Com uma pena de urubu no turbante, arrastando um trombone, o baiano Gerônimo entrou em cena acompanhado de duas vocalistas bonitas e com uma cara fofa de Buda Nagô de lojinha de templo. Depois de Luiz Caldas e Sara Jane, era um dos pioneiros da geração da chamada “axé music” desembarcando no palco Arouche, às 14h do domingo.
    
     Eu só tinha ouvido falar esparsamente de Gerônimo nessas últimas décadas, embora o tenha conhecido pessoalmente na redação em meados dos anos 1980, quando ele veio trazer um disco e eu ignorei por puro preconceito. Em cena, nunca o tinha visto cantar, não sabia direito o que era Gerônimo.
   
     Pois bem: nada é menos axé music do que Gerônimo. Contam que Dorival Caymmi o escolheu pessoalmente para cantar É d’Oxum, que entrou na trilha daquela série Tenda dos Milagres. Cantando quase sempre em ioruba, fazendo afoxés lindos, balançando ao som do candomblé de sua percussão, tocando seu trombone como elemento de amálgama entre fé e proclamação, alegria e História, Gerônimo me fez sentir vergonha da minha displicência.

    Foi por causa de Eu Sou Negão, de Gerônimo, mistura de reggae e muzenza, que Caetano fez Eu Sou Neguinha. Gerônimo parece que nunca fez uma música para a plateia cantar junto consigo. Não parece preocupado com isso, entretanto. Está no palco com sua banda afirmando uma verdade que é anterior à sua existência, mas ele tem como prová-la.

    Também li que Gerônimo passou anos tocando com sua banda na escadaria da igreja do Santíssimo Sacramento, no Centro Histórico de Salvador (a igreja usada como cenário do filme O pagador de promessas, de Anselmo Duarte, ganhador da Palma de Ouro em Cannes).

    Achei lindo o show de Gerônimo, assim como fiquei com um pouco de inveja de sua colossal integridade e autoconfiança.

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