Um repórter que luta contra os próprios preconceitos vai além do maniqueísmo e observa, ao vivo, a realidade bem mais complexa e diversificada de um show da Banda Calypso em SP.    

Joelma no Tropical Dance - fotos Rodrigo Zerneri

 

A minha adoração pela música paraense, na qual destaco especialmente ritmos, sonoridades e artistas que vão de Pinduca, Mestre Laurentino e Dona Onete até Gaby Amarantos e Fafá de Belém, também inclui a Banda Calypso.

No início, eu era cheio de preconceitos, principalmente estéticos. Mas, há aproximadamente seis, sete anos, eles conquistaram meu interesse. Não conheço muitas músicas, não sou um grande especialista, mas sempre quis, por exemplo, assistir a um show do Calypso. E levado por um novo amigo – e velho fã do grupo – tive a oportunidade no sábado, dia 27 de abril, num momento delicado, em que muitos dos amigos e colegas de trabalho que me cercam estão duramente revoltados com a cantora Joelma, após suas declarações cheias de contradições, uma mistura de inocência ignorante com crueldade conservadora, religiosa e homofóbica.

E lá fomos nós…

Em primeiro lugar, meu amigo me deu algumas orientações: vamos chegar na primeira apresentação do dia, que deve acontecer por volta da meia-noite. Eles se apresentaram primeiro numa casa de shows em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, chamada Tropical Dance. Logo depois, partiram para a segunda apresentação, no Santana Hall, outra boate nos mesmos moldes populares, em Santana, na zona norte, numa região mais periférica que a primeira.

A ideia era pegar o show mais cedo, já que a segunda sessão poderia se iniciar às 4 horas da manhã.

Chegamos pelas 23 horas, mas resolvemos tomar cerveja num boteco ao lado. Confesso que as pessoas muito diferentes de mim na porta me deixaram bem inseguro. A maioria eram casais, homens brutos, descendentes de nordestinos ou grupos de mulheres muito produzidas, até de forma exagerada, na roupa, maquiagem e perfume.

Por volta da meia-noite, saímos do bar e fomos em direção às bilheterias da casa para comprar os ingressos. Duas grandes filas já se formavam – uma para atender os homens (para o valor de R$ 35), outra para as mulheres (com preço reduzido para R$ 25).

Para minha surpresa, encontrei várias travestis e gays “afeminados”, com cabelos coloridos e sobrancelhas exageradamente moldadas. Parece que as declarações de Joelma não surtiram efeito para uma legião  extremamente fiel desses fãs. 

Na mesma fila, um grupo de mulheres frequentadoras da casa reclamava do preço para a noite especial: “O que é isso?, esse preço é um assalto!”. Meu amigo explicou: “O Calypso aluga as casas e recebe o dinheiro de toda a bilheteria, então eles aumentam mesmo o preço. No Centro de Tradições Nordestinas (CTN), na semana passada, era R$ 60”.

Entramos. A casa era grande, deviam caber umas 2 mil pessoas. Tinha bastante gente, mas estava longe de lotada. Seria a causa o preço, ou o momento nada favorável do grupo?

Entramos no banheiro masculino, e o número de “bibas afetadas” era considerável perante os machões nordestinos. Já as travestis, vi entrando no banheiro feminino.

O público dançava hits do sertanejo universitário, arrocha, axé. Compravam literalmente baldes com gelo e cerveja e colocavam em mesas espalhadas pela casa. Coisa parecida só vi em Belém.

O Calypso já estava em cima do palco passando som, mas um grande pano branco protegia a magia da entrada triunfal do conjunto dos fanáticos que se juntavam à frente do grupo.

Sentado no palco havia um homem segurando um saco de CDs, DVDs e camisetas oficiais do grupo. Meu amigo explicou: “Esse é o Pirata. Ele não tem um olho. Durante os shows, ele vende todos os produtos do grupo”. Além do Pirata, outros funcionários da casa vendiam rosas e souvenirs da banda, como canecas, camisetas, CDs e DVDs por preços populares (CDs a R$ 5, DVDs e camisetas a R$ 10 cada).

O locutor com tom de voz de rodeio gritou: “Quem aqui veio ver o Chimbinha? Quem aqui veio ver a Joelma? Quem aqui veio ver o Calypsoooo?!”.

O pano braço se abriu e a banda entrou no palco. Há muito tempo não via um corre-corre de fãs, um empurra-empurra tão grande, além de um público tão barulhento. No gargarejo, mulheres, gays e travestis devotos de Joelma se empurravam para ter um espaço mais próximo da diva.

Joelma, de cyber-sutiã, mini-shortinho dourado, quase nua, apareceu toda serelepe, com dois casais de bailarinos. Começaram com a música da novela Salve Jorge, novas canções, pot-pourri de sucessos, tudo num ritmo frenético. Parecia aula de aeróbica.

As bibas enloqueciam, as travestis batiam cabelo e as mulheres gritavam e queriam tirar fotos, muitas fotos. Detalhe: quase não havia para isso celulares, mas sim máquinas fotográficas digitais. Os fãs não se importavam com falta de espaço, nem com a ordem de chegada. Todo mundo empurrava, passava na frente e enfiava a mão na sua cara com a câmera para tirar uma foto mais à frente. Uma mulher ainda pediu para que meu amigo, mais à frente e mais alto do que ela, fizesse uma foto.

As pessoas queriam dar as rosas que compraram para Joelma, jogar presentes, mostrar os cartazes para ela ler. Irritado com o empurra-empurra, comentei com meu amigo: “Que gente sem educação!”. Ele respondeu: “Mas também, olha o lugar que você está!”.

Joelma se comunicava com o público, mandava beijos, parecia conhecer todos do gargarejo. Dessa vez não pediu desculpas, mas meu amigo disse que até semana passada, no CTN, ela se desculpava com o público gay pelas declarações da entrevista à revista Época e dizia que amava da mesma forma seus fãs gays e héteros. Para minha máxima surpresa, meu amigo me contou que já andou “saindo” com um dos bailarinos da Joelma!

O show tinha uma troca de roupa. Joelma volta “princesa do Baixo Augusta”, de vestido até o chão, bota até o joelho, cabelo de Barbie. Era o momento das baladas românticas. Os bailarinos dançavam interpretando as canções. Over, mas ornava no momento e todo mundo parecia adorar.

Para dançar e cantar “Entre Tapas e Beijos”, tema da série global homônima, Joelma jogou o vestido fora e voltou com o visual lingerie. Um bailarino abriu a jaqueta, o único gesto mais sensual do quarteto, que até ali estava longe de algum gesto mais sexy, embora os shorts das meninas fossem bem pequenos. Os homens usavam de calça comprida e camisa.

O show teve duração de 1h15 aproximadamente. A turma gay foi embora e fez tumulto na porta da saída dos artistas, já na rua. Todos queriam ver, fotografar e tocar em Joelma. Um carro importado, insulfilmado, levou o casal diretamente para o próximo show, no Santana Hall, para desespero de alguns mais comovidos. A banda veio depois e saiu num ônibus todo decorado com o logotipo do grupo.

Alguns fãs pegaram o carro e correram também para o próximo show. Notei duas patricinhas destoando na plateia Loirinhas, até pareciam “gringas”. Passaram o show dançando, cantando e rindo muito.Enquanto esperava meu carro, passaram com o delas buzinando e gritando: “Vamos para o Santana Hall!”. As travestis, já na rua, sem carro, comiam um cachorro-quente. Nós voltamos para casa.

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome