu penso — sobre o hipercapitalismo, a estratégia de alavancagem de marca e a reintrodução da mediação jornalística pelo Mídia Ninja — está nos textos e falas disponíveis na Internet e são críticas conceituais e não pessoais.

Irajá Menezes: Ivana Bentes acaba de postar uma nota sobre o 5.º Congresso Fora do Eixo que vai começar em Brasília.
https://www.facebook.com/…/vida-fora-do…/756451761036346

Carlos Kaspchak:  Boa reportagem – esclarecedora – e a frase síntese: “se você estiver plenamente alinhado(a) com as balelas infantiloides que o jornalismo cultural gosta de contar” – não, não nos alinhamos!!!

Irajá Menezes: Pedro, retomando ali o seu comentário, me parece que o Lulu Santos, desde sempre, foi ele próprio um arremedo de show bizz americano. Há algo de novo no decadentismo do The Voice? Não é só mais do mesmo de sempre? Por que a indústria do entretenimento estaria “em frangalhos”? Olhando daqui, eles parecem bastante fortalecidos. E vai dinheiro público pros programas? Isso é uma afirmação contundente.

Pena Schmidt:  Muito bom. Pode continuar a série. Não esqueça o sorvete de gengibre.

Zé Brasil: Fora do Eixo, mesmo! A geração rock and roll, seus filhos e netos, nasceu e continua fora do eixo do conservadorismo, do puritanismo, do nazi-fascismo, do capitalismo enfim. A rebeldia e revolta dos genuínos rockeiros desde os anos 50 foi contra a hipocrisia da sociedade pós-guerra. Nossos pais não tinham culpa, mas nós temos obrigações com as futuras gerações, inclusive com a existência delas. Temos a responsabilidade da Revolução da Preservação Evolutiva. Somos a Infantaria do Sonho e da Esperança de um Mundo Novo, verdadeiramente sem fronteiras, com respeito à diversidade de tudo e de todos.

Pena Schmidt: “No resumo das minhas idéias (reflexões) discutir o fora do Eixo na música é como discutir a pirataria, é ruim pra alguns mas bom pra maioria.” O poeta Linha Dura deixou esta frase noutro pedaço do face. Saúdo o diálogo elevado e a procura do nexo, da causa, o diagnostico. Todos tem um tanto de razão. Vamos enxergando o tamanho da encrenca, procurando o melhor para a música, para o publico, para a borda. São muitas réguas e o cimento é pouco. Linha Dura obrigado.

Kléssius Leão: na imobilidade em que se encontra o panorama cultural de hoje, só um bom festival (sério, com júri seleto) abriria portas para talentos desconhecidos.

Felipe Altenfelder:  Pablo Ortellado, a minha critica não é pessoal, muito pelo contrário, estou me referindo a um intelectual, com mais de decada pesquisando e atuando em novos movimentos. O que to questionando é o metodo cientifico utilizado pra lastrear suas criticas. Muito me espanta que você tenha replicado depoimentos sem nunca ter pisado em uma Casa Fde, ou ter pesquisado diretamente com seus moradores, se dedicado um pouco mais a uma experiência que é complexa, nova, diferente e formada por pessoas com 26 anos em média, saida de estados periféricos e julgados a partir de uma serie de preconceitos. Me espanta ler uma entrevista sua para o dar onde diz que temos 3 milhões na conta sem a minima responsabilidade de apurar seriamente esse dado e essa informação, acho reducionista, pouco propositivo e até leviano. Acho bem bacana que se posicione publicamente sobre as coisas que fazemos, mas nada justifica dar guarida, chancela intelectual e incentivo a uma histeria seguida de ataques baixos e exagerados, com mais cara de linchamento do que de “avalanche de criticas”.

PAS: José Flávio Júnior, cê fica fazendo barulho, mas não responde nenhuma pergunta sequer das que eu te fiz. Tangente em todas.

Marcus A. Marçal (N.do.e: PAS não apoia esta proposta):  José Flávio Júnior merece levar umas porradas. E eu me proponho bater.

PAS: “hoje o partido que está no poder e (eu acho que) fecha com o FdoE amanhã pode estar na lama” – análise cultural enquanto ameaça, não dá, Zé.

PAS:  Irajá Menezes, porque é ~mais do mesmo~ você deixa passar batido enquanto centra todas as críticas do mundo no que NÃO É mais do mesmo? É isso que não engulo e que acho que é uma manobra reacionária (muito) mal dissimulada – às vezes consciente, às vezes não (o que é estarrecedor),

PAS:  Irajá Menezes, não existe mídia – Globo, Folha, Abril etc. – sem dinheiro público, e muito me espanta que a esta altura dos acontecimentos ainda tenha tanto agente cultural (e político) se fazendo de mortinho quanto a isso. É a festa do caqui, às vezes com verba federal, às vezes estadual, às vezes municipal, frequentemente as três. Quem é agente cultural aqui e disser que não ganha dinheiro público tá mentindo. Quem é espectador pagante tá pagando pela primeira turma, sempre. Você paga três ou quatro vezes pra ver seu ídolo no Lollapalooza. Procure saber, como costumam dizer por aí ultimamente.

PAS:  Grande Miranda Carlos Garcia, homra máxima ter seu comentário aqui (e aí, vai ou não vai produzir o disco do Minibox Lunar?, hahahaha). Acho que você provavelmente tem razão quanto às “ligações partidárias”, mas deixe eu colocar na reta a questão contrária. Não é também incômodo o hábito arraigado de artistas e agentes culturais se relacionarem com vários governos de vários partidos mas jamais demonstrar isso publicamente, de modo a nunca “ficar mal” com nenhum deles? Me parece a atitude predominante, e, sinceramente, me soa mal pacas.

Vinicius Lemos: Eu admiro demais o Otto Ramos, claro que temos maneiras diferentes de ver vários pontos, mas convergimos muito pela busca da música do norte e nos respeitamos muito. Já recebi ele no meu festival e tenho muita vontade de conhecer Macapá, uma das poucas capitais que não conheço. Claro que fica dificil pro meu festival competir com o dele nos editais, ja que tem os 400 mil, porém fico feliz pelo exito da galera comandada pelo Otto. Claro que acho que shows abertos tem sua força e necessidade, penso que todo festival com grana pública tinha que ter um dia aberto, todos acho que vicia o público. Parabéns pela matéria e ponto de vista. Quebramar é foda.

PAS:  Qual é o seu festival, Vinicius Lemos?

Vinicius Lemos:  Festival Casarão.

Talles Lopes: Vejo alguns pontos importantes que devem ser avaliados aqui. 

1) Pedro Alexandre Sanches saiu de São Paulo para conhecer um festival organizado por um coletivo FDE e fez um texto procurando relatar sua vivência. Um texto que para mim é muito bom pq fala de música, mas fala também de um ponto cultural fundamental para compreender o Brasil: o preconceito e visão centrista de nossa elite, seja ela econômica, política, cultural e intelectual. E faz uma provocação: será que temos a mesma disposição de avaliar outros modelos (Grande Indústria Cultural / Grande Mídia) com a mesma régua e entusiasmo que fazemos com o FDE?

2) Nenhuma das críticas que surgiram nos comentários apontaram no sentido da provocação que o texto trouxe. Ao contrário reviveram críticas ao FDE e em nenhum momento se dispuseram a falar do tema proposto por PAS.

3) As críticas de Pablo Ortelado, como já mencionado pelo Felipe, vem de um intelectual que tece hipóteses sem a mínima pesquisa sobre o objeto debatido. Prefere, do alto do posto de intelectual, fazer uma compilação de comentários para sustentar uma tese política, e não acadêmica. Isso é mais problemático quando o texto aborda o circuito cultural desenvolvido pelo FDE, que não é a “praia” de Pablo Ortelado. Seria bacana se houvesse disposição de visitar 10 festivais ao menos, nas 5 regiões brasileiras para que a análise ganhasse contornos mais sustentáveis. Sem isso, vejo retórica política tranvestida de disputa conceitual. 

3) Os músicos que se pronunciam, da mesma forma que o intelectual, não frequentam as plataformas FDE. Avaliam a partir de um vazio e de uma retórica recursiva em torno do mito do cachê e do dinheiro público. Seria bom saber o que fazem, onde tocam, se utilizam dinheiro público e quais outras alternativas avaliam como exitosas para a música que fazem. 

4) Em todos os comentários críticos, o trabalho feito pelo FDE no interior e na cidade que deu origem ao texto, Macapá, são reconhecidos e valorizados. Contradição? 

5) As críticas feitas por José Flávio Jr organizam-se a partir da idéia de que o problema é o afastamento do FDE da música, que fez com que as soluções que vinham sendo encontradas pelo próprio FDE perdessem fôlego. 

Amigos, se formos realmente não fazer Fla x Flu, temos então que minimamente iniciar o debate reconhecendo os fatos colocados acima e buscar jogar o debate para uma nova fase de aprofundamento e proposição de soluções. Temos que ir além se a intenção for realmente melhorar a música brasileira e não vencer uma batalha quixotesca. 

O FDE segue com suas ações na música, e vale lembrar que foi por isso que o texto do Pedro foi escrito, e suas plataformas vão servir e ser utilizadas por quem quiser e achar válido. Por sua legitimidade vai também continuar lutando pela ampliação dos mecanismos de financiamento desta atividade e utilizando destes mecanismos como todo o setor cultural brasileiro. Sem exceção. O texto mesmo aponta para outras ações culturais como Rock in Rio e Lolapalloza que utilizam destes mesmos mecanismos e que também devem ser debatidos. O produtor cultural que não operar com dinheiro público que atire a primeira pedra, ou apresente suas planilhas abertas. 

Estamos inclusive reunidos em Brasília na V Edição do Congresso FDE debatendo as nossas ações pra música e apresentaremos no final deste encontro nossas contribuições para a ampliação deste debate na Música, abordando estes temas aqui colocados e muitos outros que achamos importantes para a compreensão e amadurecimento do cenário musical contemporâneo. Como fazemos coisas todos os dias, tem muito o que refletir e claro melhorar sempre. 

Ah, e parabéns Otto por mais esta grande edição do Quebramar, e se alguém tiver realmente interesse em conhecer como trabalhamos na próxima semana tem 10 anos do Macondo Circus em Santa Maria. Só chegar pq tem festival literalmente do Oiapoque ao Chuí.

Maurilio Kuru Lima:  Ei Felipe Altenfelder, estou achando ótima essa conversa madura aqui. Já afirmei dezenas de vezes que o FDE é mais do que necessário para iluminar as escuridões do mercado (?) com suas reflexões e práticas prá lá de avançadas, dentre elas, essa aqui, provocando todo mundo a olhar para si, para os seus movimentos, dos mais públicos aos mais secretos. Quando o FDE, por meio da sua rede realiza algo de valor, expressado de forma culminante e simbólica no festival Quebramar (sem entrar em méritos os estéticos ou estruturais, principalmente porque é preciso buscar referencias outros e próximos regionalmente), tem que tocar o bumbo mesmo e chamar todo mundo a refletir, já que do outro lado, o destino de um festival como esse é ficar solenemente na invisibilidade, não somente porque não traz um convite digerível ao consumo massivo ou à pose, mas porque há uma preguiça pelo diferente e um apego gosmento pelo consolidado, e aí vamos de mídia, imprensa, patrocinadores e até poder público. Antes que me chamem de maniqueísta, boa parte dos envolvidos nessa conversa aqui, identificados com o FDE ou não, têm dado uma expressiva contribuição para a construção de um novo tempo na música e na cultura brasileira e o FDE, sem dúvida, como rede, tem uma força incrível, principalmente quando respeita e contribui, usando esta força, para o desenvolvimento de projetos aliados, ainda que não rezem na mesma cartilha. É essa mão dupla que precisa ser azeitada e que será capaz de, na prática, demonstrar a capacidade de construir o novo, com a convivência de modelos afins e não pela superação de uma única coisa por outra em escala global. Sinto que sou o mesmo quando estou debatendo ou trabalhando para construir um congresso ou evento do FDE, o Conexão, a SIM São Paulo ou na minha produtora, que visa lucro e a sobrevivência da nossa equipe e projetos. Essa é uma contradição maravilhosamente necessária e não um fator de antagonismo e afastamento. Fundamentalmente, preciso respeitar o legado do que sou e é nessas horas que reaprendo que é melhor acreditar e fazer do que falar que acredita.

Anderson Foca: Marcado nos comentários, esperei pra ver o nível do debate pra me colocar. Bem bom, diga-se de passagem. Estou aqui em Macapá com o Camarones, show otimo, boa estrutura, lugar legal, pessoas legais. Não vi, em anos, andando na plataforma do FDE, pessoas monstruosas. Pra mim é muito simples, o FDE atua numa ponta que quase ninguém atua, que é nas áreas mais distantes e no interior do país. Se o trabalho acabasse por aí já seria um dos mais importantes já feitos na história recente da nossa música. Algumas reclamações são patéticas. É igual playboizinho mimado da capital reclamar do bolsa-família, não sabe o que é passar fome e não conhece o país que mora na periferia. Claro, há falhas, problemas estruturais, dívidas, que praticamente todos nós da cultura tivemos e ainda teremos que enfrentar sempre. Zé Flávio, nesses anos todos como uma espécie de conselheiro sentimental do rolê com música, eu fui um dos que defendeu que o FDE se retirasse da ação com música. Levaram muita porrada, muita crítica bizarra, como se do outro lado tudo fosse perfeito. Eu no lugar deles teria virado o foco do trampo do FDE há tempos. É por aí, espero ter contribuido.

Anderson Foca: Eu odeio polarização porque fica todo mundo incapaz de achar a parte boa de ambos os lados. Vira um pastiche de debate. 100% do que eu me abstenho de emitir uma opinião é por conta da tal polarização. Sobre o Otto Ramos, um cara do caralho. Isso aí já resolve tudo pra mim.

Maurilio Kuru Lima: Falou e disse Foca.

Leo Moraes: Assino embaixo, Anderson Foca.

PAS: Talles Lopes, obrigado, sobretudo, por notar e expor o que você coloca no item 1. Eu fico estarrecido, pra variar, com as indignações seletivas e o silêncio tumular em relação ao que as manadas não querem colocar na roda.

PAS:  E você sabe, Maurilio Kuru Lima, que pra estar aqui tive de abdicar de um “festival” em SP – o SIM – é, inclusive, de uma mesa com o André Misani, outro cara que costuma ser ouvido apenas seletivamente pelos “admiradores”, pelo jornalismo cultural e pela comunidade cultural. Fazer essa escolha doeu. E espero que tenha sido de arromba.

PAS: E finalmente eu conheci o Anderson Foca (procure saber, playboyzada) e vi a excelente banda potiguar dele, Camarones Orquestra Guitarrística – que tem uma moça guitarrista performática sensacional. De fato, Foca, não tem polarização que resista à música, quando ela quer conversar com todo mundo.

PAS:  Como vários, tô feliz e surpreso com o nível da discussão que tá rolando aqui. Confesso que tava esperando mais uma rodada de acusações falso-moralistas, vendettas, jornalismo de porta de cadeia e sensacionalismo pseudo-cultural. É maravilhoso ver quanto a gente pode crescer coletivamente em um ano ou seis meses – se quiser. Obrigado a todos que responderam meu apelo de “quero muito ouvir a opinião de vocês”.

Paola Oliveira:  eu fiz parte de um debates no pós-tv aqui em porto alegre. Acho respeitável o trabalho desta galera..como diz manuel castells – fazem o que conseguem fazer, com crítica, correndo riscos mas sempre com esperança por um mundo que gostaríamos de viver.

PAS: E adorei a analogia do Foca. Distribuição de renda, Bolsa Família, Mais Médicos, descentralização, novos modelos de cultura, mídia livre, jornalismo cidadão: tudo que AMPLIA e DISTRIBUI DIREITOS provoca chiadeira instantânea do nosso lado mais reacionário. Alternam-se os personagens, o mecanismo é sempre o mesmo.

Paola Oliveira: engraçado o cara vai morar na alemanha ganha incentivo (bolsas auxílios como moradia e desemprego) aí chega no brasil e aqui faz parte da classe média alta e não aceita isso para seus irmãos pobres de patria. Vi isso com pessoa que conheço!

Bia Abramo:  Pedro, querido, na minha enorme pretensão, achei que você gostaria que eu lesse 🙂

Manoel Neto: replicando aqui… “Nem diga Pedro Alexandre Sanches eu também… desde os tempos em que a comunicação ocorria por carta e eu e o Digão Duarte te enviávamos zines e demos de bandas, a coisa mudou muito. Sigo acompanhando as cenas, mais na movimentação social e política, do que nos shows. Mas o ponto que realmente quero fixar é que desconfio, que damos ar ideológico demasiado ao cenário alternativo e independente, e mesmo no dito underground, como elementos de uma resistencia. E se fazemos isso é pelo mesmo motivo, pelo entusiasmo que sempre tivemos pelo independente, ao qual compartilho. Só não sei a que ponto, diante dos autores que citei, que podemos afirmar que existe uma transformação, algo realmente revolucionário, ou simplesmente existe uma disputa de espaço. E se existe disputa, é mesmo pela incorporação do capital… e nisso, nada é novo, a não ser demonstração do mesmo jogo. E nisso o FDE, pode acabar por se diferenciar do explorador. A minha critica nem é contra qualquer movimentação, ou conflitos com os cenários locais que eles possam ter. Acho positivo a forma de organização, a minha analise pelo viés marxista, é de que o MAIS VALIA segue dentro do modelo deles… e isso é o ponto em que vejo pouca mudança. Precisamos de uma economia cultural, criativa, efetivamente social e trocas simbólicas. estamos longe disso… Mas se o FDE esta longe, os cenários de música, super individualistas, estão ainda mais… portanto criticar o FDE sem analisar que as praticas ainda são negativas em todos os cantos, torna-se inútil… Ao mesmo tempo, que precisamos reconhecer que existem outras movimentacões, temos ainda que encarar a realidade. De que se o FDE é tema… é relevante, ao mesmo tempo, que se existe crítica, também existem fundamentos. Olhar o FDE sem ilusões, requer olharmos para cultura e industria cultural, todos dentro do sistema capitalista. Ao admitir isso, também estamos admitindo que a cultura de lado a lado é objeto do capital e não consegue mais se livrar deste fardo. A lógica do capital nos tomou… Abraço”

Marco Caperino: Desculpem invadir o espaço, mas penso que este artigo mostra o quanto os ambientes “corporativos” da cultura podem não ser assim tão profissionais como apregoam, e de novo levanta-se a questão do dinheiro: http://www1.folha.uol.com.br/…/1379447-a-gente-nao-quer…

PAS:  Poizé, Marco Caperino, vem totalmente a calhar esse texto, publicado, quem diria?, pela Folha. Se eu contar pra vocês o quanto, em 20 anos de profissão, eu já trabalhei (e ainda trabalho) de graça ou a preço de banana, vocês choram. Ou não choram, porque sabem exatamente o que é isso. Ou seja, choram, de todo jeito.

Grodisli Dinossauro: Ah, o Fora do Eixo não paga cachê? Menos mal: trabalhei em uma publicação musical, o “International Magazine”, do Rio de Janeiro (PeLExanSan já deve ter ouvido falar, inclusive seu xará, Pedro Só mantinha coluna nela, “Detalhes Sórdidos”), dirigida por Marcelo Fróes e Marcos Petrillo, e não recebia um único centavo pelos artigos que redigia. E olha que o jornal era vendido nas bancas!

Cínthia Leone: Os programas de trainee dessa mesma folha, do estadão e da editora abril seguem exatamente a msm lógica: escravos de nível superior.

PAS:  Não é o mesmo assunto, mas decididamente é parente:

http://br.noticias.yahoo.com/…/n%C3%A3o-somos-racistas…

PAS: Pra quem estranhou eu dizer que tem dinheiro público no Rock in Rio, no Lollapalooza, na Globo etc. e estiver interessado em investigar, acho que há pista importantes aqui. A mesma empresa das Organizaçções Globo, veja que interessante, “promove” Lollapalooza e eventos da Copa do Mundo – e mesmo assim está prestes a fechar as portas, que coisa exótica:

http://www.meioemensagem.com.br/…/O-fim-da-Geo-Event.html

PAS: Existe jornalismo cultural investigativo? Existe jornalismo esportivo investigativo?

João Leiva: Na cultura como no esporte, sobra opinião, mas falta informação

 

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