Secretaria Municipal de Cultura reconhece o gênero e abre espaço para artistas das periferias.

O funk de São Paulo terá seu momento áureo de integração com o poder público dentro de alguns dias na Virada Cultural. A Secretaria de Cultura, sob o novo comando de Juca Ferreira, finalmente enxergou o maior movimento cultural nascido na periferia de São Paulo dos últimos anos.

A criação de uma pista para o funk e com ampla maioria de MCs de SP do movimento funk ostentação vai em sentido oposto de tudo que o ex-secretário Carlos Augusto Calil fez nas outras edições do evento. Lembro de reclamações no ano passado da ausência de um palco de forró, mais um indício que a programação da Virada paulistana era voltada para a classe média, que inclusive mora mais perto do centro. Para as periferias sobravam um showzinho aqui e outro ali nos CEUs, e de artistas que não eram os da preferencia da população.

A história do diálogo do poder público com o funk começou em 2008 com o 1º Festival de Funk – Canta Cidade Tiradentes. O evento teve como um de seus “diretores artísticos” Bio G3, um dos primeiros funkeiros da capital e pai do funk ostentação com o “Bonde da Juju”. Pelo palco, organizado pela Subprefeitura de Cidade Tiradentes e sem nenhum apoio da Secretaria de Cultura, passaram nomes hoje famosos das periferias como MC Dede, Nego Blue, MC BO, Belet e Oreia. O público de mais de 30 mil pessoas, a maioria composta de jovens, parecia gritar que finalmente o poder público tinha, ainda que de maneira tímida e bem distante do centro, olhado para eles.

Em 2010, veio o projeto da Estação da Juventude com o DJ Tecyo Queiroz, um dos melhores do Brasil, dando aula de DJ com MPC para os jovens da região. Mas havia naquele momento a tentativa de institucionalizar a música que fazia sucesso nas ruas com o baile funk permitidão, organizado por uma subprefeitura e com fiscalização da Policia Militar e da Guarda Civil Metropolitana para evitar o consumo de bebidas alcóolicas por menores e horário para acabar.

Vale dizer que essas iniciativas foram conversadas e sempre muito bem aceitas pelos funkeiros. Uma parte desse movimento está muito bem retratado no documentário “Funk da CT” de Leandro HBL.

FUNK DA CT_A invasão do Baile Funk em São Paulo! from Mosquito Project on Vimeo.

Depois disso a Secretaria Estadual de Cultural abriu alguns espaços para o funk com a inclusão de MC Dede, MC Wá e o Projeto Funclassic, com uma linda homenagem aos MCs da Baixada Santista assassinados, na Virada Paulista.

Também através das Fábricas de Cultura, grandes centros culturais construídos pelo governo do Estado na periferia paulistana, os MCs dos bairros conquistaram um importante espaço para mostrar suas rimas e ainda houve uma mistura inusitada da Orquestra Jazz Sinfônica sob a regência do Maestro Galindo, tocando com dois nomes consagrados do funk: MC Dede e Nego Blue.

Na zona sul, a Secretaria Estadual de Cultura apoiou o Festival de Funk de SP que levou mais de 20 mil pessoas ao Jardim Jangadeiro, onde mais de 150 jovens disputaram o primeiro lugar para ganhar um vídeo clipe profissional. Ao mesmo tempo, o funk da periferia avançou sobre o território da classe média alta e diversas casas noturnas na Vila Olímpia, Itaim Bibi e Vila Madalena aderiram ao ritmo.

O último foco de resistência continuava sendo a Virada Cultural da Prefeitura paulistana, onde o funk e ritmos populares foram tratados como não cultura em suas edições passadas. Com a entrada de Juca Ferreira e, ao que parece pelos primeiros meses de gestão, uma administração mais integrada aos anseios da população do que com a “visão elitista” de um restrito grupo que comandou a secretaria durante quase 8 anos, o funk paulista foi incluído no principal evento cultural da cidade com um espaço próprio.

Resta agora saber se o secretário e sua equipe conseguirão organizar os “fluxos”, como são chamados os bailes funks de rua, e se esquivar dos delírios e das bravatas da “bancada da bala”, como são chamados os vereadores ex-policiais que propõem, munidos de uma lei e muitos discursos, acabar com festas que mobilizam mais de um milhão de pessoas em todos os finais de semana.

Axé, Juca!

* Renato Barreiros é produtor cultural, foi subprefeito de Cidade Tiradentes que reconheceu o bairro como berço do movimento funk na capital paulista e é um atento observador do gênero

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