o barbeiro benito teve de se mudar às pressas…

                                essa pequena vila vai sumir em breve…

“Não gosto de cama mole nem sei comer sem torresmo”.

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Também sou do mato, mas não compartilho das aflições descritas pela linda música de Dominguinhos e Gil.

Muito cedo aprendi a fazer da cidade mato, e do mato cidade. Compro caxi e maxixe na feira. Penduro jornal na banca. Caçamba cheia de cavaco de madeira é convite para reinventar a casa. O bom da vida é aproveitar o melhor de cada um, mato e cidade, sem conspurcar um nem outro.

A coisa que mais me aflige, contudo, é a desaparição das coisas sutis.

São Paulo acha que sua única vocação é o gigantismo, a shoppingcenterização das coisas.

Não consegue saborear o refinamento da coisa artesanal, da ideia de comunidade.

Em geral, os especuladores que operam as marretas de demolição são aqueles mesmos caras que vão à Europa nas férias e voltam falando maravilhas da delicadeza da vila chamada Christiania, no centro de Copenhague, ou do lindo casario da Place des Vosges, em Paris, ou da alegria do Caminito, em Buenos Aires.

Agora, o alvo é a Vila Madalena. Está em avançado processo de desaparição.

Começaram pelas barbearias, pelas oficinas mecânicas, pelos pequenos bazares. Destroçam os sobrados, escavam as casinhas de azulejo.

Asfixiam os donos, ou então oferecem quantias fabulosas para que sumam.

Então, da noite para o dia, surgem os edifícios que burlam a lei, os escritórios que imitam lofts que imitam Philippe Starck, bares com tamanho de churrascaria (quase todos fadados ao fechamento).

Do lado do Genésio, surgiu um monstro que atravessa toda uma quadra. Um Titanic de falso granito, infiltrado em toda a área como se fosse um marca-passo gigante. Do lado do Bradesco da Rua Fidalga, um Transformer de concreto e aço tomou a paisagem.

Hoje eu soube bem cedo que o casario que fica na Avenida Faria Lima, no lado oposto ao Instituto Tomie Ohtake, vai ser derrubado.

Continuação da obra ímpar de Paulo Maluf, que abriu essa clareira do Inferno no meio da Vila.

Aquele casariozinho é uma ilha de sutileza na frente daquele Golum de vidro.

Será erguido ali, me disseram, um novo Hotel Unique. Mais um monstrengo.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter desde 1986 e autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019), Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021), O Último Pau de Arara (Grafatório, 2021) e A Culpa é do Lou Reed (Reformatório, 2024)

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